Jorge Hessen
Brasília -DF
Quando a omissão fala mais alto que a “orientação”, abre-se espaço para a fraude, a exploração das cartas “consoladoras” e o descrédito do próprio Espiritismo.
O crescimento alarmante das chamadas “cartas consoladoras” de origem duvidosa no movimento espírita brasileiro não é um fenômeno isolado nem ingênuo. Trata-se de um processo contínuo de usurpação da mediunidade, que encontra terreno fértil justamente onde deveria haver vigilância, orientação e firmeza doutrinária.
A despeito de órgãos da grande imprensa terem denunciado o fato, é impossível ignorar um fator insultuoso: o silêncio da FEB, que é a instituição de maior representatividade nacional. Sua ausência de posicionamento claro, público e pedagógico diante dessas práticas tem produzido um efeito colateral gravíssimo — a legitimação indireta do estelionato do luto.
A mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, disciplina moral e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não se trata de espetáculo, tampouco de comércio emocional. Quando supostas comunicações espirituais passam a depender de inscrições prévias, coleta de dados pessoais ou exposição em ambientes previamente organizados, estamos diante de um indício evidente de fraude “mediúnica”.
A omissão institucional, nesse contexto, não é neutra. Ela se torna funcional ao erro. Ao não esclarecer, não advertir e não educar, permite que o público menos esclarecido (leigo mesmo!) — muitas vezes fragilizado pelo luto — seja conduzido à ilusão. E pior: estimula, ainda que indiretamente, a proliferação de falsos médiuns que se aproveitam desumanamente da dor alheia.
O dano não se restringe às vítimas diretas. A médio e longo prazo, compromete-se a credibilidade do próprio movimento espírita brasileiro. A Doutrina, que se fundamenta na razão, na ética e no controle universal dos ensinos dos Espíritos, passa a ser confundida com práticas sensacionalistas e emocionalmente manipuladoras.
É preciso dizer com todas as letras: consolar não é enganar. A verdadeira consolação espírita nasce do esclarecimento, da compreensão das leis divinas e da certeza da imortalidade da alma — jamais de mensagens fabricadas através de informações das redes sociais e bancos de dados virtuais.
Diante disso, espera-se mais do que silêncio. Espera-se responsabilidade doutrinária. Espera-se que a FEB assuma seu papel “educativo”, orientando com clareza, denunciando desvios e promovendo o estudo sério da mediunidade, conforme os parâmetros da Codificação.
Sem isso, com o “lavar as mãos" da FEB eximindo-se de responsabilidade, culpas ou consequências sobre tal situação, fingindo não ter envolvimento e desinteressando-se do resultado, continuará a vigorar essa perigosa inversão: enquanto os fraudadores agem com ousadia, os responsáveis pelo “esclarecimento” permanecem pusilanimemente em silêncio.
E, no Espiritismo, omitir-se diante das atuais fraudes de “cartas consoladoras da carochinha” não é apenas um crime lesa-Deus— é, em certa medida, colaborar com o recrudescimento e ampliação delas.
