Jorge Hessen
Brasília -DF
À luz da Doutrina
Espírita, a dor — mesmo a mais profunda
— não autoriza a interrupção voluntária da vida, que é patrimônio sagrado da
alma imortal.
A atual notícia
envolvendo uma jovem na Espanha, que decidiu pela eutanásia após vivenciar
graves agressões no campo da sexualidade, reacende um debate doloroso e
necessário: até que ponto a dor humana pode justificar a antecipação deliberada
da morte?
A comoção é
compreensível. A violência, sobretudo a de natureza íntima e psicológica, fere
a alma em profundidade. Contudo, à luz da Doutrina Espírita não podemos
confundir compaixão com anuência a práticas que ferem as leis divinas.
Para o Espiritismo, a
vida não pertence ao indivíduo em caráter absoluto. Trata-se de uma concessão
de Deus, instrumento de aprendizado e redenção. No Livro dos Espíritos, aprendemos
que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, pois apenas o
Criador conhece o momento adequado do retorno ao plano espiritual.
A eutanásia, ainda que
motivada por dor extrema, configura uma forma de abreviar uma prova ou
expiação. E toda prova interrompida retorna, inevitavelmente, em momento
futuro, muitas vezes em condições ainda mais desafiadoras.
Não enxergamos o
sofrimento como castigo arbitrário, mas como mecanismo educativo da alma. As
dores morais — como as decorrentes de abusos e violências — são, sem dúvida,
das mais dilacerantes. Porém, longe de justificar o abandono da existência,
elas clamam por acolhimento, amparo e reconstrução interior.
Emmanuel ensina que “a
dor é o buril que aperfeiçoa a alma”. Isso não significa aceitar
passivamente o sofrimento, mas enfrentá-lo com coragem, buscando auxílio
espiritual, psicológico e fraterno.
A eutanásia apresenta-se,
muitas vezes, como um gesto de “misericórdia”. No entanto, do ponto de vista
espírita, trata-se de uma ilusão perigosa. A morte do corpo não extingue a dor
da alma. Pelo contrário: o Espírito, ao despertar na vida além túmulo, leva
consigo as mesmas angústias, agravadas pela consciência de ter interrompido a
própria jornada.
Casos de suicídio e a
eutanásia são amplamente estudados na
literatura espírita, como nas obras de André Luiz, que descrevem estados de
sofrimento intenso no plano espiritual decorrentes da fuga das provas terrenas.
Se há algo que precisa
ser denunciado com veemência, não é apenas a eutanásia em si, mas as
circunstâncias que levaram a jovem espanhola a ato tão extremo. A
violência sexual, a omissão social, o abandono emocional, esses sim são os verdadeiros crimes que exigem
combate firme.
A resposta espírita não é
o julgamento da vítima, mas a defesa intransigente da vida e o incentivo à
reconstrução. É dever da sociedade oferecer suporte, justiça e acolhimento,
para que nenhuma alma se sinta empurrada ao desespero.
Diante de tragédias
humanas como essa na Espanha, o Espiritismo nos convida à reflexão profunda,
sem perder a ternura. A dor merece respeito, mas a vida exige defesa. Até
porque a eutanásia não é libertação, é adiamento. Não é solução, é interrupção
indevida de um processo sagrado.
Que possamos, seja como
sociedade e como espíritas, reafirmar os valores da vida, da esperança e da
justiça, lembrando sempre que nenhuma noite é eterna para aquele que confia
nas leis sábias e misericordiosas de Deus.
Num mundo ferido pela
violência e pela desesperança, cabe ao pensamento espírita erguer a bandeira da
vida com lucidez e compaixão, jamais cedendo à tentação de soluções fáceis para
dores complexas. A verdadeira caridade começa por preservar a existência e
amparar o Espírito em sua jornada de redenção.
