Jorge Hessen
Brasília -DF
O Espiritismo nasceu como
projeto de emancipação moral e intelectual. Allan Kardec estruturou a doutrina
sobre bases de liberdade de exame, controle racional e participação fraterna.
Nada mais distante desse ideal do que o cenário atual, em que parcelas do
movimento espírita passaram a tratar dirigentes de órgãos federativos como se
fossem autoridades sagradas, intocáveis e — pior — vitalícias.
Forma-se uma casta administrativa que, em nome da “tradição”,
converte serviço em poder.
Kardec advertiu com
clareza que a doutrina não comportaria chefes permanentes e infalíveis: “o
Espiritismo não terá pontífices; sua autoridade será a da razão e do controle
universal” (1). Em O Livro dos Médiuns o Codificador reforça que
toda instituição espírita deve submeter-se ao crivo do bom senso e à
rotatividade natural das funções (2). No entanto, multiplicam-se diretorias
que atravessam décadas, estatutos moldados para reconduções sucessivas
e um vocabulário eclesiástico incompatível com a proposta kardeciana. O cargo,
que deveria ser encargo transitório, converte-se em título honorífico.
Essa sacralização produz
efeitos corrosivos. O primeiro é o culto à personalidade. Médiuns e
diretores passam a ser vistos como “eleitos da espiritualidade”,
quando a doutrina ensina que mediunidade é prova e serviço, não certificado de
elevação. Emmanuel recorda que “na obra cristã não há lugar para
dominadores; somos todos servos imperfeitos em aprendizado” (3). Apesar
disso, questionar decisões administrativas tornou-se quase heresia, e a crítica
fraterna é confundida com perturbação espiritual.
O segundo efeito é o imobilismo
doutrinário. Instituições capturadas por grupos perenes temem a renovação e
repelem os mais jovens pensantes. Léon Denis já alertava que “toda
ideia que se cristaliza em mãos de homens transforma-se em dogma morto”
(4). Quando o movimento prefere preservar cadeiras a formar consciências, deixa
de ser escola de almas para tornar-se cartório clerical.
O terceiro dano é o
desvio metodológico. O Espiritismo avançou graças ao método kardequiano de
comparação, debate e universalidade do ensino dos Espíritos. Substituí-lo por
decisões de gabinete federativo é negar a própria gênese da doutrina. Kardec
foi categórico: “melhor rejeitar dez verdades que aceitar uma mentira”
(5). Hoje, porém, muitas deliberações federativas são acolhidas sem exame,
apenas pelo peso do timbre institucional.
Não se trata de negar a
relativa importância da organização, mas de recordar que autoridade moral
não nasce de eleição nem de carimbo. Emmanuel observa que “o poder que
não serve converte-se em sombra para quem o detém” (6). A instituição
espírita deveria ser oficina de trabalho anônimo e não palanque de
biografias.
Urge resgatar medidas
simples e kardecianas: urgente limitação de mandatos, prestação pública
de contas, participação efetiva das bases, estudo rigoroso das obras
fundamentais e separação entre gestão administrativa e direção doutrinária.
Sem isso, continuaremos assistindo à metamorfose do movimento em vaticanismos
inócuos com “igreja burocrática”, lotados de “bispos leigos” e carreiras
“eclesiais”.
O maior inimigo do
Espiritismo sempre foi o mesmo: orgulho e desejo de mando. Denis
preveniu que “a verdade se obscurece quando os homens pretendem
administrá-la como propriedade” (7). Permaneceremos fiéis a Kardec apenas
quando nenhum trabalhador se julgar dono da obra — e quando todo cargo
voltar a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: simples oportunidade de
servir.
Referências
Bibliográficas:
1
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: 1864.
2
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: 1861.
3
. XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 1956.
4
DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: 1919.
5
KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: 1868
6
XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Pão Nosso. Rio de Janeiro: FEB, 1950.
7
DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: 1905.
