21 maio 2026

Assistencialismo ou “repasses” de coisas como cajado psicológico?




 Jorge Hessen

Brasília DF

 

Insisto no tema por observar “fazedores” de coisas para os vulneráveis econômicos sem esforço de mudança de caráter. Há quem transforme o ato de dar, de oferecer algo a quem tem menos, numa espécie de encosto interno — uma verdadeira muleta psicológica para se sustentar diante de si mesmo.

Para essas pessoas, a doação não nasce de um impulso genuíno de auxiliar, mas sim da necessidade de preencher vazios, aliviar culpas ou construir uma imagem proeminente de si mesmas.

E há uma razão profunda para isso: quem é amargo consigo mesmo, que carrega ressentimentos, insatisfação e dureza com a própria existência, não é capaz de viver um conforto íntimo e verdadeiro ao doar.

Por mais que entreguem bens transitórios, alimentos ou recursos, o gesto permanece frio, desprovido daquela ligação humana que torna o auxílio algo significativo. A amargura que habita dentro deles não deixa espaço para a generosidade sincera; a doação se torna apenas um ato mecânico, uma forma de tentar compensar o que lhes falta por dentro, sem nunca conseguir sentir a paz ou a satisfação que vem de um coração realmente disposto a compartilhar.

No fundo, a verdadeira solidariedade só floresce quando a pessoa está em paz consigo mesma. Quem não consegue ser gentil com o próprio ser também não consegue dar algo que tenha valor real ao próximo — pois o que se doa reflete sempre o que se tem dentro de si.

Há ainda um sinal bastante sutil: aqueles excessivamente vinculados à “fazeção de coisas” costumam revelar pouca tolerância diante das imperfeições alheias, exatamente o contrário da visão kardeciana de caridade, que exige indulgência e benevolência. Assim, o ativismo pode tanto servir de mecanismo de fuga quanto de valiosa escola evolutiva — tudo dependerá do grau de consciência e maturidade espiritual de quem realiza a ação.

Sempre digo que o ponto essencial não está simplesmente em “fazer” ou “deixar de fazer”, mas na intenção e na consciência com que se age no assistencialismo. Quando a ação produz humildade, ela se converte em instrumento de educação do espírito. Contudo, quando alimenta a prepotência , acaba apenas fortalecendo a sombra do ego.

Da mesma forma, evitar conflitos íntimos pode representar mera fuga da realidade interior; porém, se a experiência assistencialista  amplia a capacidade de compreender, servir e amar, então estamos diante da verdadeira caridade.