Jorge Hessen
Brasília - DF
Urge reconhecermos o direito
de errar, não como obséquio moral, mas como imperativo lógico da Criação.
Fomos criados simples e ignorantes, conforme ensina o Espiritismo,
destinados ao progresso gradual, pela experiência e pelo aprendizado sucessivo.
Exigir acertos absolutos de espíritos ainda em formação é desconhecer a própria
justiça divina.
O Benfeitores são
categóricos ao afirmar que “Deus criou todos os Espíritos simples e
ignorantes, isto é, sem ciência, para que cada um tivesse o mérito de adquirir,
pelo trabalho, o conhecimento” (KARDEC, 2013, q. 115). O erro, portanto,
não é um desvio do plano divino, mas parte integrante de sua pedagogia. Aprende-se
errando; progride-se corrigindo.
Nesse cenário, a culpa,
quando absolutizada, converte-se em mecanismo injusto e paralisante. Ela não
educa; ela oprime. Ao negar-nos o direito de errar, a culpa excessiva
contradiz a própria razão de nossa criação. Emmanuel adverte que “ninguém
se reajusta pelo remorso improdutivo, mas pela reparação no bem”
(EMMANUEL, 2012, p. 87). A consciência não foi feita para esmagar o espírito, e
sim para despertá-lo.
A Justiça Divina,
diferentemente do que supõe a crença vulgar, não é condenatória nem punitiva.
Ela é essencialmente educativa. As Leis de Deus, inscritas na
consciência humana, operam por meio das provações, que ensinam, e das expiações,
que reequilibram. Kardec esclarece que “a expiação é sempre uma prova,
mas a prova nem sempre é uma expiação” (KARDEC, 2013, q. 171),
demonstrando que não há castigo arbitrário, mas finalidade moral.
Léon Denis reforça essa
compreensão ao afirmar que “o sofrimento não é uma vingança do céu, mas um
instrumento de educação para a alma” (DENIS, 2010, p. 214). Onde muitos
enxergam punição, o Espiritismo identifica oportunidade de reajuste e
crescimento interior.
Todavia, reconhecer o
direito de errar não nos exime do dever de acertar. Quando o
indivíduo se refugia no desculpismo consigo mesmo, cai na preguiça moral e na
acomodação espiritual. Emmanuel alerta que “a estagnação é uma forma
sutil de rebeldia contra a Lei do Progresso” (EMMANUEL, 2011, p.
132). A consciência desperta não se tortura, mas também não se absolve
levianamente.
Por isso, diante dos
equívocos — sobretudo os deliberados —, impõe-se o movimento ativo do desagravo.
Reparar não é sofrer inutilmente; é reconstruir. Não é penitência vazia;
é responsabilidade lúcida. Kardec já advertia que “o verdadeiro espírita
se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar
suas más inclinações” (KARDEC, 2013, Introdução, item VI).
Esse processo exige reflexão
consciencial, esforço contínuo de harmonização com as Leis Divinas, coragem
para pacificar o próprio eu e disposição para desenvolver virtudes. Denis
sintetiza com precisão: “não há progresso sem esforço, nem elevação sem
sacrifício consciente” (DENIS, 2009, p. 176).
O grande desafio está no
equilíbrio: nem a exigência neurótica da perfeição imediata, nem a
negligência confortável do adiamento eterno. Fora desse eixo, o espírito se
enreda em tormentas íntimas; dentro dele, inicia-se a verdadeira harmonia com a
própria essência espiritual.
Errar, aprender, reparar
e prosseguir — eis a pedagogia divina da
consciência. Nela não há condenados, apenas espíritos em educação,
caminhando, gradualmente, rumo à perfeição relativa, quando então refletirão,
em grau elevado, o ideal do Cristo, Guia e Modelo da Humanidade.
Referências Bibliográfica:
DENIS, Léon. O
problema do ser, do destino e da dor. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
DENIS, Léon. Depois da morte. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido
Xavier. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
EMMANUEL (Espírito). Caminho, verdade e vida. Psicografia de Francisco
Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
