05 maio 2026

A desigualdade das riquezas não se equacionará com a infausta "vermelhidão" ideológica


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Na questão 806 do Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos é inequívoca: a desigualdade das riquezas decorre da diversidade de faculdades, esforços e graus evolutivos. Não se trata de legitimar abusos, Kardec denuncia a exploração e a usura em vários trechos, mas de rejeitar a narrativa simplista de que toda diferença material é, por definição, uma injustiça estrutural a ser eliminada por engenharia social. Essa leitura é reducionista porque ignora o eixo central da doutrina: a primazia da lei moral sobre qualquer arranjo econômico.

materialismo histórico "avermelhado" do ocioso Karl Marx aposta na inversão dessa ordem: transformam-se as condições materiais e, como consequência, surgiria um “novo homem”. O Espiritismo afirma exatamente o contrário, e aqui está o ponto de ruptura incontornável: sem reforma íntima, qualquer sistema será capturado pelos mesmos vícios que pretende erradicar. Egoísmo não desaparece por decreto; apenas muda de forma e de discurso.

A experiência histórica confirma esse diagnóstico. Projetos de nivelamento forçado não aboliram a desigualdade; deslocaram-na. Onde se prometeu igualdade material, frequentemente emergiram castas burocráticas com poder concentrado, substituindo a desigualdade econômica por desigualdade política. Não é um desvio acidental, é a consequência lógica de tentar corrigir efeitos sem tocar a causa moral.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVI, Kardec é ainda mais incisivo: a riqueza é prova, não privilégio. Ela testa o indivíduo quanto ao uso que faz dos recursos sob sua guarda. Isso desmonta dois extremos: o culto capitalista da acumulação e a demonização ideológica da propriedade. O problema não é possuir, mas a forma de possuir e, sobretudo, de empregar. O Espiritismo não absolve o rico irresponsável, mas também não canoniza a pobreza como virtude automática; ambas são condições de prova.

Autores como Emmanuel reforçam que a fortuna é empréstimo divino para a prática do bem; já Léon Denis adverte que nenhuma reforma social subsiste sem educação moral. Essas posições não são “moderadas”; são estruturalmente mais exigentes. Elas recusam a comodidade intelectual de culpar exclusivamente o sistema e transferem a responsabilidade ao indivíduo, sem, por isso, isentar a sociedade de promover justiça e oportunidades.

O erro central das teses marxistas, sob a ótica espírita, está no brutal reducionismo antropológico: tratam o homem como produto quase exclusivo das condições materiais. Ora, se o homem não muda moralmente, ele instrumentaliza qualquer sistema, capitalista, socialista ou outro, para reproduzir seus interesses. A economia comportamental contemporânea, ao evidenciar vieses como aversão à perda, preferência temporal e reciprocidade condicionada, apenas reforça o que o Espiritismo já afirmava: decisões econômicas são inseparáveis de disposições morais e psicológicas.

Isso não significa complacência com a miséria. Ao contrário, o Espiritismo impõe um dever rigoroso de justiça e caridade , não como retórica, mas como prática transformadora. A diferença é que essa ação não se ancora na ilusão de que a redistribuição coercitiva resolverá o problema humano. Sem ética, a redistribuição pode apenas reconfigurar privilégios.

Um artigo espírita verdadeiramente incisivo, portanto, não “equilibra” artificialmente posições para agradar sensibilidades ideológicas. Ele afirma, com clareza: a desigualdade das riquezas, em um mundo imperfeito, é também expressão de desigualdades morais. Combatê-la exige transformação interior, responsabilidade no uso dos bens e estruturas sociais mais justas, mas jamais a ingenuidade de supor que sistemas materiais "avermelhados" demais, por siregenerem consciências. Ignorar isso não é apenas erro teórico; é repetir, com nova linguagem, velhas ilusões.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.