Jorge Hessen
Brasília-DF
A estrutura do ser humano em Platão baseia-se num dualismo antropológico que opõe o corpo (soma) à alma (psyche), sendo esta última capaz de atingir o inteligível ou intelectual (noético). Essa tríade representa o embate entre a matéria mortal, a alma imortal e a capacidade racional de contemplar as Formas/Ideias.
A reflexão sobre essa tríade readquire atualidade diante da fragmentação do homem contemporâneo. O Espiritismo oferece chave interpretativa capaz de integrar esses níveis, ao compreender o ser humano como Espírito imortal que se manifesta por meio do perispírito e do corpo físico. Tal leitura supera reducionismos biológicos e psicologismos, recolocando a ética no centro da existência.
O soma, para a Doutrina Espírita, é instrumento transitório da experiência terrena, “não passa de um envoltório destinado a receber o Espírito” (1), evidenciando sua função pedagógica. A vida orgânica possui dignidade, mas não soberania; serve aos propósitos evolutivos do princípio inteligente. Reduzir o homem ao soma significa ignorar sua natureza essencial e a continuidade da vida além da matéria.
A psique corresponde, em grande medida, ao campo perispiritual. André Luiz define o perispírito como “organismo sutil, estruturado pelo pensamento, intermediário entre o Espírito e o corpo carnal” (2). Nele se registram emoções, tendências e memórias de outras existências, constituindo verdadeiro laboratório moral.
A mente não é produto do cérebro, mas realidade anterior que dele se utiliza para expressar-se. Daí a repercussão direta dos estados psíquicos sobre a saúde física: desequilíbrios afetivos modelam o perispírito e alcançam o soma.
O nível noético identifica-se com o próprio Espírito, sede do livre-arbítrio e da consciência. A lei divina está “gravada na consciência” (3) , indicando núcleo ético anterior a qualquer condicionamento biológico. Emmanuel reforça essa primazia ao afirmar que “o homem é um Espírito eterno, responsável por suas escolhas” (4). O noético é, portanto, o centro decisório que confere sentido às experiências psíquicas e corporais.
A correta hierarquia antropológica estabelece: Espírito → perispírito → corpo. Quando tal ordem se inverte, o desejo governa e a consciência obedece, produzindo crises existenciais e enfermidades. O ódio e a culpa “corroem as células sutis do perispírito, refletindo-se mais tarde nos tecidos orgânicos” (5). A ética converte-se, assim, em questão de saúde integral.
A educação proposta pelo Espiritismo dirige-se ao noético. Não se trata de negar o soma nem reprimir a psique, mas de iluminá-los pela razão moral. Emmanuel recorda que “o pensamento é força criadora que edifica ou destrói” (6). Disciplinar o pensamento, evangelizar o sentimento e utilizar o corpo para o bem constituem caminhos de harmonização dos três planos.
Nessa perspectiva, o drama do homem moderno revela-se sobretudo noético: perda de sentido e de responsabilidade espiritual. A tríade espírita recompõe a unidade: o corpo como palco, a psique como roteiro em elaboração e o Espírito como autor responsável. A existência encarnada torna-se processo educativo pelo qual o ser transforma instintos em sentimentos e sentimentos em virtudes.
Conclui-se que soma, psique e noético não são compartimentos estanques, mas expressões de uma mesma realidade em níveis distintos. O Espiritismo interpreta essa totalidade afirmando a precedência do Espírito, a função mediadora do perispírito e o caráter instrumental do corpo. A verdadeira terapêutica é ética, ou seja, transformação moral, caridade e busca de sentido transcendente, para que o noético governe a psique e utilize o soma como ferramenta de luz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
2 XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em Dois Mundos. Pelo Espírito André Luiz. 26. ed. Brasília: FEB, 2013.
3 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
4 XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Brasília: FEB, 2015.
5 XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. Brasília: FEB, 2014.
6 XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Brasília: FEB, 2015
