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  • 2/11/2026

    “Fraternidade sem fronteiras” - uma reflexão sobre a espetacularização do bem

     

     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A Doutrina Espírita estabeleceu que a caridade é, antes de tudo, atitude moral. O Codificador sintetizou-a como benevolência para com todos, indulgência diante das imperfeições alheias e perdão das ofensas (1). Qualquer ação material que não nasça desse núcleo íntimo converte-se em simples fazeção de coisa material, obviamente “respeitável”, porém estranha à essência do Evangelho Segundo o Espiritismo.

    O pão distribuído sob a bandeira do “oba-oba” sem benevolência, indulgência e perdão das ofensas pode até alimentar corpos, mas, ao mesmo tempo, também pode fortalecer vaidades dos seus líderes, dependências e, com certeza, projetos de poder.

    Observa-se, no cenário contemporâneo, a expansão de um modelo de caridade monumental: campanhas polpudas, marcas humanitárias, dirigentes transformados em celebridades e voluntários convertidos em plateia emocional. André Luiz advertiu que obra externa sem renovação interior assemelha-se a edifício sem alicerce (2). Quando o bem precisa de holofotes, já não é luz que esclarece, mas marketing religioso que negocia a dor alheia como produto de comoção pública.

    Emmanuel recorda que o auxílio barulhento perde valor espiritual por misturar-se ao fermento da vaidade (3). Vejamos que o Cristo serviu sem logotipos, sem captação profissional de recursos e sem transformar necessitados em instrumentos de propaganda. A caridade espírita não pode copiar métodos do mercado, nos quais números substituem consciências e metas financeiras valem mais que a reforma íntima dos trabalhadores.

    Léon Denis ensinou que o Espiritismo veio iluminar o homem para que ele próprio se torne fonte de fraternidade, e não para administrar impérios assistenciais (4). Quando instituições confundem quantidade de obras com fidelidade doutrinária, instala-se um materialismo às avessas: fala-se de espiritualidade enquanto se age segundo a lógica da competição por doadores e visibilidade. O personalismo corrói o ideal, cria castas intocáveis e intimida qualquer reflexão crítica.

    A ajuda material é necessária diante da miséria real, mas não pode substituir o dever de educar almas. Kardec afirmou que o Espiritismo seria reconhecido pela melhoria moral da Humanidade, e não pelo tamanho de seus empreendimentos (5). Se dirigentes exploram emocionalmente a pobreza para manter máquinas arrecadatórias, traem o princípio de que a caridade não humilha, não manipula e não transforma o necessitado em vitrine.

    Urge recolocar o eixo no ser e não no parecer. Instituições espíritas não são agências de captação, e o trabalhador do bem não é influenciador digital. A legítima caridade começa pelo trato digno com o divergente, pela transparência com o dinheiro alheio, pelo anonimato que liberta do ego. Sem isso, qualquer movimento, por mais “grandioso”, reduz-se a um assistencialismo material inócuo e distancia-se da proposta kardequiana e, principalmente, do Cristo.

    Se o Espiritismo aceitar ser confundido com ONG de espetáculo, terá renunciado à sua missão educativa. A caridade que salva não é a que ergue MARCAS e casebres mundo a fora, mas a que reconstrói consciências e devolve ao homem a responsabilidade sobre si mesmo.

    Urge refletirmos tudo isso.

     

    Referências Bibliográfica:

    1     KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.

    2     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB.

    3     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB.

    4     DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB.

    5     KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB.