Jorge Hessen
Brasília -DF
A expansão contemporânea da tatuagem e do piercing impõe uma
reflexão que ultrapassa o campo estético. Não se trata de moralismo
superficial, mas de responsabilidade integral diante do corpo e da vida alheia.
A legislação sanitária brasileira estabelece inaptidão temporária de 12 meses
para doação de sangue após tatuagens ou piercings, considerando o risco de
transmissão de agentes infecciosos. Tal medida não é arbitrária: decorre de
evidências médicas que associam esses procedimentos à possibilidade de
contaminação por hepatites virais, HIV e infecções bacterianas, sobretudo
quando não realizados sob rigor técnico.
A tatuagem consiste na introdução de pigmentos insolúveis na
derme por meio de múltiplas perfurações — até centenas por segundo —, o que,
por si, já configura uma agressão controlada ao tecido corporal. Ainda que
existam estúdios sérios e profissionais habilitados, o risco jamais é
absolutamente nulo. A prudência, portanto, não é conservadorismo: é
inteligência aplicada à preservação da saúde.
Contudo, reduzir o debate à dimensão biológica seria
insuficiente. À luz da Doutrina Espírita, a questão central não reside na tinta
sob a pele, mas nas intenções que movem o indivíduo. Uma tatuagem não define o
caráter; não torna alguém virtuoso nem vicioso. O Espiritismo não legisla sobre
adornos corporais, tampouco estabelece proibições formais. Antes, convida ao
discernimento: “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”.
O corpo físico, ensina Allan Kardec, é instrumento sagrado
de evolução, concedido como empréstimo divino para as experiências
reencarnatórias. Qualquer intervenção sobre ele deve ser ponderada à luz da
necessidade, da utilidade e da responsabilidade. Quando a modificação corporal
nasce do impulso irrefletido, da vaidade exacerbada ou da necessidade de
afirmação externa, pode revelar desalinhamentos íntimos que pedem análise mais
profunda.
Sob o enfoque espiritual, o corpo está interligado ao
perispírito, matriz sutil que registra impressões e experiências. Lesões
voluntárias, ainda que socialmente aceitas, podem repercutir nesse envoltório
energético, sobretudo quando associadas a estados mentais desequilibrados. Não
se trata de condenação, mas de consequência natural das leis que regem a vida.
Por outro lado, o julgamento apressado do próximo constitui
falha igualmente grave. Ninguém penetra a consciência alheia para avaliar suas
motivações reais. O Espiritismo é claro ao afirmar que cada Espírito responde
por seus atos segundo o grau de conhecimento que possui. Cabe-nos orientar,
jamais condenar.
Assim, entre a liberdade individual e a responsabilidade
moral, impõe-se o equilíbrio. A escolha é pessoal, mas os efeitos são
inevitavelmente coletivos e espirituais. A verdadeira maturidade não está em
fazer tudo o que se deseja, mas em discernir o que convém fazer. Pensar antes
de agir continua sendo a mais elevada forma de respeito à própria vida e à vida
do outro.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon
Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de
Janeiro: FEB, 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de hemoterapia e
critérios para doação de sangue. Brasília: MS, 2020.

