20 maio 2026

Lacração? Kardec não é porta-voz de agendas ideológicas pessoais



Jorge Hessen

Brasília -DF

 Com a polarização política, o termo Lacração foi apropriado por grupos “conservadores”. Hoje, é amplamente utilizado de forma pejorativa, principalmente nas redes sociais e na crítica cultural, para deslegitimar obras de arte, filmes ou discursos focados em diversidade, acusando-os de impor agendas políticas de forma forçada.

Trazendo o tema para as hostes espiritas e apropriando-nos do termo, percebemos com certa frequência os chamados “lacradores” da interpretação espírita, que tentam aprisionar o pensamento de Allan Kardec em categorias ideológicas estreitas, como “conservador”, “liberal”, “progressista”, “reacionário” ou quaisquer outros rótulos humanos e transitórios. Entretanto, a obra kardequiana ultrapassa essas reduções simplistas.

O pensamento de Kardec é profundamente racional, mas igualmente moral e amoroso. Ele jamais construiu um sistema de fanatismo político, nem um mecanismo de dominação ideológica. Seu compromisso foi com a verdade, com a lógica, com a observação dos fatos e, sobretudo, com a transformação moral do ser humano.

Quando Kardec defende a prudência, a disciplina moral e a responsabilidade espiritual, alguns o chamam de conservador. Quando combate privilégios, preconceitos, castas e desigualdades, outros o classificam como liberal ou progressista. Todavia, Kardec não pertence a nenhuma trincheira humana. Seu pensamento é supraideológico, porque se fundamenta nas leis espirituais, que transcendem as paixões políticas e culturais de cada época.

A Doutrina Espírita não foi criada para servir de plataforma de militância emocional, nem para satisfazer vaidades intelectuais ou disputas de poder dentro do movimento espírita. O Espiritismo é, antes de tudo, um convite à renovação íntima, à fraternidade e à emancipação da consciência.

O problema dos “lacradores” modernos é que frequentemente substituem o estudo sério pela teatralização das opiniões. Em vez de investigarem profundamente O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo ou A Gênese, preferem adaptar a Doutrina às modas culturais do momento, tentando fazer de Kardec um porta-voz das próprias agendas pessoais.

Entretanto, Kardec foi um homem de equilíbrio admirável. Defendia a liberdade de consciência, mas repudiava os excessos da intolerância. Incentivava o progresso, mas advertia contra os perigos do orgulho intelectual. Exaltava a razão, mas nunca divorciada do amor e da humildade.

O verdadeiro espírita não deve cair nem no dogmatismo endurecido nem no emocionalismo superficial. O Espiritismo pede reflexão madura, estudo contínuo e caridade real. Reduzir Kardec a um “rótulo ideológico” é reduzir a universalidade da Doutrina Espírita.

Como ensinava Allan Kardec, “fora da caridade não há salvação”. Essa máxima não é de direita nem de esquerda; não é conservadora nem progressista. É uma lei espiritual destinada à evolução de toda a humanidade.