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  • 31 de jan. de 2026

    DIREITO DE ERRAR APRENDENDO ERRANDO; PROGREDINDO CORRIGINDO


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Urge reconhecermos o direito de errar, não como obséquio moral, mas como imperativo lógico da Criação. Fomos criados simples e ignorantes, conforme ensina o Espiritismo, destinados ao progresso gradual, pela experiência e pelo aprendizado sucessivo. Exigir acertos absolutos de espíritos ainda em formação é desconhecer a própria justiça divina.

    O Benfeitores são categóricos ao afirmar que “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem ciência, para que cada um tivesse o mérito de adquirir, pelo trabalho, o conhecimento” (KARDEC, 2013, q. 115). O erro, portanto, não é um desvio do plano divino, mas parte integrante de sua pedagogia. Aprende-se errando; progride-se corrigindo.

    Nesse cenário, a culpa, quando absolutizada, converte-se em mecanismo injusto e paralisante. Ela não educa; ela oprime. Ao negar-nos o direito de errar, a culpa excessiva contradiz a própria razão de nossa criação. Emmanuel adverte que “ninguém se reajusta pelo remorso improdutivo, mas pela reparação no bem” (EMMANUEL, 2012, p. 87). A consciência não foi feita para esmagar o espírito, e sim para despertá-lo.

    A Justiça Divina, diferentemente do que supõe a crença vulgar, não é condenatória nem punitiva. Ela é essencialmente educativa. As Leis de Deus, inscritas na consciência humana, operam por meio das provações, que ensinam, e das expiações, que reequilibram. Kardec esclarece que “a expiação é sempre uma prova, mas a prova nem sempre é uma expiação” (KARDEC, 2013, q. 171), demonstrando que não há castigo arbitrário, mas finalidade moral.

    Léon Denis reforça essa compreensão ao afirmar que “o sofrimento não é uma vingança do céu, mas um instrumento de educação para a alma” (DENIS, 2010, p. 214). Onde muitos enxergam punição, o Espiritismo identifica oportunidade de reajuste e crescimento interior.

    Todavia, reconhecer o direito de errar não nos exime do dever de acertar. Quando o indivíduo se refugia no desculpismo consigo mesmo, cai na preguiça moral e na acomodação espiritual. Emmanuel alerta que “a estagnação é uma forma sutil de rebeldia contra a Lei do Progresso (EMMANUEL, 2011, p. 132). A consciência desperta não se tortura, mas também não se absolve levianamente.

    Por isso, diante dos equívocos — sobretudo os deliberados —, impõe-se o movimento ativo do desagravo. Reparar não é sofrer inutilmente; é reconstruir. Não é penitência vazia; é responsabilidade lúcida. Kardec já advertia que “o verdadeiro espírita se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2013, Introdução, item VI).

    Esse processo exige reflexão consciencial, esforço contínuo de harmonização com as Leis Divinas, coragem para pacificar o próprio eu e disposição para desenvolver virtudes. Denis sintetiza com precisão: “não há progresso sem esforço, nem elevação sem sacrifício consciente” (DENIS, 2009, p. 176).

    O grande desafio está no equilíbrio: nem a exigência neurótica da perfeição imediata, nem a negligência confortável do adiamento eterno. Fora desse eixo, o espírito se enreda em tormentas íntimas; dentro dele, inicia-se a verdadeira harmonia com a própria essência espiritual.

    Errar, aprender, reparar e prosseguir — eis a pedagogia divina da consciência. Nela não há condenados, apenas espíritos em educação, caminhando, gradualmente, rumo à perfeição relativa, quando então refletirão, em grau elevado, o ideal do Cristo, Guia e Modelo da Humanidade.


    Referências Bibliográfica:

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
    DENIS, Léon. Depois da morte. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
    EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
    EMMANUEL (Espírito). Caminho, verdade e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.
    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.