Torna-se cada vez mais
comum observar pessoas que se declaram espíritas, mas permanecem vinculadas ao
catolicismo ou ao protestantismo, frequentando missas, cultos e,
simultaneamente, reuniões em centros espíritas.
Surge então a questão
inevitável se é racional e plausível conciliar plenamente o Espiritismo com
doutrinas que abjuram seus princípios fundamentais?
Do ponto de vista da
Codificação, a resposta exige seriedade, pois a Doutrina Espírita não foi
estruturada como um sincretismo, mas como um corpo coerente de princípios
filosóficos, morais e científicos.
Segundo Allan Kardec, espírita
não é apenas quem frequenta um centro, mas quem aceita as consequências morais
e intelectuais da Doutrina, entre elas a reencarnação, a lei de causa e
efeito, a comunicabilidade dos espíritos e a fé raciocinada (1). O Codificador
afirma que “reconhece-se o verdadeiro
espírita e cristão pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para
dominar suas más tendências” (2).
Ora sabemos de sobejo que
todas (isso mesmo TODAS!) as doutrinas cristãs tradicionais negam a reencarnação,
condenam a mediunidade e sustentam a salvação única em uma só existência. Ora,
conciliar tais sistemas com os princípios do Espiritismo produz contradição inconciliável.
Léon Denis advertia que o
Espiritismo não deve tornar-se um amontoado de crenças confusas, mas um
ensinamento claro e progressivo (3).
No contexto brasileiro, a
dupla frequência religiosa muitas vezes nasce da insegurança espiritual. A
pessoa procura vários templos para sentir “proteção”, não por convicção, mas
por medo ou necessidade emocional.
Emmanuel ensina que a fé
precisa apoiar-se no raciocínio, para não se converter em superstição (4). Quando
se aceitam simultaneamente ideias incompatíveis, a religião passa a ser consolo
psicológico, não compreensão espiritual.
Óbvio que o Espiritismo
não obriga ninguém a abandonar sua religião de origem. Contudo, liberdade não
significa ausência de coerência. Cada qual no seu “quadrado”. André Luiz lembra
que ninguém se ilumina apenas mudando de ambiente, mas renovando a si mesmo (5).
Frequentar muitos templos não substitui o esforço de reforma íntima.
Bezerra de Menezes sempre
defendeu fidelidade à Codificação, alertando que adaptações por conveniência
pessoal enfraquecem a Doutrina. O Espiritismo ensina respeito a todas as
crenças, mas não exige que se abandonem a razão e a coerência. (6)
Ser espírita não é apenas
simpatizar com ideias espirituais, mas aceitar uma visão de mundo baseada na
responsabilidade moral e no progresso do espírito. Frequentar simultaneamente doutrinas
que se contradizem pode ser compreensível como fase de “transição”, porém torna-se
paradoxal quando se transforma em hábito permanente sem reflexão.
O Espiritismo não impõe
exclusividade, mas exige sinceridade. Porquanto , sem estudo, a fé vira
superstição, tanto quanto sem coerência, a “religião” vira fuga.
Referências Bibliográficas:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
Brasília: FEB, 2019.
2 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB,
2018.
3 DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor.
Brasília: FEB, 2012.
4 XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo espírito
Emmanuel. Brasília: FEB, 2013.
5 XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo espírito André
Luiz. Brasília: FEB, 2015.
6 MENEZES, Bezerra de. Doutrina e Vida. Brasília: FEB,
2010.
