Jorge Hessen
Brasília- DF
O racismo nunca foi apenas um desvio moral: é um projeto de poder. Ao longo dos séculos, revestiu-se de teologia, de ciência e de política para legitimar privilégios. Contra esse edifício de arrogância, o Espiritismo ergueu, ainda no século XIX, um argumento devastador: a reencarnação.
Kardec sentencia que, por ela, “desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher” (KARDEC, 2019, p. 214). Se o Espírito muda de corpo como quem troca de roupa, que valor real possui a cor da epiderme?
A afirmação kardeciana soou como heresia num tempo embriagado por teorias de superioridade racial. A Europa oitocentista produziu uma caricatura de ciência para sustentar a dominação colonial. A frenologia, por exemplo, pretendia medir a inteligência pelas saliências do crânio; a fisiognomonia jurava ler virtudes e vícios na forma do rosto.
Hoje sabemos que tais doutrinas eram apenas álibis acadêmicos do racismo. Kardec dialogou com esse cenário e, sem submeter-se a ele, desferiu golpe certeiro ao afirmar que eventuais atrasos de povos africanos derivavam de fatores históricos e do grau evolutivo dos Espíritos — jamais de biologia imutável (KARDEC, 2010).
A frenologia, criada por Franz Gall no início do século XIX, influenciou tribunais, escolas e políticas coloniais. Media crânios para “provar” inferioridades inatas. Foi desmontada pela ciência do século XX, mas seus fantasmas ainda assombram discursos contemporâneos travestidos de genética social.
Kardec não foi politicamente correto; foi intelectualmente corajoso. Ao escrever na Revista Espírita o estudo “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra” (1862), recusou o dogma racista e recolocou o debate no terreno moral: “enfraquecem-se os preconceitos de raça; os povos entram a considerar-se membros de uma grande família” (KARDEC, 2010, p. 97). Em plena era do tráfico atlântico e dos impérios coloniais, essa frase tinha a força de um manifesto subversivo.
A mensagem espírita desmonta a lógica perversa que ainda hoje contamina sociedades como a brasileira. Emmanuel recorda que “a cor da epiderme não define a grandeza da alma; perante as Leis Divinas, vale a luz que cada um acende no próprio coração” (XAVIER, 2015, p. 56). A tese é simples e explosiva: não existem raças superiores, existem Espíritos mais ou menos responsáveis por si mesmos.
Léon Denis ampliou o alcance social dessa ideia: “A reencarnação destrói as barreiras artificiais que separam os homens e prepara a fraternidade real entre as nações” (DENIS, 2008, p. 142). Se ontem fui escravo e amanhã posso renascer senhor, que sentido tem humilhar o semelhante? O racismo revela-se, então, não só crime contra o outro, mas estupidez contra si mesmo.
Alguns críticos apressados vasculham a obra kardeciana em busca de frases que reflitam a linguagem do século XIX para acusar Kardec de conivência com o preconceito. Ignoram o essencial: o núcleo doutrinário da Doutrina Espírita implode qualquer hierarquia racial. Kardec é categórico ao afirmar que, com os princípios espíritas, “apaga-se, naturalmente, toda distinção estabelecida entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor” (KARDEC, 2019, p. 221). A palavra “estúpidos” não é diplomática; é julgamento ético.
No Brasil, o problema ganha contornos de farsa histórica. A chamada “democracia racial” funciona como anestesia moral enquanto jovens negros continuam sendo os principais alvos da violência e da exclusão. O Espiritismo, se quiser ser fiel a si mesmo, não pode limitar-se a consolar consciências: precisa incomodar estruturas. Emmanuel adverte sem meias palavras: “ninguém se eleva humilhando o próximo; toda opressão racial é dívida que a consciência coletiva resgatará” (XAVIER, 2016, p. 88).
É preciso também recusar o paternalismo que infantiliza o negro, como se sua emancipação dependesse da boa vontade alheia. A doutrina ensina responsabilidade pessoal e coletiva. Denis lembra que “a libertação do homem começa no íntimo, quando ele se reconhece Espírito imortal e irmão de todos” (DENIS, 2008, p. 167). Igualdade não é favor; é lei divina.
Portanto, o Espiritismo não cabe nas prateleiras do discurso VERMELHO. Ele é, por natureza, uma filosofia incômoda aos sistemas de opressão CANHOTAPATA. Quem utiliza centros e tribunas espíritas para reproduzir preconceitos trai Kardec, Emmanuel e Denis. A reencarnação é dinamite ética: explode castas, ridiculariza racismos e desnuda a miséria do orgulho humano.
Diante de Deus — e da razão — sob o ponto de vista racial não existem cores privilegiadas. Existem consciências em evolução. Transformar essa verdade em prática social é o teste definitivo da fé espírita no século XXI.
Referência Bibliográfica:
DENIS, Léon. Depois da morte. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos – abril de 1862. Brasília: FEB, 2010.
XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Justiça Divina. 22. ed. Brasília: FEB, 2015.
XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Religião dos Espíritos. 20. ed. Brasília: FEB, 2016
