25 maio 2026

A reencarnação e o fascínio pelas inumadas “glórias” pretéritas

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

Sabemos de alguns confrades convencidos de terem sido reis, generais, sacerdotes famosos, artistas célebres ou figuras de destaque na História. Em um peculiar desfile de coroas imaginárias, espadas simbólicas e títulos honoríficos, sempre alimentados pela vaidade espiritual.

Tal comportamento revela grave incompreensão da finalidade educativa da reencarnação. A Doutrina Espírita jamais estimulou a curiosidade fútil acerca de vidas passadas, mas sim o aproveitamento consciente da existência atual para a transformação moral do Espírito. O problema não está propriamente na possibilidade de alguém ter ocupado posição relevante em outra encarnação, mas no uso psicológico e moral que se faz dessa hipótese.

Muitos desses confrades perdem precioso tempo em comparações estéreis, buscando sinais externos que confirmem antigas grandezas. Investigam traços físicos, afinidades culturais, simpatias históricas ou vagas impressões emocionais, tentando encaixar-se em personagens famosos. Enquanto isso, negligenciam a questão essencial: quem são hoje perante a consciência, perante a vida e perante Deus?

O Espiritismo ensina que o esquecimento temporário do passado constitui bênção providencial. Allan Kardec esclarece que o véu lançado sobre as existências anteriores protege o Espírito contra o orgulho, o remorso excessivo e os desequilíbrios emocionais (KARDEC, 2019). Quando a espiritualidade superior permite que certas recordações aflorem, isso ocorre em circunstâncias excepcionais e com finalidade reeducativa, jamais para alimentar fantasias narcisistas.

Há, inclusive, um aspecto frequentemente ignorado por esses entusiastas das sepultadas glórias antigas: se determinados Espíritos outrora prestigiosos retornaram anonimamente à Terra, é porque fracassaram moralmente diante das responsabilidades recebidas. Muitas figuras célebres caíram justamente pelo orgulho, pela ambição desmedida, pela sede de poder ou pelo abuso das oportunidades que a Providência lhes concedera.

Nessa perspectiva, eventual confirmação de identidade histórica não constitui medalha espiritual, mas advertência grave da consciência. Trata-se de convocação à reparação urgente. O Espírito verdadeiramente lúcido não se envaidece pelo que foi; preocupa-se profundamente com aquilo que ainda não conseguiu ser.

O Codificador advertia que “o verdadeiro espírita reconhece-se pela transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2018, p. 350). A frase desmonta inúmeras fantasias espiritualistas contemporâneas. Não importa ter sido príncipe, guerreiro ou sacerdote em séculos remotos; importa vencer hoje o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença moral.

Também Emmanuel frequentemente destacou, por intermédio de Chico Xavier, que posições elevadas no mundo costumam representar provas muito mais perigosas do que privilégios espirituais. Nas altas esferas sociais enxameiam tentações difíceis: corrupção moral, fascinação do poder, culto da personalidade, vaidade intelectual, traições, abusos e graves responsabilidades perante multidões.

Isso não significa desprezo pela arte, pela cultura, pela liderança ou pelas atividades humanas de relevo social. A civilização necessita de educadores, artistas, cientistas, administradores e governantes. Todos são aprendizes da vida. Contudo, a grandeza legítima nunca se mede pelo brilho exterior das posições ocupadas, mas pela capacidade de servir com humildade e consciência reta.

Infelizmente, parte do movimento espírita contemporâneo vem sendo contaminada por uma espécie de aristocracia invisível das existências passadas. Alguns parecem desejar distinção espiritual por antigos nomes que supostamente carregaram, quando deveriam buscar autenticidade moral no presente. A vaidade muda apenas de roupa: antes ostentava títulos terrenos; agora exibe pretensas genealogias espirituais.

A verdadeira evolução não necessita de anúncios históricos. Espíritos superiores raramente falam de si mesmos. Quanto mais elevados, mais discretos. A luz genuína não grita. Irradia.

Enquanto muitos procuram saber “quem foram”, esquecem-se da pergunta decisiva: “quem estão se tornando?”. Eis o ponto central. O passado pode até oferecer lições; entretanto, a reencarnação não foi concedida para alimentar nostalgias de grandeza, mas para construir consciência, humildade e renovação interior.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 132. ed. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos Espíritos. Brasília: FEB, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2017.