Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Sabemos de alguns
confrades convencidos de terem sido reis, generais, sacerdotes famosos,
artistas célebres ou figuras de destaque na História. Em um peculiar desfile de
coroas imaginárias, espadas simbólicas e títulos honoríficos, sempre
alimentados pela vaidade espiritual.
Tal
comportamento revela grave incompreensão da finalidade educativa da
reencarnação. A Doutrina Espírita jamais estimulou a curiosidade fútil acerca de
vidas passadas, mas sim o aproveitamento consciente da existência atual para a
transformação moral do Espírito. O problema não está propriamente na
possibilidade de alguém ter ocupado posição relevante em outra encarnação, mas
no uso psicológico e moral que se faz dessa hipótese.
Muitos
desses confrades perdem precioso tempo em comparações estéreis, buscando sinais
externos que confirmem antigas grandezas. Investigam traços físicos, afinidades
culturais, simpatias históricas ou vagas impressões emocionais, tentando
encaixar-se em personagens famosos. Enquanto isso, negligenciam a questão
essencial: quem são hoje perante a consciência, perante a vida e perante
Deus?
O
Espiritismo ensina que o esquecimento temporário do passado constitui bênção
providencial. Allan Kardec esclarece que o véu lançado sobre as existências
anteriores protege o Espírito contra o orgulho, o remorso excessivo e os
desequilíbrios emocionais (KARDEC, 2019). Quando a espiritualidade superior
permite que certas recordações aflorem, isso ocorre em circunstâncias
excepcionais e com finalidade reeducativa, jamais para alimentar fantasias
narcisistas.
Há,
inclusive, um aspecto frequentemente ignorado por esses entusiastas das sepultadas
glórias antigas: se determinados Espíritos outrora prestigiosos retornaram
anonimamente à Terra, é porque fracassaram moralmente diante das
responsabilidades recebidas. Muitas figuras célebres caíram justamente pelo
orgulho, pela ambição desmedida, pela sede de poder ou pelo abuso das
oportunidades que a Providência lhes concedera.
Nessa
perspectiva, eventual confirmação de identidade histórica não constitui medalha
espiritual, mas advertência grave da consciência. Trata-se de convocação à
reparação urgente. O Espírito verdadeiramente lúcido não se envaidece pelo que
foi; preocupa-se profundamente com aquilo que ainda não conseguiu ser.
O
Codificador advertia que “o verdadeiro espírita reconhece-se pela
transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações”
(KARDEC, 2018, p. 350). A frase desmonta inúmeras fantasias espiritualistas
contemporâneas. Não importa ter sido príncipe, guerreiro ou sacerdote em
séculos remotos; importa vencer hoje o egoísmo, a intolerância, a vaidade e
a indiferença moral.
Também Emmanuel
frequentemente destacou, por intermédio de Chico Xavier, que posições elevadas
no mundo costumam representar provas muito mais perigosas do que privilégios
espirituais. Nas altas esferas sociais enxameiam tentações difíceis: corrupção
moral, fascinação do poder, culto da personalidade, vaidade intelectual, traições,
abusos e graves responsabilidades perante multidões.
Isso não
significa desprezo pela arte, pela cultura, pela liderança ou pelas atividades
humanas de relevo social. A civilização necessita de educadores, artistas,
cientistas, administradores e governantes. Todos são aprendizes da vida.
Contudo, a grandeza legítima nunca se mede pelo brilho exterior das posições
ocupadas, mas pela capacidade de servir com humildade e consciência reta.
Infelizmente,
parte do movimento espírita contemporâneo vem sendo contaminada por uma espécie
de aristocracia invisível das existências passadas. Alguns parecem desejar
distinção espiritual por antigos nomes que supostamente carregaram, quando deveriam
buscar autenticidade moral no presente. A vaidade muda apenas de roupa:
antes ostentava títulos terrenos; agora exibe pretensas genealogias
espirituais.
A
verdadeira evolução não necessita de anúncios históricos. Espíritos superiores
raramente falam de si mesmos. Quanto mais elevados, mais discretos. A luz
genuína não grita. Irradia.
Enquanto
muitos procuram saber “quem foram”, esquecem-se da pergunta decisiva: “quem
estão se tornando?”. Eis o ponto central. O passado pode até oferecer
lições; entretanto, a reencarnação não foi concedida para alimentar nostalgias
de grandeza, mas para construir consciência, humildade e renovação interior.
Referências Bibliográficas:
KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 132. ed. Brasília: FEB, 2018.
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
XAVIER,
Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos Espíritos.
Brasília: FEB, 2016.
XAVIER,
Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB,
2017.

