24 abril 2026

“Fazeção de coisas” assistencialistas ou fuga psicológica ?


Jorge Hessen

Brasília -DF



Sem generalização temos ciência de que nem toda “fazeção de coisas” é fuga psicológica e pode ser exatamente o contrário: gente culpada tentando acertar no único campo em que consegue agir , o do assistencialismo.

Quando Allan Kardec, na questão 886 do Livro dos Espíritos, define caridade como benevolência, indulgência e perdão, ele amplia o conceito para além da esmola material. Ele não nega a ação , mas a qualifica. O cerne da questão não é fazer muito; o problema é fazeção de coisa  sem transformação moral.

Há, sim, um risco real: a ação assistencial virar anestesia moral. A pessoa se ocupa tanto em distribuir coisas, organizar campanhas, elaborar eventos, ajudar externamente, mas evita olhar para dentro , onde estão orgulho, mágoas, vaidades, conflitos não resolvidos. Nesse caso, a caridade vira um “escudo psicológico”: ajuda-se o outro para não confrontar a si mesmo.

Mas há outro lado igualmente verdadeiro: fazeção de coisa  pode ser justamente o caminho de transformação íntima. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade material aparece como porta de entrada. Quem começa dando pão pode, com o tempo, aprender a dar compreensão, respeito e perdão. Nem todos começam pela caridade moral , muitos chegam a ela pelo exercício material.

O ponto crucial, então, não é “fazer ou não fazer”, mas como e por quê se faz: pois se a ação gera humildade , obviamente está educando o espírito. Se gera vaidade  do tipo “eu ajudo”, “eu faço”,  está inflando o ego. Porém, se evita conflitos internos , pode ser fuga , mas se amplia a capacidade de amar , com certeza é caridade real

Um sinal sutil: quem se vincula à fazeção de coisa  costuma ter pouca tolerância com as imperfeições alheias , justamente o oposto da definição kardeciana. Então fazeção de coisas pode ser tanto fuga quanto escola evolutiva. Dependendo do nível de consciência de quem faz.