03 fevereiro 2026

O Centro Espírita no Brasil é um núcleo de religiosidade espiritólica

 


Jorge Hessen

Brasília - DF

O modelo predominante de prática espírita no Brasil tornou-se progressivamente estranho ao projeto concebido por Allan Kardec. O que hoje se denomina centro espírita assemelha-se mais a templo de consolação emocional do que à oficina de educação intelectual e moral idealizada pelo Codificador. Filas de passe, aconselhamentos rápidos e devoção (idolatrias) a médiuns, palestrantes, dirigentes  substituíram o estudo metódico, núcleo da proposta original.

Kardec definiu a Sociedade Parisiense como um espaço de investigação racional destinado a “estudar todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais” (KARDEC, 1860, p. 15). O centro kardeciano era laboratório de ideias, não ambulatório metafísico. Advertiu que “as reuniões devem tender, antes de tudo, à instrução” e que os grupos limitados a pedir favores aos Espíritos “afastam-se do verdadeiro objetivo do Espiritismo” (KARDEC, 1861, p. 227).

No Brasil, porém, consolidou-se lógica assistencialista (fazeção de coisa material), ou seja, realização de tarefas repetitivas, mecânicas ou sem valor essencial, uma autêntica "fazedura de coisas ‘pros’ carentes" ou desesperada tentativa de fuga do ego (culpa).

A mediunidade converteu-se em serviço de “alívio imediato”, frequentemente sem critério. Ora “o Espiritismo sem estudo transforma-se em crendice piedosa, e a mediunidade sem disciplina degenera em porta aberta à mistificação” (XAVIER; EMMANUEL, 1940, p. 63). A advertência emmanuelina descreve com precisão o quadro atual.

A cultura religiosista nacional moldou as casas espíritas à feição católico-devocional: palestras com tom de sermão, passes com aura sacramental, dirigentes elevados a oráculos. Porém , sabemos sobejamente  que  “o Espiritismo não pede crença cega, mas exame” (KARDEC, 1857, p. 32). Léon Denis reforçou a mesma linha ao afirmar que a doutrina deve formar consciências livres, pois “a fé que não pode encarar a razão é fé morta” (DENIS, 1919, p. 74).

O crescimento numérico cobrou preço doutrinário. Muitos frequentadores conhecem mais psicografias recentes que a Codificação; preferem a opinião do(a) palestrante  endeusado(a) ao método do controle universal. O Codificador prevenira que, sem esse crivo, “o Espiritismo se perderia num labirinto de opiniões individuais” (KARDEC, 1864, p. 41). Cada centro tornou-se pequeno feudo interpretativo.

A suposta “caridade” converteu-se em álibi para o abandono do estudo. Confundiu-se bondade com improviso. Sabemos que “fora da caridade não há salvação”, mas “sem instrução não há Espiritismo sólido” (KARDEC, 1868, p. 118). Portanto, “socorrer o corpo alheio e descurar da iluminação da alma é perpetuar a miséria sob nova máscara” (XAVIER; EMMANUEL, 1952, p. 102). Destacamos ainda que  “o Espiritismo será ciência ou não será nada” (DENIS, 1921, p. 29).

Retomar os Princípios Originais  não é abolir o consolo assistencial, e sim recolocá-lo sobre base racional. O centro precisa voltar a ser escola do Espírito: análise de mensagens, pesquisa moral, formação do caráter. Menos altar (“mesas brancas”) e imagens, mais mesa de estudo; menos personalismo, mais método; menos dependência mediúnica, mais autonomia.

Enquanto persistir o modelo devocional espiritólico, administraremos emoções, não transformaremos consciências. O Espiritismo é movimento para libertar inteligências; porém os espiritólicos o reduziram à farmácia de aflições. Cumpre decidir se honraremos o projeto do Codificador ou se preservaremos tradição mística brasileira que leva seu nome, mas não sua essência.

 

Referências Bibliográficas:

  • DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: Livraria Espírita, 1919.
  • DENIS, Léon. No Invisível. Paris: Livraria Espírita, 1921.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: Didier, 1857.
  • KARDEC, Allan. Estatutos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Paris: 1860.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: Didier, 1861.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1864.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: Didier, 1868.
  • XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 1940.
  • XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 1952