Sei que os chamados “espíritas carolas” — aqueles que desejam transformar qualquer situação em prece (“rezação” comprida), reunião de vibrações— não são temas novos dentro do movimento espírita.
O próprio Allan Kardec
advertiu diversas vezes contra o excesso de formalismo, de misticismo e
de práticas mecânicas, que acabam afastando o Espiritismo de sua proposta
racional e educativa.
Óbvio que o problema não
está na prece em si, mas no uso exagerado, automático e emocionalmente
dependente da “rezação” (um rosário completo), como se ela fosse solução
mágica para tudo.
Allan Kardec jamais
defendeu prática de rezas intermináveis (cansativas). O
Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVII, ensina
que a prece deve ser simples, sincera e consciente, e não longa,
repetitiva ou teatral. Pois que a eficácia da prece está no sentimento, não na
quantidade de palavras.
Também no Livro
dos Médiuns, Kardec alerta contra práticas que aproximem o Espiritismo do
ritualismo religioso, dizendo que a doutrina não deve criar cerimônias,
fórmulas ou hábitos mecânicos e vazios de sentido.
Em boa lógica o querer
transformar tudo em rezação caracteriza insegurança espiritual
do rezador, além da dependência emocional, da falta de estudo, com certeza da
influência do catolicismo devocional ou do pentecostalismo emocional e jamais
característica de elevação no moral do rezador.
Muitos companheiros
utilizam a oração como mecanismo de fuga da responsabilidade pessoal.
Em vez de refletir, estudar, decidir e agir, prefere-se rezar para que tudo se
resolva sozinho. Mas o Espírito Emmanuel ensina, em O Consolador,
que a prece é recurso valioso, mas não substitui o esforço individual. Segundo
ele, a oração sem ação pode se tornar simples hábito verbal (“inútil”).
O mesmo pensamento
aparece em Léon Denis, que advertia que o Espiritismo não veio restaurar
práticas devocionais, mas educar a consciência. De outra forma
transforma-se em um “espiritismo carola”.
Esse comportamento gera
vários problemas dentro dos centros espíritas do tipo: reuniões cansativas e
improdutivas, afastamento de jovens e estudiosos, clima de misticismo
exagerado, substituição do estudo pela devoção (rezação), ilusão de
“santidade” sem transformação moral.
Kardec legou-nos uma
Doutrina séria, racional, sem rituais, sem fórmulas, sem fanatismo.
Quando tudo vira rezação,
o Espiritismo começa a parecer aquilo que ele veio renovar. Em face disso,
alguns caminhos coerentes com Kardec são urgentes , ou seja, valorizarmos
o estudo doutrinário, pois que o Centro espírita que não estuda vira igreja
improfícua. Nas horas das preces fazê-las curtas e objetivas sem
discursos, sem teatralização, sem improvisos intermináveis.
Devemos evitar prece para
tudo,
nem tudo exige vibração coletiva, pois muitas coisas exigem bom senso.
Ademais, a prece
ajuda, mas não faz o trabalho por nós. O excesso de preces não é sinal de mais
espiritualidade. Muitas vezes, é sinal de insegurança, de hábito religioso
antigo ou de fuga da culpa. E não percamos o foco, pois se dependesse de Allan
Kardec, o Espiritismo teria: menos rezação, menos sentimentalismo piegas, menos formalismo, mais estudo, mais consciência e mais
transformação moral.
Ao ler este meu artigo,
algum rezador, com certeza, terá o impulso de rezar
por mim, pois devo estar obsidiado.
É mole?
