Jorge Hessen
Brasília -DF
A Doutrina Espírita
estabeleceu que a caridade é, antes de tudo, atitude moral. O Codificador
sintetizou-a como benevolência para com todos, indulgência diante das
imperfeições alheias e perdão das ofensas (1). Qualquer ação
material que não nasça desse núcleo íntimo converte-se em simples fazeção de
coisa material, obviamente “respeitável”, porém estranha à essência do
Evangelho Segundo o Espiritismo.
O pão distribuído sob a
bandeira do “oba-oba” sem benevolência, indulgência e perdão das
ofensas pode até alimentar corpos, mas, ao mesmo tempo, também pode
fortalecer vaidades dos seus líderes, dependências e, com certeza, projetos de
poder.
Observa-se, no cenário
contemporâneo, a expansão de um modelo de caridade monumental: campanhas
polpudas, marcas humanitárias, dirigentes transformados em celebridades e
voluntários convertidos em plateia emocional. André Luiz advertiu que obra
externa sem renovação interior assemelha-se a edifício sem alicerce (2).
Quando o bem precisa de holofotes, já não é luz que esclarece, mas marketing
religioso que negocia a dor alheia como produto de comoção pública.
Emmanuel recorda que o
auxílio barulhento perde valor espiritual por misturar-se ao fermento da
vaidade (3). Vejamos que o Cristo serviu sem logotipos, sem captação
profissional de recursos e sem transformar necessitados em instrumentos de
propaganda. A caridade espírita não pode copiar métodos do mercado, nos
quais números substituem consciências e metas financeiras valem mais
que a reforma íntima dos trabalhadores.
Léon Denis ensinou que o
Espiritismo veio iluminar o homem para que ele próprio se torne fonte de
fraternidade, e não para administrar impérios assistenciais (4).
Quando instituições confundem quantidade de obras com fidelidade doutrinária,
instala-se um materialismo às avessas: fala-se de espiritualidade enquanto se
age segundo a lógica da competição por doadores e visibilidade. O personalismo
corrói o ideal, cria castas intocáveis e intimida qualquer reflexão
crítica.
A ajuda material é
necessária diante da miséria real, mas não pode substituir o dever de educar
almas. Kardec afirmou que o Espiritismo seria reconhecido pela melhoria
moral da Humanidade, e não pelo tamanho de seus empreendimentos (5).
Se dirigentes exploram emocionalmente a pobreza para manter máquinas
arrecadatórias, traem o princípio de que a caridade não humilha, não manipula e
não transforma o necessitado em vitrine.
Urge recolocar o eixo no ser e não no parecer. Instituições espíritas não são agências de captação, e o trabalhador do bem não é influenciador digital. A legítima caridade começa pelo trato digno com o divergente, pela transparência com o dinheiro alheio, pelo anonimato que liberta do ego. Sem isso, qualquer movimento, por mais “grandioso”, reduz-se a um assistencialismo material inócuo e distancia-se da proposta kardequiana e, principalmente, do Cristo.
Se o Espiritismo aceitar
ser confundido com ONG de espetáculo, terá renunciado à sua missão educativa.
A caridade que salva não é a que ergue MARCAS e casebres mundo a fora, mas a
que reconstrói consciências e devolve ao homem a responsabilidade sobre si
mesmo.
Urge refletirmos tudo
isso.
Referências
Bibliográfica:
1
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.
2
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de
Janeiro: FEB.
3
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro:
FEB.
4
DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB.
5
KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB.
