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  • 31 de jan. de 2026

    O IMPULSO CENTRAL DO SER HUMANO: PRAZER, PODER OU SENTIDO? UMA REFLEXÃO COM ALLAN KARDEC


     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Desde o surgimento da psicologia moderna, uma questão fundamental inquieta filósofos, teólogos e cientistas da alma: o que move verdadeiramente o ser humano? Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl ofereceram respostas distintas a essa pergunta, que, à luz da visão espírita e cristã, revelam estágios progressivos de compreensão da natureza espiritual do homem.

    Freud sustentou que o núcleo da vida psíquica humana reside na libido sexual, entendida como força primária da conduta. Para ele, o comportamento humano é majoritariamente determinado por impulsos inconscientes que buscam prazer e descarregam tensões reprimidas pela cultura e pela moral. “A libido é a energia, considerada como uma grandeza quantitativa, dessas pulsões que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra amor” (FREUD, 1920). Nessa concepção, o homem aparece fortemente condicionado ao passado instintivo, quase prisioneiro de suas pulsões biológicas.

    Alfred Adler, rompendo com essa leitura reducionista, afirmou que o impulso central do ser humano não é sexual, mas o desejo de poder e autoafirmação. O indivíduo, segundo ele, luta continuamente para superar sentimentos de inferioridade e impor sua vontade ao mundo. “Ser humano significa sentir-se inferior e lutar continuamente para superar esse sentimento” (ADLER, 1933). Embora mais social que Freud, Adler ainda mantém o homem preso à lógica do ego, da competição e da dominação.

    É Viktor Frankl, entretanto, quem promove uma verdadeira virada antropológica. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas, ele constatou que homens privados de prazer, poder e liberdade física ainda conseguiam manter-se espiritualmente vivos. A razão? O sentido da vida. Para Frankl, “a busca de sentido é a motivação primária do ser humano” (FRANKL, 1989). Não é o prazer que sustenta a existência, nem o poder, mas a certeza íntima de que a vida tem um propósito, mesmo no sofrimento.

    Essa concepção harmoniza-se profundamente com a visão espírita-cristã. Allan Kardec ensina que o Espírito é criado “simples e ignorante”, destinado ao progresso moral e intelectual ao longo das existências (KARDEC, 2013). O sofrimento, longe de ser absurdo, possui função educativa. O Cristo, por sua vez, revela que a vida encontra plenitude não na satisfação dos desejos nem na conquista do mundo, mas no amor, no serviço e na fidelidade à verdade.

    Frankl, sem recorrer diretamente à teologia, reencontra o Evangelho pela via da experiência humana: quem encontra um “para quê” suporta quase qualquer “como”. O sentido transcende o ego, relativiza a dor e dignifica a existência. Assim, entre o prazer freudiano, o poder adleriano e o sentido frankliano, a Doutrina Espírita reconhece um eixo superior: o ser humano é um Espírito imortal em jornada de aperfeiçoamento, chamado a transformar sofrimento em aprendizado e existência em missão.

     

    Referências Bibliográfica:

    ADLER, Alfred. O sentido da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1933.

    FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1920.

    FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 1989.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.