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  • 16.3.26

    É coerente ser espírita e frequentar igrejas paralelamente ?


     

    Torna-se cada vez mais comum observar pessoas que se declaram espíritas, mas permanecem vinculadas ao catolicismo ou ao protestantismo, frequentando missas, cultos e, simultaneamente, reuniões em centros espíritas.

    Surge então a questão inevitável se é racional e plausível conciliar plenamente o Espiritismo com doutrinas que abjuram seus princípios fundamentais?

    Do ponto de vista da Codificação, a resposta exige seriedade, pois a Doutrina Espírita não foi estruturada como um sincretismo, mas como um corpo coerente de princípios filosóficos, morais e científicos.

    Segundo Allan Kardec, espírita não é apenas quem frequenta um centro, mas quem aceita as consequências morais e intelectuais da Doutrina, entre elas a reencarnação, a lei de causa e efeito, a comunicabilidade dos espíritos e a fé raciocinada (1). O Codificador  afirma que “reconhece-se o verdadeiro espírita e cristão pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para dominar suas más tendências” (2).

    Ora sabemos de sobejo que todas (isso mesmo TODAS!) as doutrinas cristãs tradicionais negam a reencarnação, condenam a mediunidade e sustentam a salvação única em uma só existência. Ora, conciliar tais sistemas com os princípios do Espiritismo produz contradição inconciliável.

    Léon Denis advertia que o Espiritismo não deve tornar-se um amontoado de crenças confusas, mas um ensinamento claro e progressivo (3).

    No contexto brasileiro, a dupla frequência religiosa muitas vezes nasce da insegurança espiritual. A pessoa procura vários templos para sentir “proteção”, não por convicção, mas por medo ou necessidade emocional.

    Emmanuel ensina que a fé precisa apoiar-se no raciocínio, para não se converter em superstição (4). Quando se aceitam simultaneamente ideias incompatíveis, a religião passa a ser consolo psicológico, não compreensão espiritual.

    Óbvio que o Espiritismo não obriga ninguém a abandonar sua religião de origem. Contudo, liberdade não significa ausência de coerência. Cada qual no seu “quadrado”. André Luiz lembra que ninguém se ilumina apenas mudando de ambiente, mas renovando a si mesmo (5). Frequentar muitos templos não substitui o esforço de reforma íntima.

    Bezerra de Menezes sempre defendeu fidelidade à Codificação, alertando que adaptações por conveniência pessoal enfraquecem a Doutrina. O Espiritismo ensina respeito a todas as crenças, mas não exige que se abandonem a razão e a coerência. (6)

    Ser espírita não é apenas simpatizar com ideias espirituais, mas aceitar uma visão de mundo baseada na responsabilidade moral e no progresso do espírito. Frequentar simultaneamente doutrinas que se contradizem pode ser compreensível como fase de “transição”, porém torna-se paradoxal quando se transforma em hábito permanente sem reflexão.

    O Espiritismo não impõe exclusividade, mas exige sinceridade. Porquanto , sem estudo, a fé vira superstição, tanto quanto sem coerência, a “religião” vira fuga.

     

    Referências Bibliográficas:

    1            KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    2            KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2018.

    3            DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2012.

    4            XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2013.

    5            XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2015.

    6            MENEZES, Bezerra de. Doutrina e Vida. Brasília: FEB, 2010.