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  • 8 de fev. de 2026

    TRIBUNA ESPIRITA NÃO É PALCO PARA ESTRELATO

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    A instituição espírita nasceu para ser oficina de trabalho anônimo, laboratório de caridade silenciosa e escola de transformação moral. Entretanto, observa-se crescente deformação: o centro que deveria exaltar o Cristo passa a exaltar currículos de palestrantes, nesse sentido ,o estudo cede lugar à espetacularização da mensagem e a tribuna transforma-se em vitrine de vaidades.

    O personalismo da tribuna espírita infiltra-se como erva daninha e, pouco a pouco, substitui a autoridade moral da Doutrina pelo prelado artificial das biografias dos palestrantes “famosos” (com muitos “seguidores” na internet).

    Allan Kardec advertiu que o Espiritismo não teria líderes infalíveis, mas servidores da verdade. Quando um nome (do palestrante) passa a valer mais que a ideia, já não estamos no terreno da Codificação, e sim na lógica mundana das vãs celebridades.

    A mediunidade, a oratória e a capacidade intelectual não foram concedidas para produzir ídolos, e sim para aliviar dores e esclarecer consciências. Os Benfeitores do além recordam que o trabalhador do Cristo é chamado a desaparecer para que a obra apareça. O inverso — aparecer para que a obra desapareça — é a negação do ideal espírita.

    O endeusamento de palestrantes produz consequências gravíssimas. Forma-se plateia (fã-clube) dependente de figuras “iluminadas”, enfraquecendo o estudo metódico das obras básicas. Substitui-se a divulgação séria por frases de efeito, aleijando a fé raciocinada pela emoção coletiva e a fraternidade por competição de agendas.

    Centros espíritas disputam vaidosamente nomes “de cartaz” como se o Evangelho necessitasse de marketing. Esquece-se de que o verdadeiro orador espírita trabalha sem trombetas e serve sem exigir reconhecimento.

    Há ainda efeito moral devastador: o personalismo do palestrante espírita “estrela” alimenta a ilusão de superioridade espiritual. Quem sobe ao palco (tribuna) começa a acreditar que está em cima do auditório e obviamente  quem aplaude transfere para o expositor a responsabilidade da própria transformação. Cria-se uma relação infantilizada, oposta ao convite kardeciano ao livre exame. Ora,  o Espiritismo deve formar consciências autônomas, não rebanhos fascinados.

    A casa espírita precisa voltar à sua simplicidade e resgatar sua identidade cristã. Reuniões singelas, estudo regular, atendimento fraterno discreto, assistência e promoção social sem propaganda — eis o caminho.

    E mais ainda, a tribuna espírita deve ser rodízio de oradores e não trono vitalício. A direção de uma casa espírita deve funcionar como colegiado de trabalho, não como corte de notáveis. Numa reunião pública de palestra o nome do expositor é detalhe inexpressivo, pois que o essencial é a fidelidade e essencialidade do conteúdo programado.

    Portanto, numa reunião pública  o mérito não está no “microfone”, mas no serviço ignorado; não no aplauso, mas na lágrima consolada; não na foto do cartaz multicolorido, mas na reforma do caráter. Quando o centro espírita voltar a ser espaço de anonimato fecundo, o Espiritismo retomará sua força moral. Até porque a Doutrina Espírita não precisa de estrelas do púlpito — precisa de semeadores do bem, do belo e do bom.