Jorge Hessen
Brasília -DF
“O vinho é escarnecedor e a bebida forte alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio.” — Provérbios 20:1.
A ingestão de bebidas alcoólicas constitui um dos mais graves problemas médico-sociais da atualidade. Embora socialmente glamourizado, o álcool continua destruindo famílias, adoecendo jovens, incentivando a violência e comprometendo bilhões de consciências.
A propaganda sedutora da indústria alcoólica, especialmente difundida pela televisão e pelas redes sociais, transforma o vício em símbolo de status, diversão e aceitação social, anestesiando a percepção moral sobre seus efeitos devastadores.
No Evangelho, encontramos clara advertência quanto aos excessos. Sobre João Batista, registra Lucas: “não beberá vinho nem bebida forte” (Lc 1:15). A orientação evangélica aponta para a vigilância e o equilíbrio, jamais para a exaltação dos prazeres intoxicantes.
Sob a ótica espírita, o alcoolismo não é apenas enfermidade física ou psicológica: é também processo de grave comprometimento espiritual. Divaldo Pereira Franco, pela psicografia de Victor Hugo, afirma que a obsessão através do alcoolismo é muito mais ampla do que aparenta, tornando o indivíduo instrumento de forças perturbadoras. O vício corrói lentamente à vontade, enfraquece os mecanismos de defesa moral e abre campo às influências espirituais inferiores.
Entretanto, ainda há quem tente justificar “pequenas concessões” com argumentos frágeis: “todo mundo bebe”, “socialmente não faz mal”, “uma taça faz bem ao coração”. Tal retórica permissiva apenas mascara uma tragédia coletiva. O primeiro gole raramente permanece sozinho. Quase toda dependência começou um dia sob o pretexto inocente do “só hoje” ou “só um pouquinho”.
Joanna de Ângelis adverte que não devemos nos comprometer com o hábito da bebida sob qualquer pretexto festivo ou social. Pequenas permissividades constroem grandes escravidões. Uma gota de veneno pode bastar para desencadear consequências irreversíveis.
O quadro torna-se ainda mais alarmante entre adolescentes. Especialistas apontam que o álcool funciona frequentemente como porta de entrada para drogas mais destrutivas. O estímulo familiar e cultural ao consumo precoce tem reduzido drasticamente a idade de iniciação alcoólica. Jovens de 12 ou 13 anos já apresentam padrões de abuso outrora observados apenas em adultos. A banalização da bebida cria uma geração emocionalmente fragilizada, vulnerável à violência, aos acidentes e às dependências químicas severas.
No Brasil, o alcoolismo permanece como grave questão de saúde pública. Hospitais, clínicas psiquiátricas, delegacias e cemitérios testemunham diariamente os efeitos da embriaguez. Violência doméstica, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e desestruturação familiar possuem frequentemente o álcool como agente silencioso.
Infelizmente, alguns adeptos espíritas adotam perigosa incoerência: defendem a disciplina moral no discurso, mas relativizam os próprios hábitos. Criam um “espiritismo de conveniência”, no qual os princípios doutrinários servem para os outros, jamais para si mesmos. Esquecem que nem tudo o que é comum na sociedade é moralmente saudável.
A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em possuir domínio sobre si mesmo. Allan Kardec recorda, em O Evangelho segundo o Espiritismo, ensinamento ditado por Hahnemann: “o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso”. A renovação moral exige disciplina, vigilância e coragem para romper hábitos nocivos.
Num mundo marcado pelo culto aos excessos, resistir ao alcoolismo é ato de lucidez espiritual. Quem preserva a própria consciência dos entorpecentes protege não apenas o corpo, mas também a dignidade da alma.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2000.
FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: Alvorada, 1979.
FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1983.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Provérbios 20:1; Lucas 1:15.
JORNAL MUNDO ESPÍRITA. Editorial. Federação Espírita do Paraná, jul. 2002.
REVISTA ÉPOCA. Consumo precoce de álcool preocupa especialistas. Rio de Janeiro, 29 jul. 2002.
