Jorge Hessen
Brasília -DF
A instituição espírita
nasceu para ser oficina de trabalho anônimo, laboratório de caridade silenciosa
e escola de transformação moral. Entretanto, observa-se crescente deformação: o
centro que deveria exaltar o Cristo passa a exaltar currículos de palestrantes,
nesse sentido ,o estudo cede lugar à espetacularização da mensagem e a tribuna
transforma-se em vitrine de vaidades.
O personalismo da tribuna
espírita infiltra-se como erva daninha e, pouco a pouco, substitui a autoridade
moral da Doutrina pelo prelado artificial das biografias dos palestrantes “famosos”
(com muitos “seguidores” na internet).
Allan Kardec advertiu que
o Espiritismo não teria líderes infalíveis, mas servidores da verdade. Quando
um nome (do palestrante) passa a valer mais que a ideia, já não estamos no
terreno da Codificação, e sim na lógica mundana das vãs celebridades.
A mediunidade, a oratória
e a capacidade intelectual não foram concedidas para produzir ídolos, e sim
para aliviar dores e esclarecer consciências. Os Benfeitores do além recordam
que o trabalhador do Cristo é chamado a desaparecer para que a obra apareça.
O inverso — aparecer para que a obra desapareça — é a negação do ideal
espírita.
O endeusamento de
palestrantes produz consequências gravíssimas. Forma-se plateia (fã-clube)
dependente de figuras “iluminadas”, enfraquecendo o estudo metódico das obras
básicas. Substitui-se a divulgação séria por frases de efeito, aleijando a fé
raciocinada pela emoção coletiva e a fraternidade por competição de agendas.
Centros espíritas
disputam vaidosamente nomes “de cartaz” como se o Evangelho necessitasse de
marketing. Esquece-se de que o verdadeiro orador espírita trabalha sem trombetas e
serve sem exigir reconhecimento.
Há ainda efeito moral
devastador: o personalismo do palestrante espírita “estrela” alimenta a
ilusão de superioridade espiritual. Quem sobe ao palco (tribuna) começa a
acreditar que está em cima do auditório e obviamente quem aplaude transfere para o expositor a
responsabilidade da própria transformação. Cria-se uma relação infantilizada,
oposta ao convite kardeciano ao livre exame. Ora, o Espiritismo deve formar consciências
autônomas, não rebanhos fascinados.
A casa espírita precisa
voltar à sua simplicidade e resgatar sua identidade cristã. Reuniões singelas,
estudo regular, atendimento fraterno discreto, assistência e promoção social
sem propaganda — eis o caminho.
E mais ainda, a tribuna
espírita deve ser rodízio de oradores e não trono vitalício. A direção de uma
casa espírita deve funcionar como colegiado de trabalho, não como corte
de notáveis. Numa reunião pública de palestra o nome do expositor é detalhe
inexpressivo, pois que o essencial é a fidelidade e essencialidade do conteúdo programado.
Portanto, numa reunião pública
o mérito não está no “microfone”,
mas no serviço ignorado; não no aplauso, mas na lágrima consolada; não na foto
do cartaz multicolorido, mas na reforma do caráter. Quando o centro espírita
voltar a ser espaço de anonimato fecundo, o Espiritismo retomará sua força
moral. Até porque a Doutrina Espírita não precisa de estrelas do púlpito
— precisa de semeadores do bem, do belo e do bom.
