Jorge Hessen
Brasília -DF
À luz da Doutrina Espírita, os nossos reveses não configuram fracasso, mas oportunidades providenciais de aperfeiçoamento moral. Nossa existência observada apenas pelos critérios imediatistas do mundo costuma ser dividida entre vitórias e derrotas. A lógica terrestre, quase sempre subordinada aos interesses materiais, considera êxito aquilo que satisfaz as ambições pessoais e denomina fracasso tudo o que contraria desejos, expectativas ou projetos do ego.
Entretanto, a análise espírita, fundada na imortalidade da alma e na pluralidade das existências, oferece interpretação substancialmente diversa. Não há derrota em sentido absoluto em nossa vida. O que se convencionou chamar de fracasso nada mais representa que experiência de aprendizado, muitas vezes necessária ao reajuste dos nossos valores íntimos e ao desenvolvimento das virtudes ainda incipientes.
Allan Kardec demonstra, ao examinar as vicissitudes da vida, que as provas e expiações se inserem em contexto de justiça e misericórdia, no qual cada acontecimento possui função pedagógica. Sob essa perspectiva, os embaraços da jornada não se destinam a humilhar o ser, mas a despertá-lo para a realidade espiritual.
Vejamos que quando uma porta se fecha para nós, pode evitar comprometimento mais grave e ao experimentarmos uma “perda” afetiva, somos convidados ao desapego. São diversas situações desafiadoras tais como um insucesso profissional que nos convida a humildar o orgulho, seja uma enfermidade moral ou física que nos impulsiona à restauração da disciplina interior. Em todos esses casos, podemos superficialmente identificar derrota, porém a razão kardeciana reconhece conquista, aprendizado e ensejo de progresso.
O erro mais grave não está no revés experimentado, mas na recusa em extrair dele a lição correspondente. A verdadeira derrota seria a cristalização do orgulho, da revolta ou da rebeldia diante das advertências da vida.
À medida que compreendemos nossa condição de Espíritos imortais, passamos a perceber que os acontecimentos dolorosos não representam interrupção do destino, mas recursos de aprimoramento sabiamente administrados pela Providência Divina.
Nenhum sofrimento é estéril quando acolhido com discernimento, fé raciocinada e disposição sincera de renovação. Em face disso, importa reafirmar que os nossos aparentes fracassos não constituem mapas de derrota, mas roteiros de aprendizado.
A vida, sob a regência das leis divinas, não nos impõe quedas inúteis; oferece-nos, antes, lições necessárias para que nos elevemos, nos corrijamos e prossigamos em direção à plenitude.
Em tempos de ansiedade, imediatismo e culto ao sucesso exterior, a mensagem espírita permanece atual: onde o mundo vê derrota, a consciência esclarecida identifica oportunidade de crescimento sempre.

