Jorge Hessen
Brasília -DF
Há momentos da história em que a sociedade experimenta uma sensação coletiva de inquietação moral. Instituições que deveriam inspirar confiança passam a ser vistas com desconfiança; decisões públicas despertam perplexidade; cidadãos sentem receio de expressar opiniões; e o debate democrático, em vez de promover entendimento, converte-se frequentemente em hostilidade, patrulhamento ideológico e intolerância.
Muitos brasileiros têm relatado um sentimento de medo diante do ambiente político e jurídico atual. Seria ingenuidade ignorar essa percepção social. Em diversos setores da população existe a impressão de que a liberdade de pensamento encontra-se pressionada, que determinadas vozes são silenciadas e que o contraditório vem sendo enfraquecido.
Há quem utilize expressões como “mordaça” ou “tirania” para descrever esse cenário. Ainda que tais termos carreguem forte carga emocional, revelam uma angústia legítima que não pode ser simplesmente ridicularizada ou descartada.
Sob a ótica espírita, entretanto, toda análise da realidade deve ser acompanhada de discernimento, equilíbrio e responsabilidade moral. A denúncia ética não deve degenerar em ódio. A crítica às instituições é importante, sem converter em incentivo ao caos. A indignação diante dos abusos não propõe a desumanização daqueles que pensam diferente.
O Espiritismo ensina que as instituições humanas refletem o nível moral médio da sociedade que as constitui. Quando há deterioração ética nos poderes públicos, nos meios de comunicação, nas lideranças religiosas ou na própria convivência social, isso revela antes de tudo uma enfermidade espiritual coletiva. Não existem estruturas perfeitas administradas por Espíritos imperfeitos. A crise das instituições é, em grande parte, a crise moral do próprio homem.
Allan Kardec advertia que o verdadeiro progresso não é apenas intelectual ou tecnológico, mas sobretudo moral. Uma sociedade pode possuir tribunais sofisticados, parlamentos modernos e enorme aparato jurídico, mas ainda assim adoecer espiritualmente se faltar justiça equilibrada, respeito às liberdades fundamentais e compromisso sincero com a verdade.
É importante compreender também que o medo social constitui poderoso instrumento de degradação coletiva. Povos amedrontados tornam-se emocionalmente vulneráveis. O medo paralisa consciências, empobrece o diálogo e cria ambientes onde muitos passam a preferir o silêncio à livre manifestação de pensamento. O Espírito cristão, porém, não se orienta pelo medo, mas pela consciência reta.
Isso não significa estimular rebeldia irresponsável nem fomentar rupturas institucionais. O caminho espírita jamais será o da violência moral ou material. Jesus não convocou multidões para destruir Roma, embora vivesse sob um sistema frequentemente injusto. Ele transformou consciências. Seu método foi a verdade sem ódio, a firmeza sem brutalidade, a coragem sem fanatismo.
O copo está cheio. Qual será a gota d'água? Precisamos sim defender princípios de liberdade sem perder a serenidade. É possível denunciar abusos sem cair em extremismos. É urgente apontar desequilíbrios sem transformar perseguidores em inimigos absolutos. Pois é possível lutar pela liberdade sem promover maior convulsão social.
Quando a sociedade adoece de polarização ideológica, muitos passam a enxergar apenas dois grupos: “os totalmente bons” e “os totalmente maus”. Essa simplificação emocional é perigosa. O pensamento espírita rejeita idolatrias políticas e também demonizações coletivas. Nenhuma instituição humana está imune a erros, excessos ou desvios; contudo, nenhuma regeneração social nascerá da destruição do respeito mútuo.
Vivemos tempos em que muitos cidadãos sentem receio de falar, escrever ou opinar. Essa sensação precisa ser debatida com maturidade democrática e lucidez espiritual. A liberdade responsável de consciência e expressão é patrimônio essencial da civilização. Quando pessoas passam a esconder convicções por temor de perseguições sociais, profissionais ou jurídicas, isso merece com certeza profunda reflexão nacional.
Mas o espírita sincero não se entrega ao desespero histórico. A História humana sempre atravessou ciclos de sombra e renovação. Crises institucionais passam; ditadores e ditaduras desaparecem; sistemas políticos se transformam; contudo, a lei divina permanece conduzindo a humanidade, lentamente, ao progresso moral.
Cabe-nos, portanto, agir com consciência elevada, sem fanatismo , sem submissão cega, sem culto a salvadores da pátria, sem ódio político, sem covardia moral. A verdadeira resistência espírita cristã não é feita de gritos histéricos nem de violência verbal incessante. Ela nasce da fidelidade à verdade, da coragem pacífica, da honestidade intelectual e da recusa em aderir à mentira, venha ela de onde vier.
Mais do que nunca, o Brasil necessita de cidadãos espiritualmente amadurecidos, capazes de discordar sem destruir, denunciar sem odiar e defender a liberdade sem abandonar a fraternidade. Porque toda vez que o homem perde a capacidade de dialogar com respeito, a sociedade inteira começa a adoecer moralmente e a convulsão social se instala de vez.

