Casos
como o de Laurent Simons e de outros jovens prodígios da
ciência contemporânea reacendem um debate recorrente: de onde procedem talentos
intelectuais tão desproporcionais à idade cronológica?
Embora
a biologia e a neurociência ofereçam explicações importantes, elas se revelam
insuficientes diante de inteligências que, ainda na infância, ultrapassam
padrões acadêmicos normalmente construídos ao longo de décadas.
Na
história humana temos exemplos de genialidades precoces como Miguel
Ângelo, que aos doze anos já era um magistral artista; Balzac,
aos oito, já compunha pequenas comedias; Wagner, aos 6, já havia
lido a história de Mozart; Carlyle aprendeu a ler
aos 4; Alexandre Dumas, aos 4, lia a História Natural de Buffon.
Walter
Scott aprendeu
a ler entre 3 e 4 anos. Voltaire; educado por um padre; aprendeu a
ler aos 3. Antes dos 12 versejava com admirável fluência; Goethe;
aos 7 compunha versos em latim e; antes dos 9; fazia um poema; parte em latim;
parte em grego e parte em alemão; Hermógenes; aos 15 ensinava
retórica ao imperador Marco Aurélio; Victor Hugo; aos 13 ganhava um
prêmio nos jogos florais de Toulouse; Stuart Mill, aos 8 já
conhecia o grego perfeitamente e aos 10 aprendeu o latim.
No
século XIX, numerosos pensadores renderam-se à reencarnação: Dupont de
Nemours, Charles Bonnet, Lessing, Constant Savy, Pierre Leroux, Fourier, Jean
Reynaud. A doutrina das vidas sucessivas foi vulgarizada para o grande
público por autores como Balzac, Théophile Gautier, George Sand e
Victor Hugo. Pesquisadores como Ian Stevenson, Brian L. Weiss, H.
N. Banerjee, Raymond A. Moody Jr., Edite Fiore e outros trouxeram
resultados notáveis sobre a tese reencarnacionista.
Grande
parte das tentativas de estudar precocidade intelectual, sem levar em conta a
pré-existência do Espírito, esbarra em resultados nada satisfatórios ou em
dificuldades insuperáveis, em face da necessidade de se considerar essa
hipótese. Caso contrário, entra-se em um beco sem saída e o progresso da
ciência nessa área permanecerá na inércia
O
Espiritismo aborda essa questão sem recorrer ao milagre nem ao acaso.
Fundamenta-se na lei do progresso do Espírito, segundo a qual o ser pensante
não reinicia sua trajetória do “zero” a cada encarnação, mas prossegue um
processo contínuo de aprendizado.
Allan
Kardec afirma que o Espírito progride através de múltiplas existências
corporais, acumulando experiências e aquisições intelectuais e morais (KARDEC,
2005).
À
luz desse princípio, a precocidade intelectual não constitui exceção às leis
naturais, mas sua confirmação. A inteligência precoce pode ser compreendida
como a exteriorização de conhecimentos anteriormente adquiridos, que o Espírito
reencontra com facilidade quando dispõe de um organismo físico adequado. O
cérebro, nesse contexto, funciona como instrumento de manifestação, e não como
origem do saber.
Kardec
é explícito ao tratar do fenômeno do gênio, afastando a ideia de privilégio
arbitrário. Para o Codificador, a genialidade representa faculdades
conquistadas anteriormente, revelando progresso já realizado pelo Espírito
(KARDEC, 2008). Assim, o que parece desigualdade injusta revela-se consequência
lógica da lei de causa e efeito aplicada ao desenvolvimento espiritual.
Léon
Denis aprofunda essa reflexão ao afirmar que as grandes inteligências da
Humanidade são Espíritos antigos, que atravessaram longos ciclos de
experiência, esforço e sofrimento. Para ele, o gênio não surge de uma única
existência, mas resulta de um passado espiritual rico em aprendizados
sucessivos (DENIS, 2010).
Entretanto,
o pensamento espírita é cuidadoso ao distinguir progresso intelectual de
progresso moral. Denis adverte que o desenvolvimento da inteligência não
implica, necessariamente, elevação do caráter, podendo coexistir com
desequilíbrios emocionais, orgulho ou fragilidades éticas (DENIS, 2011). A
genialidade, portanto, não é sinônimo de superioridade espiritual.
Essa
advertência é reforçada por Emmanuel, ao lembrar que a inteligência é
instrumento neutro, cuja direção depende dos valores que a orientam. Sem o
amparo da moral, o intelecto pode converter-se em fator de desequilíbrio
individual e coletivo (EMMANUEL, 2013).
Não
surpreende, assim, que muitos gênios precoces enfrentem provas complexas no
campo afetivo, social ou psicológico. A precocidade intelectual, longe de
representar apenas privilégio, pode constituir compromisso espiritual exigente,
no qual o Espírito é chamado a harmonizar conhecimento, humildade e
responsabilidade moral.
O
Espiritismo, portanto, não vê nos gênios mirins uma negação da justiça divina,
mas sua expressão mais coerente. A pluralidade das existências explica as
desigualdades aparentes sem recorrer à arbitrariedade: cada Espírito colhe, no
tempo oportuno, os frutos do próprio esforço acumulado.
Conclui-se
que a genialidade precoce pode oferecer suporte robusto à reencarnação em
sentido científico e ajusta-se a ela com notável coerência filosófica e moral.
Diante desses fenômenos, a Doutrina Espírita reafirma seu eixo central, a
preexistência da alma.
Referências
bibliográficas:
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.
KARDEC,
Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de
Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008.
DENIS,
Léon. Depois da Morte. Tradução de Carlos Imbassahy. 26. ed. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 2010.
DENIS,
Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Tradução de Homero Dias de
Carvalho. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.
EMMANUEL.
Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 25. ed. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013.
