Jorge Hessen
Brasília -DF
Refletiremos aqui um ponto sensível e recorrente dentro do próprio movimento espírita: a distância entre a grandeza dos princípios da Doutrina e a sua limitada difusão mundial após mais de um século e meio.
Antes de qualquer diagnóstico mais apressado, convém lembrar que o Espiritismo nunca se propôs a uma expansão baseada em proselitismo ou imposição cultural. Ao contrário, sua proposta sempre foi de crescimento orgânico, pela adesão consciente, racional e moral. Isso, por si só, já explica em parte sua menor visibilidade global quando comparada a religiões historicamente institucionalizadas.
Óbvio que isso não encerra a questão. O Espiritismo não oferece concessões fáceis. Ele exige transformação moral, estudo contínuo, disciplina moral e senso crítico. Diferente de sistemas religiosos que prometem salvação imediata ou recompensas externas (prosperidade), ele responsabiliza o indivíduo por sua própria evolução. Isso naturalmente amortiza sua popularização em massa, sobretudo em culturas marcadas pelo utilitarismo religioso.
O Brasil tornou-se o principal polo espírita do mundo por uma conjunção histórica, cultural e mediúnica ,com figuras como Bezerra de Menezes, Chico Xavier , Ivone Pereira e Divaldo Franco. No entanto, em muitos países, especialmente de tradição anglo-saxônica, o Espiritismo foi diluído no espiritualismo genérico ou rejeitado por barreiras culturais, linguísticas e religiosas.
No Brasil há evidentes fragilidades internas do movimento espírita. Há gravíssimos problemas reais, mormente com a falsa mediunidade. O Livro dos Médiuns já alertava com rigor contra mistificações, fascinação e fraudes. Quando esses critérios são ignorados, abre-se espaço para práticas duvidosas (as famigeradíssimas cartas consoladoras).
Isso sem nos referirmos aos exacerbados personalismos e à vaidade em que “lideranças” se colocam acima da Doutrina, criando verdadeiros “feudos espirituais”. Tudo isso por falta de estudo criterioso de Kardec onde muitos centros e grupos espiritas abandonam o caráter filosófico e científico, reduzindo o Espiritismo a práticas assistencialistas ou místicas.
Já escrevi sobre a afonia ou “mutismo engessado” da FEB que frequentemente adota posturas de neutralidade diante de desvios graves, o que apostilo como lesiva omissão.
Tal omissão febiana diante das chamadas “falsas mediunidades” e, em especial, as “cartas consoladoras” fajutas causa danos profundos. Não apenas ferem a ética, mas também desacreditam a Doutrina perante a opinião pública.
Sei que fraudes existem em qualquer campo humano, seja religioso, científico ou político, e não invalidam o princípio, mas revelam a imperfeição ou má-fé dos seus intérpretes.
Não subestimo que 160 anos, do ponto de vista histórico e espiritual, é muito pouco tempo para consagração global do Espiritismo. O cristianismo primitivo, por exemplo, levou séculos para se estruturar e ainda assim sofreu (e sofre) profundas distorções.
O Espiritismo está ainda em sua fase inicial de assimilação, enfrentando resistências naturais de uma humanidade ainda fortemente materialista. Nesse sentido a “fragilidade” é do Espiritismo ou dos homens? Essa é a questão central.
A Doutrina, em si, apresenta uma estrutura lógica, ética e filosófica robusta. A fragilidade reside menos nela e mais na incapacidade humana de vivê-la plenamente, na tendência à deturpação, na dificuldade de alinhar prática e teoria.
Em outras palavras: não é a luz da Terceira Revelação que é fraca, mas os olhos humanos que ainda não se habituaram a ela.
Óbvio que o Espiritismo não fracassou, embora ainda não tenha sido plenamente realizado. Sua expansão não depende apenas de “divulgação”, mas de coerência moral, seriedade doutrinária e fidelidade aos princípios da Codificação.
Se há fraudes (falsas cartas consoladoras), lideranças medrosas e levianas e desvios, isso não denuncia a falência da Doutrina, mas evidencia a urgência de revisão das suas bases , especialmente ao rigor metodológico do Livro dos Espíritos e ao equilíbrio do Evangelho segundo o Espiritismo.
Creio que o verdadeiro crescimento do Espiritismo não se mede em números ou popularidade, mas na profundidade com que desperta e transforma consciências. E isso, por natureza, é um projeto mais lento, silencioso e muito mais exigente.
