Jorge Hessen
Brasília -DF
O discurso politicamente “correto” repete que o carnaval é “expressão cultural intocável”. A Doutrina Espírita, porém, não se curva a imposturas dogmáticas e ideológicas. Até porque “a opinião das maiorias não constitui critério de verdade moral” (1). Se uma prática coletiva estimula a degradação do Espírito, deve ser questionada — ainda que venha embalada por purpurinas, sambas, confetes e serpentinas.
O que se chama de festa transformou-se em indústria do entorpecimento ético. Erotização precoce, alcoolismo glamorizado, drogas, violência e desperdício de recursos públicos compõem o cenário. Na verdade “o prazer desregrado rebaixa as aspirações superiores e prepara a decadência dos povos” (2).
Defende-se que “é só uma vez por ano”. Mas Emmanuel responde com dureza: “O excesso converte a diversão em laboratório de sofrimento, onde muitos hipotecam o futuro por algumas horas de ilusão” (3). Quantas gravidezes sem amparo, quantos lares feridos, quantas vidas ceifadas no trânsito e na violência nascem desse delírio coletivo?
A dimensão espiritual costuma ser ridicularizada, mas André Luiz descreve o que a propaganda turística oculta: “ambientes saturados de emoções inferiores atraem entidades em desequilíbrio, estabelecendo processos obsessivos de largo alcance” (4). O carnaval não é neutro; é poderoso campo de sintonia que alimenta zonas sombrias do mundo invisível.
Manoel Philomeno de Miranda é ainda mais direto ao afirmar que “as multidões excitadas convertem-se em instrumento de forças espirituais perturbadoras” (5). Enquanto o marketing vende felicidade, hospitais lotam, famílias choram e a saúde mental da população cobra a fatura depois das cinzas.
Dizer isso não é moralismo: é realismo espiritual. Kardec definiu o critério do progresso: “reconhece-se o adiantamento pelo domínio das más inclinações” (6). Que domínio existe numa celebração erguida sobre a perda deliberada dos limites?
A defesa cega do carnaval revela dependência psicológica de um modelo de alegria infantilizada. Leon Denis projetava outra civilização: “a festa digna será aquela em que o homem saia melhor do que entrou” (7). O carnaval faz o contrário — muitos saem piores, endividados, feridos no corpo e na alma.
É preciso romper o tabu: nada justifica festejos que transformam seres humanos em mercadoria de prazer. Cultura que necessita de anestesia moral para existir é cultura doente. O Espiritismo propõe alegria consciente, arte que eleve, encontro que respeite o corpo e o destino eterno.
Entre o samba ensurdecedor e a voz da consciência, o espírita não pode hesitar. Ou escolhemos a evolução moral, ou continuaremos tratando como “tradição” aquilo que, à luz do Espírito imortal, não passa de monturo de devassidão ética .
Referências Bibliográficas:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: 1864.
2 DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: 1911.
3 XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: FEB, 1952.
4 XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 1945.
5 FRANCO, Divaldo Pereira; MIRANDA, Manoel Philomeno de. Nos Bastidores da Obsessão. Salvador: LEAL, 1990.
6 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: 1857.
7 DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: 1927.
