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  • 28 março 2026

    Eutanásia na Espanha uma alternativa irrefletida perante a agonia da dor


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    À luz da Doutrina Espírita, a  dor — mesmo a mais profunda — não autoriza a interrupção voluntária da vida, que é patrimônio sagrado da alma imortal.

    A atual notícia envolvendo uma jovem na Espanha, que decidiu pela eutanásia após vivenciar graves agressões no campo da sexualidade, reacende um debate doloroso e necessário: até que ponto a dor humana pode justificar a antecipação deliberada da morte?

    A comoção é compreensível. A violência, sobretudo a de natureza íntima e psicológica, fere a alma em profundidade. Contudo, à luz da Doutrina Espírita não podemos confundir compaixão com anuência a práticas que ferem as leis divinas.

    Para o Espiritismo, a vida não pertence ao indivíduo em caráter absoluto. Trata-se de uma concessão de Deus, instrumento de aprendizado e redenção. No Livro dos Espíritos, aprendemos que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, pois apenas o Criador conhece o momento adequado do retorno ao plano espiritual.

    A eutanásia, ainda que motivada por dor extrema, configura uma forma de abreviar uma prova ou expiação. E toda prova interrompida retorna, inevitavelmente, em momento futuro, muitas vezes em condições ainda mais desafiadoras.

    Não enxergamos o sofrimento como castigo arbitrário, mas como mecanismo educativo da alma. As dores morais — como as decorrentes de abusos e violências — são, sem dúvida, das mais dilacerantes. Porém, longe de justificar o abandono da existência, elas clamam por acolhimento, amparo e reconstrução interior.

    Emmanuel ensina que “a dor é o buril que aperfeiçoa a alma”. Isso não significa aceitar passivamente o sofrimento, mas enfrentá-lo com coragem, buscando auxílio espiritual, psicológico e fraterno.

    A eutanásia apresenta-se, muitas vezes, como um gesto de “misericórdia”. No entanto, do ponto de vista espírita, trata-se de uma ilusão perigosa. A morte do corpo não extingue a dor da alma. Pelo contrário: o Espírito, ao despertar na vida além túmulo, leva consigo as mesmas angústias, agravadas pela consciência de ter interrompido a própria jornada.

    Casos de suicídio e a eutanásia  são amplamente estudados na literatura espírita, como nas obras de André Luiz, que descrevem estados de sofrimento intenso no plano espiritual decorrentes da fuga das provas terrenas.

    Se há algo que precisa ser denunciado com veemência, não é apenas a eutanásia em si, mas as circunstâncias que levaram a jovem espanhola a ato tão extremo. A violência sexual, a omissão social, o abandono emocional,  esses sim são os verdadeiros crimes que exigem combate firme.

    A resposta espírita não é o julgamento da vítima, mas a defesa intransigente da vida e o incentivo à reconstrução. É dever da sociedade oferecer suporte, justiça e acolhimento, para que nenhuma alma se sinta empurrada ao desespero.

    Diante de tragédias humanas como essa na Espanha, o Espiritismo nos convida à reflexão profunda, sem perder a ternura. A dor merece respeito, mas a vida exige defesa. Até porque a eutanásia não é libertação, é adiamento. Não é solução, é interrupção indevida de um processo sagrado.

    Que possamos, seja como sociedade e como espíritas, reafirmar os valores da vida, da esperança e da justiça, lembrando sempre que nenhuma noite é eterna para aquele que confia nas leis sábias e misericordiosas de Deus.

    Num mundo ferido pela violência e pela desesperança, cabe ao pensamento espírita erguer a bandeira da vida com lucidez e compaixão, jamais cedendo à tentação de soluções fáceis para dores complexas. A verdadeira caridade começa por preservar a existência e amparar o Espírito em sua jornada de redenção.