Jorge Hessen
Brasília -DF
A crescente difusão de ideias alucinadas que defendem a prática mediúnica no ambiente doméstico, de forma livre e desassistida, revela não apenas um pseudoconhecimento doutrinário, mas grave imprudência moral. Em face disso faço aqui um alerta contra a banalização da mediunidade.
Sob o pretexto de “naturalizar” a mediunidade, certos discursos contemporâneos a reduzem a uma atividade doméstica comum, desconsiderando as advertências firmes da Codificação Espírita e das obras subsidiárias. Trata-se de um desvio perigoso e, do ponto de vista doutrinário, injustificável.
Desde Allan Kardec, a mediunidade é apresentada não como faculdade a ser exercida ao sabor da vontade, mas como instrumento delicado que exige disciplina, estudo e elevação moral. Em O Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao advertir:
“A prática do Espiritismo é cercada de dificuldades e nem sempre isenta de inconvenientes que só um estudo sério e completo pode prevenir.” (KARDEC, 2013, cap. III, item 18)
Tal afirmação desmonta, por si só, a tese de que a mediunidade possa ser exercida de maneira informal no seio familiar. Não se trata de mera recomendação prudencial, mas de um princípio estruturante: sem preparo, há risco real de desequilíbrio.
O ambiente doméstico, por sua natureza afetiva e dinâmica, raramente (quase nunca) oferece as condições psíquicas e morais necessárias para o intercâmbio seguro com o plano espiritual. A ausência de direção experiente, de harmonização adequada e de amparo espiritual organizado expõe os participantes a fenômenos de mistificação, fascinação e, sobretudo, obsessão.
Nesse sentido, Léon Denis reforça o caráter grave da questão ao afirmar: “O Espiritismo experimental exige condições especiais, tanto do ponto de vista moral quanto do ambiente.” (DENIS, 2005, p. 312)
Não há, portanto, espaço para improvisação. A mediunidade não se submete à lógica da espontaneidade doméstica, mas à disciplina de um campo de trabalho espiritual que exige responsabilidade coletiva.
As obras de Emmanuel e André Luiz aprofundam ainda mais essa compreensão. Ao descreverem os bastidores espirituais das reuniões mediúnicas, evidenciam a presença de equipes organizadas, planejamento prévio e rigoroso controle vibratório , elementos completamente ausentes em reuniões familiares improvisadas.
Em Nosso Lar, observa-se que o intercâmbio mediúnico sério não ocorre ao acaso, mas sob supervisão criteriosa do plano espiritual, o que exige, no plano material, ambientes preparados e trabalhadores comprometidos. A mediunidade, portanto, não é expressão de informalidade, de banalidade, mas de serviço disciplinado.
Importa distinguir, com clareza, o que frequentemente é confundido: a prática mediúnica não se confunde com o Evangelho no lar. Este, sim, é recomendado amplamente como prática salutar de harmonização espiritual da família. Já a mediunidade exige educação específica e campo apropriado. Misturar ambos é erro conceitual gravíssimo.
A banalização da mediunidade no ambiente doméstico produz consequências sérias. Ao abrir campo indiscriminado para comunicações espirituais sem preparo, cria-se ambiente propício à interferência de espíritos levianos ou perturbadores (ALGUÉM DUVIDA DISSO?). A falta de conhecimento doutrinário ou do pseudoconhecimento (“kardequiólogos PhDs meia tigela”) impede o discernimento necessário para identificar a natureza dessas comunicações, conduzindo facilmente ao autoengano e à fascinação.
É preciso afirmar com clareza: não existe respaldo na Doutrina Espírita para a prática mediúnica livre, doméstica e desassistida. O que existe são advertências reiteradas quanto aos perigos dessa conduta.
Conclui-se, portanto, que a mediunidade deve ser educada com base no estudo sistemático e exercida SIM!!.... Em ambiente doutrinário sério; conduzida sob orientação experiente e integrada a um propósito moral elevado.
Fora desses parâmetros, deixa de ser instrumento de despertamento consciencial para tornar-se foco de desequilíbrio. A responsabilidade, nesse campo, não admite improvisações. A mediunidade é tarefa abençoada e, como tal, exige respeito, preparo e disciplina. Tudo o que se afasta disso não é liberdade doutrinária, mas imprudência travestida de pseudosabedoria (“kardequiólogos PhDs meia-boca”).
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.
DENIS, Léon. No Invisível. 5. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. 60. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2019.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.

