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  • 27 março 2026

    Espiritismo e tatuagens – urge coerência , sobriedade e o respeito pelo corpo

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    A discussão sobre tatuagens , piercings e similares  à luz do Espiritismo e do Cristianismo exige reflexão séria, sem concessões à superficialidade cultural contemporânea. O corpo físico não é mero objeto de uso arbitrário, mas instrumento sagrado confiado ao Espírito para sua evolução moral.

    Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ensina que o corpo é um empréstimo divino, devendo ser preservado com responsabilidade. Ao tratar da lei de conservação, Kardec adverte que abusos contra o corpo configuram infrações à lei natural (KARDEC, 2004).

    Nesse sentido, a prática de tatuagens , que implica dor voluntária, agressão cutânea e marcação permanente , levanta questionamentos quanto à real necessidade e finalidade moral desse ato.

    Sob a ótica espírita-cristã, o corpo é “templo do Espírito”. A banalização de intervenções corporais meramente estéticas ou identitárias pode refletir excessivo apego à matéria, em detrimento dos valores espirituais. Léon Denis adverte que o Espírito deve libertar-se das ilusões materiais, elevando-se pelo aperfeiçoamento íntimo, e não pela exterioridade (DENIS, 1987).

    Benfeitores espirituais amplamente respeitados no movimento espírita reforçam essa compreensão. Emmanuel ensina que o corpo físico é oficina de redenção, não devendo ser submetido a práticas que expressem vaidade ou desrespeito (XAVIER, 2003). Na mesma linha, o Espírito “André Luiz” descreve o corpo como organização sutil e complexa, cuja harmonia pode ser afetada por agressões deliberadas (LUIZ, 2010).

    A tradição espírita brasileira, representada por figuras como Bezerra de Menezes, Ivone Pereira, Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, Batuira, Jésus Gonçalves,  sempre enfatizou o respeito ao corpo como dever moral. Embora não haja proibição formal e explícita nas obras básicas, o princípio da prudência recomenda evitar práticas desnecessárias que possam comprometer o equilíbrio físico e espiritual.

    No cenário contemporâneo, Divaldo Franco diversas vezes se manifestou de forma crítica quanto à banalização do corpo, alertando que excessos nesse campo podem refletir conflitos íntimos e desconexão com valores espirituais mais elevados (FRANCO, 2015).

    É importante destacar que o Espiritismo não estabelece dogmas exteriores, mas orientações baseadas na razão e na responsabilidade moral. Ainda assim, à luz dos ensinamentos mencionados, tatuagens e piercings podem ser compreendidos como práticas inadequadas quando motivadas por vaidade, modismo ou impulsividade — fatores que não contribuem para o progresso espiritual.

    Além disso, sob o prisma perispiritual, a literatura espírita sugere que marcas profundas no corpo físico podem repercutir no perispírito, especialmente quando associadas a intenções negativas ou desequilíbrios emocionais. Tal perspectiva reforça a necessidade de cautela.

    Portanto, embora a decisão final pertença ao livre-arbítrio individual, a coerência com os princípios cristãos e espíritas convida à sobriedade, ao respeito pelo corpo e à valorização do que é essencial: o aprimoramento moral do Espírito. Em um mundo marcado pelo culto à aparência, a verdadeira evolução exige disciplina, consciência e fidelidade aos valores essenciais.


    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2004.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

    LUIZ, André (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

    FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 2015.