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  • 30 março 2026

    ​O “esvaziamento” do movimento espírita brasileiro reproduz a preguiça moral dos seus “líderes”

     


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Refletiremos aqui um ponto sensível e recorrente dentro do próprio movimento espírita: a distância entre a grandeza dos princípios da Doutrina e a sua limitada difusão mundial após mais de um século e meio.

    Antes de qualquer diagnóstico mais apressado, convém lembrar que o Espiritismo nunca se propôs a uma expansão baseada em proselitismo ou imposição cultural. Ao contrário, sua proposta sempre foi de crescimento orgânico, pela adesão consciente, racional e moral. Isso, por si só, já explica em parte sua menor visibilidade global quando comparada a religiões historicamente institucionalizadas.

    Óbvio que isso não encerra a questão. O Espiritismo não oferece concessões fáceis. Ele exige transformação moral, estudo contínuo, disciplina moral e senso crítico. Diferente de sistemas religiosos que prometem salvação imediata ou recompensas externas (prosperidade), ele responsabiliza o indivíduo por sua própria evolução. Isso naturalmente amortiza sua popularização em massa, sobretudo em culturas marcadas pelo utilitarismo religioso.

    O Brasil tornou-se o principal polo espírita do mundo por uma conjunção histórica, cultural e mediúnica ,com figuras como Bezerra de Menezes, Chico Xavier , Ivone Pereira e Divaldo Franco. No entanto, em muitos países, especialmente de tradição anglo-saxônica, o Espiritismo foi diluído no espiritualismo genérico ou rejeitado por barreiras culturais, linguísticas e religiosas.

    No Brasil há evidentes fragilidades internas do movimento espírita. Há gravíssimos problemas reais, mormente com a falsa mediunidade. O Livro dos Médiuns já alertava com rigor contra mistificações, fascinação e fraudes. Quando esses critérios são ignorados, abre-se espaço para práticas duvidosas (as famigeradíssimas cartas consoladoras).

    Isso sem nos referirmos aos exacerbados personalismos e à vaidade em que  “lideranças” se colocam acima da Doutrina, criando verdadeiros “feudos espirituais”.  Tudo isso por falta de estudo criterioso de Kardec onde muitos centros  e grupos espiritas abandonam o caráter filosófico e científico, reduzindo o Espiritismo a práticas assistencialistas ou místicas.

    Já escrevi sobre a afonia ou “mutismo engessado” da FEB que  frequentemente adota posturas de neutralidade diante de desvios graves, o que apostilo como lesiva omissão.

    Tal omissão febiana diante das chamadas “falsas mediunidades” e, em especial, as “cartas consoladoras” fajutas causa danos profundos. Não apenas ferem a ética, mas também desacreditam a Doutrina perante a opinião pública.

    Sei que  fraudes existem em qualquer campo humano, seja religioso, científico ou político, e não invalidam o princípio, mas revelam a imperfeição ou má-fé dos seus intérpretes.

    Não subestimo que  160 anos, do ponto de vista histórico e espiritual, é muito pouco tempo para consagração global do Espiritismo. O cristianismo primitivo, por exemplo, levou séculos para se estruturar e ainda assim sofreu (e sofre) profundas distorções.

    O Espiritismo está ainda em sua fase inicial de assimilação, enfrentando resistências naturais de uma humanidade ainda fortemente materialista. Nesse sentido a “fragilidade” é do Espiritismo ou dos homens? Essa é a questão central.

    A Doutrina, em si, apresenta uma estrutura lógica, ética e filosófica robusta. A fragilidade reside menos nela e mais na incapacidade humana de vivê-la plenamente, na tendência à deturpação, na dificuldade de alinhar prática e teoria.

    Em outras palavras: não é a luz da Terceira Revelação que é fraca, mas os olhos humanos  que ainda não se habituaram a ela.

    Óbvio que o Espiritismo não fracassou, embora  ainda não tenha sido plenamente realizado. Sua expansão não depende apenas de “divulgação”, mas de coerência moral, seriedade doutrinária e fidelidade aos princípios da Codificação.

    Se há fraudes (falsas cartas consoladoras), lideranças medrosas e levianas e desvios, isso não denuncia a falência da Doutrina, mas evidencia a urgência de revisão das  suas bases , especialmente ao rigor metodológico do Livro dos Espíritos e ao equilíbrio do Evangelho segundo o Espiritismo.

    Creio que  o verdadeiro crescimento do Espiritismo não se mede em números ou popularidade, mas na profundidade com que desperta e transforma consciências. E isso, por natureza, é  um projeto mais lento, silencioso e muito mais exigente.