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Jorge Hessen
Brasília-DF
Causa perplexidade — mas não surpresa — o surgimento de um discurso que tenta alinhar o Espiritismo a ideologias políticas "vermelhonas", como se a Doutrina codificada por Allan Kardec fosse um apêndice moral de projetos sociais terrenos. Trata-se de um equívoco grave, pois não nasce do Espiritismo, mas da sua desfiguração conceitual.
A primeira desordem é elementar: beneficência não é engenharia social. Kardec ensina que a desigualdade das condições sociais não é uma aberração moral, mas uma lei natural com finalidade educativa. “A desigualdade das condições sociais é uma das leis da Natureza” (KARDEC, 2013, q. 806). A claudicação está no excesso, não na diversidade de situações. Substituir o assistencialismo voluntário por igualitarismo compulsório é enxertar no Espiritismo uma seita de prática esdrúxula e estranha à sua base moral.
Outro desvio recorrente é a adoção irrefletida de uma antropologia materialista. As ideologias "vermelhonas" explicam o homem pelo meio, pela classe, pela estrutura. O Espiritismo afirma exatamente o contrário: o Espírito é anterior à matéria, responsável por seus atos e herdeiro de si mesmo (KARDEC, 2013, q. 132). Ignorar a Lei de Causa e Efeito é esvaziar o núcleo pujante da Doutrina.
Léon Denis advertiu com clareza contra esse tipo de ilusão reformista: “Não se transforma a sociedade sem transformar o homem” (DENIS, 2005). Toda promessa de redenção coletiva sem regeneração moral individual resulta apenas em deslocamento de responsabilidades — e em ressentimento travestido de virtude.
Emmanuel é igualmente incisivo ao negar o messianismo político: “Nenhuma transformação exterior dispensará o homem da renovação íntima” (EMMANUEL, 2010). A obsessão por soluções estatais revela, muitas vezes, a dificuldade de aceitar o esforço silencioso da autotransformação.
O absurdo dos absurdos é quando o centro espírita se converte em palanque ideológico, onde se perde sua finalidade essencial. A Casa Espírita não é trincheira partidária de nenhuma ideologia, mas oficina de atividade consciencial, voltada à educação do Espírito imortal. Misturar Espiritismo com militância é submeter o divino ao esgoto partidário circunstancial.
Não existe Espiritismo “de esquerda”, “de direita”ou “centro-direita ou esquerda”. Existe fidelidade ou infidelidade à Doutrina. Quando Kardec é suprido por seitas "vermelhonas" abjetas, o Evangelho por palavras de ordem e a responsabilidade moral por acusações estruturais, resta apenas um lustra-móveis para os petulantes “espíritas” sobre velhas e decrépitas ideologias materialistas.
Como sintetiza Léon Denis: “O progresso social será sempre consequência do progresso moral, jamais a sua causa” (DENIS, 2005). Inverter essa ordem é desvario intelectual — não probidade e muito menos justiça.
Referências bibliográficas:
DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013
