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  • 17 março 2026

    Espíritas "carolas" e suas "rezações" quilométricas cansativas


     

    Sei que  os chamados “espíritas carolas” — aqueles que desejam transformar qualquer situação em prece (“rezação” comprida), reunião de vibrações— não são temas novos dentro do movimento espírita.

    O próprio Allan Kardec advertiu diversas vezes contra o excesso de formalismo, de misticismo e de práticas mecânicas, que acabam afastando o Espiritismo de sua proposta racional e educativa.

    Óbvio que o problema não está na prece em si, mas no uso exagerado, automático e emocionalmente dependente da “rezação” (um rosário completo), como se ela fosse solução mágica para tudo.

    Allan Kardec jamais defendeu prática de rezas intermináveis (cansativas). O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVII, ensina que a prece deve ser simples, sincera e consciente, e não longa, repetitiva ou teatral. Pois que a eficácia da prece está no sentimento, não na quantidade de palavras.

    Também no Livro dos Médiuns, Kardec alerta contra práticas que aproximem o Espiritismo do ritualismo religioso, dizendo que a doutrina não deve criar cerimônias, fórmulas ou hábitos mecânicos e vazios de sentido.

    Em boa lógica o querer transformar tudo em rezação caracteriza insegurança espiritual do rezador, além da dependência emocional, da falta de estudo, com certeza da influência do catolicismo devocional ou do pentecostalismo emocional e jamais característica de  elevação no moral do rezador.

    Muitos companheiros utilizam a oração como mecanismo de fuga da responsabilidade pessoal. Em vez de refletir, estudar, decidir e agir, prefere-se rezar para que tudo se resolva sozinho. Mas o Espírito Emmanuel ensina, em O Consolador, que a prece é recurso valioso, mas não substitui o esforço individual. Segundo ele, a oração sem ação pode se tornar simples hábito verbal (“inútil”).

    O mesmo pensamento aparece em Léon Denis, que advertia que o Espiritismo não veio restaurar práticas devocionais, mas educar a consciência. De outra forma transforma-se em um  “espiritismo carola”.

    Esse comportamento gera vários problemas dentro dos centros espíritas do tipo: reuniões cansativas e improdutivas, afastamento de jovens e estudiosos, clima de misticismo exagerado, substituição do estudo pela devoção (rezação), ilusão de “santidade” sem transformação moral.

    Kardec legou-nos uma Doutrina séria, racional, sem rituais, sem fórmulas, sem fanatismo.

    Quando tudo vira rezação, o Espiritismo começa a parecer aquilo que ele veio renovar. Em face disso, alguns caminhos coerentes com Kardec são urgentes , ou seja, valorizarmos o estudo doutrinário, pois que o Centro espírita que não estuda vira igreja improfícua. Nas horas das preces fazê-las curtas e objetivas sem discursos, sem teatralização, sem improvisos intermináveis.

    Devemos evitar prece para tudo, nem tudo exige vibração coletiva, pois muitas coisas exigem bom senso.

    Ademais, a prece ajuda, mas não faz o trabalho por nós. O excesso de preces não é sinal de mais espiritualidade. Muitas vezes, é sinal de insegurança, de hábito religioso antigo ou de fuga da culpa. E não percamos o foco, pois se dependesse de Allan Kardec, o Espiritismo teria: menos rezação, menos sentimentalismo piegas, menos formalismo, mais estudo, mais consciência e mais transformação moral.

    Ao ler este meu artigo, algum rezador, com certeza, terá o impulso de rezar por mim, pois devo estar obsidiado.

    É mole?