Jorge Hessen
Brasília -DF
Quando Allan Kardec, na questão 886 do Livro dos Espíritos, define caridade como benevolência, indulgência e perdão, ele amplia o conceito para além da esmola material. Ele não nega a ação , mas a qualifica. O cerne da questão não é fazer muito; o problema é fazeção de coisa sem transformação moral.
Há, sim, um risco real: a ação assistencial virar anestesia moral. A pessoa se ocupa tanto em distribuir coisas, organizar campanhas, elaborar eventos, ajudar externamente, mas evita olhar para dentro , onde estão orgulho, mágoas, vaidades, conflitos não resolvidos. Nesse caso, a caridade vira um “escudo psicológico”: ajuda-se o outro para não confrontar a si mesmo.
Mas há outro lado igualmente verdadeiro: a fazeção de coisa pode ser justamente o caminho de transformação íntima. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade material aparece como porta de entrada. Quem começa dando pão pode, com o tempo, aprender a dar compreensão, respeito e perdão. Nem todos começam pela caridade moral , muitos chegam a ela pelo exercício material.
O ponto crucial, então, não é “fazer ou não fazer”, mas como e por quê se faz: pois se a ação gera humildade , obviamente está educando o espírito. Se gera vaidade do tipo “eu ajudo”, “eu faço”, está inflando o ego. Porém, se evita conflitos internos , pode ser fuga , mas se amplia a capacidade de amar , com certeza é caridade real
Um sinal sutil: quem se vincula à fazeção de coisa costuma ter pouca tolerância com as imperfeições alheias , justamente o oposto da definição kardeciana. Então a fazeção de coisas pode ser tanto fuga quanto escola evolutiva. Dependendo do nível de consciência de quem faz.
