Não estamos falando de ingenuidade. Não estamos falando de fato simplório. Estamos falando de um fenômeno mais grave: a construção deliberada de “autoridades mediúnicas” que, na própria consciência, sabem que não são aquilo que o "povão" inocente útil aplaude , mas continuam, sustentadas por ovações, pela cumplicidade febiana e pelo estelionato do luto transformado em picadeiro.
A questão não é apenas psicológica. É moral. Como funciona a mente de um falso médium que vive dessa comédia? Com certeza funciona, antes de tudo, pela degradação progressiva da consciência. A nefasta fraude mediúnica, quase sempre, nasce pequena: seja um detalhe inventado, seja uma mensagem “ajustada”, seja uma emoção encenada. O problema é que o ambiente espírita , quando fragilizado pela falta de estudo sério , não apenas tolera isso, mas premia. E recompensa com o que há de mais perigoso: prestígio “mediúnico” “igualzinho do honrado Chico Xavier”.
A partir daí, instala-se um mecanismo perverso: o falsário da mediunidade percebe que a mentira gera acolhimento, fama, autoridade. E então ele cruza uma linha invisível , aquela em que deixa de apenas mentir… para precisar da mentira para existir.
É nesse ponto que a mente psicopatológica desse estelionatário do além entra em um estado de autojustificação crônica. Ele não diz mais: “estou enganando”. Ele passa a dizer: “Estou ajudando!” “Estou consolando!”“Deus sabe do meu coração!” e um rosário de mascaramentos hipócritas.
E assim, o fraudador espiritual deixa de ser apenas um vigarista e passa a ser um crente da própria vigarice. Mas não nos enganemos: em todos os casos, há lucidez , há descaramento . Há momentos de perceptibilidade. Há instantes em que a enlameada consciência grita. Só que esses momentos são rapidamente soterrados pelo médium da carochinha por algumas forças brutais: como o vício da admiração. A fama mediúnica é uma das mais intoxicantes que existem. Ser visto como “canal do além”, “mensageiro”, “instrumento dos espíritos” que coloca o charlatão num pedestal quase inquestionável. E quanto mais alto o pedestal, mais devastadora será a queda. Então o embusteiro continua não por fé, mas por dependência psicológica da própria imagem.
Há a blindagem do grupo em que instituições, seguidores e até dirigentes passam a funcionar como escudo. Questionar tais vigaristas vira “falta de caridade”. Investigar vira “perseguição”. O pensamento crítico é demonizado. Cria-se uma bolha onde a mentira não apenas sobrevive , ela é protegida.
Aqui está o ponto mais grave — a exploração da dor humana. A falsa mediunidade não cresce sozinha ; ela se alimenta de algo: o luto, a saudade, o desespero. Cartas “consoladoras”, mensagens “do além”, promessas de contato com entes queridos… tudo isso cria um vínculo emocional tão forte que neutraliza qualquer suspeita racional.
E então surge o cenário mais perturbador: pessoas sofrendo sendo usadas como combustível para a manutenção de uma charlatanice.
Isso não é apenas desvio de caráter. Isso é exploração criminosa do luto.
A Doutrina Espírita jamais foi ingênua sobre esse risco. O Livro dos Médiuns é categórico ao alertar contra mistificações, charlatanismo e fascinação , essa última, talvez a mais perigosa, porque cega tanto o médium quanto os que o seguem.
E aqui está o ponto que o movimento espírita brasileiro insiste em fingir desconhecer: há fascinação coletiva em curso. Não apenas indivíduos iludidos , mas grupos inteiros que preferem preservar ídolos de barro a preservar a verdade espírita. Porque para um “líder” espírita MORNO BONZINHO denunciar dói. Questionar desagrada. Expor fraudes abala estruturas de poder.
Todavia, não denunciar ou alertar os espíritas corrompe tudo. A mente do falso médium, portanto, não é um mistério insondável. Ela é o resultado de um processo: começa com concessões pequenas à verdade, evolui para justificativas morais, consolida-se na dependência da imagem e termina, muitas vezes, numa vida inteira sustentada por uma ficção cuidadosamente protegida.
E quanto mais tempo passa, mais difícil se torna sair. Porque, em determinado ponto, confessar não é apenas admitir um erro , é destruir uma identidade inteira. Mas há algo ainda mais grave do que a mente de quem engana. É o silêncio de quem percebe e não diz nada.
Enquanto o movimento espírita continuar confundindo caridade com conivência, humildade com omissão e respeito com blindagem de falsos ídolos, esse ciclo vai se repetir. E as vítimas continuarão sendo as mesmas: os sinceros, os aflitos, os que buscam consolo e encontram o show no charco “mediúnico”.
