Jorge Hessen
Brasília-DF
A noção de “chakras”,
consagrada por tradições orientais, encontra na literatura espírita equivalente
conceitual sob o nome de centros vitais. Não se trata de importação
mística, mas de descrição funcional do próprio perispírito, o envoltório
semimaterial definido por Kardec como elo entre o Espírito e o corpo físico (1).
Se o organismo carnal possui órgãos para as atividades biológicas, o corpo
espiritual apresenta estruturas específicas (órgãos) para o governo das
energias psíquicas. Esses núcleos atuam como estações de captação,
transformação e distribuição das forças que sustentam a vida mental e orgânica.
André Luiz denomina tais
pontos de “fulcros de força”, responsáveis por presidir sistemas
fisiológicos e estados da alma (2). O autor descreve o centro coronário,
que comanda os demais; o cerebral, ligado ao pensamento; o laríngeo,
veículo da palavra; o cardíaco, regulador das emoções; o esplênico,
administrador das energias vitais; além dos gástrico e genésico,
vinculados à nutrição e às potências criadoras (3). Essa organização revela que
o perispírito é organismo complexo, sensível às impressões morais e às
vibrações do meio.
Léon Denis já assinalava
que o corpo fluídico possui “aparelhos delicados” (órgãos) capazes de
registrar as ondas do pensamento e repercuti-las na matéria (4). Por isso,
grande parte das enfermidades físicas reflete desarmonias instaladas nos centros
vitais, nascidas de ressentimentos, culpas e vícios prolongados. Emmanuel
adverte que “o desequilíbrio da alma repercute inevitavelmente nos tecidos
do veículo carnal”⁵, indicando que a verdadeira terapêutica não se limita
ao remédio exterior, mas exige renovação íntima.
Os recursos espirituais —
prece, passe e disciplina moral — operam diretamente nesses órgãos sutis.
Quando o pensamento se eleva, os centros vitais entram em ritmo
harmonioso e permitem a circulação de energias superiores. Kardec ensina que a
vontade orientada para o bem modifica os fluidos que nos envolvem (6),
princípio que explica a ação do magnetismo e da assistência espiritual. Assim,
a saúde do perispírito depende menos de técnicas esotéricas e mais da qualidade
ética das escolhas diárias.
Convém afastar
interpretações supersticiosas. Os centros vitais não são “rodas” mágicas,
nem atalhos para poderes extraordinários; constituem mecanismos naturais da
fisiologia do Espírito. Onde predominam ódio e egoísmo, eles se obscurecem;
onde florescem caridade e equilíbrio, iluminam-se e restauram o corpo físico. A
educação dos sentimentos é, portanto, a mais segura higiene energética.
Compreender os chakras à
luz do Espiritismo é reconhecer a unidade entre ciência, filosofia e moral. O
perispírito, com seus centros vitais, é oficina em que o pensamento
modela o destino humano. Cuidar desses órgãos significa cultivar
responsabilidade sobre o que se pensa e sente, pois — como resume André Luiz —
“a mente é a senhora do corpo, e o corpo é o espelho da mente” (7).
Referências Bibliográficas:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília:
FEB, 2019, q. 93-95.
2 XAVIER, F. C.; VIEIRA, W. (Esp. André Luiz). Entre a Terra
e o Céu. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, cap. 20.
3 XAVIER, F. C.; VIEIRA, W. (Esp. André Luiz). Evolução em
Dois Mundos. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017, 1ª parte, cap. 2.
4 DENIS, Léon. No Invisível. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2016, cap. 12.
5 XAVIER, F. C. (Esp. Emmanuel). Pensamento e Vida. 18. ed.
Rio de Janeiro: FEB, 2015, cap. 6.
6 KARDEC, Allan. A Gênese. 53. ed. Brasília: FEB, 2018, cap.
XIV, itens 13-18.
7 XAVIER, F. C. (Esp. André Luiz). Nosso Lar. 70. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2019, cap. 9.
