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  • 6 de fev. de 2026

    A SACRALIZAÇÃO DOS CARGOS DO “ÓRGÃO MÁXIMO” DO MOVIMENTO ESPÍRITA BRASILEIRO



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    O Espiritismo nasceu como projeto de emancipação moral e intelectual. Allan Kardec estruturou a doutrina sobre bases de liberdade de exame, controle racional e participação fraterna. Nada mais distante desse ideal do que o cenário atual, em que parcelas do movimento espírita passaram a tratar dirigentes de órgãos federativos como se fossem autoridades sagradas, intocáveis e — pior — vitalícias. Forma-se uma casta administrativa que, em nome da “tradição”, converte serviço em poder.

    Kardec advertiu com clareza que a doutrina não comportaria chefes permanentes e infalíveis: “o Espiritismo não terá pontífices; sua autoridade será a da razão e do controle universal” (1). Em O Livro dos Médiuns o Codificador  reforça que toda instituição espírita deve submeter-se ao crivo do bom senso e à rotatividade natural das funções (2). No entanto, multiplicam-se diretorias que atravessam décadas, estatutos moldados para reconduções sucessivas e um vocabulário eclesiástico incompatível com a proposta kardeciana. O cargo, que deveria ser encargo transitório, converte-se em título honorífico.

    Essa sacralização produz efeitos corrosivos. O primeiro é o culto à personalidade. Médiuns e diretores passam a ser vistos como “eleitos da espiritualidade”, quando a doutrina ensina que mediunidade é prova e serviço, não certificado de elevação. Emmanuel recorda que “na obra cristã não há lugar para dominadores; somos todos servos imperfeitos em aprendizado” (3). Apesar disso, questionar decisões administrativas tornou-se quase heresia, e a crítica fraterna é confundida com perturbação espiritual.

    O segundo efeito é o imobilismo doutrinário. Instituições capturadas por grupos perenes temem a renovação e repelem os mais jovens pensantes. Léon Denis já alertava que “toda ideia que se cristaliza em mãos de homens transforma-se em dogma morto” (4). Quando o movimento prefere preservar cadeiras a formar consciências, deixa de ser escola de almas para tornar-se cartório clerical.

    O terceiro dano é o desvio metodológico. O Espiritismo avançou graças ao método kardequiano de comparação, debate e universalidade do ensino dos Espíritos. Substituí-lo por decisões de gabinete federativo é negar a própria gênese da doutrina. Kardec foi categórico: “melhor rejeitar dez verdades que aceitar uma mentira” (5). Hoje, porém, muitas deliberações federativas são acolhidas sem exame, apenas pelo peso do timbre institucional.

    Não se trata de negar a relativa importância da organização, mas de recordar que autoridade moral não nasce de eleição nem de carimbo. Emmanuel observa que “o poder que não serve converte-se em sombra para quem o detém” (6). A instituição espírita deveria ser oficina de trabalho anônimo e não palanque de biografias.

    Urge resgatar medidas simples e kardecianas: urgente limitação de mandatos, prestação pública de contas, participação efetiva das bases, estudo rigoroso das obras fundamentais e separação entre gestão administrativa e direção doutrinária. Sem isso, continuaremos assistindo à metamorfose do movimento em vaticanismos inócuos com “igreja burocrática”, lotados de “bispos leigos” e carreiras “eclesiais”.

    O maior inimigo do Espiritismo sempre foi o mesmo: orgulho e desejo de mando. Denis preveniu que “a verdade se obscurece quando os homens pretendem administrá-la como propriedade” (7). Permaneceremos fiéis a Kardec apenas quando nenhum trabalhador se julgar dono da obra — e quando todo cargo voltar a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: simples oportunidade de servir.

     

    Referências Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: 1864.

    2          KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: 1861.

    3          . XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 1956.

    4          DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: 1919.

    5          KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: 1868

    6          XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Pão Nosso. Rio de Janeiro: FEB, 1950.

    7          DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: 1905.