03 abril 2026

O surto do ajuizamento moral nos “feudos espíritas”

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma distorção grave em curso no movimento espírita brasileiro e o mais inquietante é que muitos não a percebem. Grupos espíritas (feudos) que deveriam funcionar como escolas de consciência têm, gradativamente, assumido a postura de tribunais morais. Aí, não se acolhe para educar; julga-se para desqualificar. Não se orienta com empatia, mas corrige-se com aspereza. Não se constrói consciência, mas impõe-se conduta padronizada.

E tudo isso em nome de uma suposta “fidelidade” doutrinária. Obviamente é preciso dizer com clareza que  isso não é Espiritismo. É certo que a Doutrina jamais propôs a eliminação do julgamento. Julgar faz parte da estrutura racional do ser, pois nos permite discernir, escolher e evoluir. Sem julgamento, não há ética. Sem ética, não há progresso. Porém, o que se observa hoje não é o uso saudável dessa faculdade, mas sua perversão.

O julgamento, em muitos ambientes “espíritas”, deixou de ser instrumento de lucidez para se tornar mecanismo de poder. Pois julga-se para constranger,  para controlar e, sobretudo, para sentir-se acima. E aqui está o ponto central que muitos evitam encarar. O que se apresenta como “rigor moral” é, frequentemente, apenas orgulho bem articulado. Portanto, não se trata de defesa da doutrina, mas de vaidade espiritual.

Cria-se, então, um ambiente tóxico. As pessoas passam a medir cada palavra, cada atitude, não por consciência, mas por receio do olhar alheio, da crítica velada e da exclusão silenciosa. O resultado é previsível: consciências reprimidas, culpas infladas, relações superficiais e uma crescente necessidade de parecer aquilo que ainda não se é.

Isso tem nome: hipocrisia moral. E isso não é exagero. É consequência direta de um modelo onde a aparência de virtude vale mais do que o esforço sincero de transformação.

Enquanto isso, a base moral do Espiritismo vai sendo esvaziada na prática. A advertência do Cristo, relembrada em O Evangelho segundo o Espiritismo  “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado” — tornou-se, para muitos, apenas uma citação decorativa (KARDEC, 2018).

Porque, na vivência real, as pedras continuam sendo lançadas com impressionante facilidade. O mais preocupante é que essa cultura se perpetua sob o silêncio de lideranças “oficiais” que, por responsabilidade doutrinária, deveriam se posicionar. A omissão, nesse caso, não é neutra ,  ela legitima o desvio. E assim, o movimento segue, pouco a pouco, se afastando de sua essência.

É preciso interromper esse processo. O Espiritismo não forma juízes, mas  Espíritos em aprendizado e não exige perfeição imediata, mas esforço contínuo. Porque Kardec não legitima a dureza, mas ensina a caridade. Que não é condescendência com o erro, mas compreensão de quem erra. Sem isso, tudo o que resta é uma caricatura da doutrina: rígida, fria e incapaz de transformar realmente o ser humano.

Fica, portanto, uma pergunta incômoda , mas necessária: estamos formando consciências livres ou apenas reproduzindo tribunais disfarçados de grupos espíritas? Ora, se a resposta não vier acompanhada de autocrítica sincera, o risco é evidente: continuaremos chamando de Espiritismo aquilo que, na prática, já se afastou da Terceira Revelação.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2016.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017.