Jorge Hessen
Brasília -DF
A crescente
profissionalização de determinados eventos “espíritas” exige reflexão séria e
corajosa por parte do Movimento Espírita brasileiro. Multiplicam-se congressos
grandiosos, seminários caros, encontros elitizados e atividades doutrinárias
cercadas de forte aparato comercial e personalista, enquanto o ideal de
simplicidade ensinado por Jesus e defendido por Allan Kardec vai sendo gradativamente
relegado a plano secundário.
A discussão não é nova.
Em fevereiro de 1994, o Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do
Paraná analisou a crescente prática de cobrança de taxas de inscrição em
eventos espíritas. O documento elaborado à época demonstrou rara lucidez ao
reconhecer que determinadas promoções poderiam exigir custos inevitáveis com
alimentação, hospedagem ou infraestrutura. Entretanto, estabeleceu princípio
moral inegociável: a cobrança jamais poderia transformar-se em obstáculo ao
acesso à mensagem espírita nem converter a divulgação doutrinária em mecanismo
de arrecadação financeira.
Essa advertência
permanece profundamente atual. Em muitos
casos, os chamados “congressões espíritas” passaram a reproduzir métodos
típicos do mercado religioso contemporâneo. Repetem-se as mesmas “figurinhas
carimbadas”, escolhidas não necessariamente pela profundidade doutrinária,
mas pelo poder de atração de público.
Criou-se uma espécie de
celebrização de palestrantes, em que determinados nomes ungidos
funcionam como marcas comerciais capazes de garantir auditórios lotados, venda
de livros e sustentabilidade financeira dos eventos. A consequência inevitável
é a espetacularização da fé.
Substitui-se o estudo
sério pela emoção superficial; a reflexão doutrinária pela performance; a
simplicidade evangélica pela grandiosidade institucional. Muitos encontros
acabam mais próximos de feiras religiosas do que propriamente de ambientes de
estudo espírita.
Não se trata de negar a
necessidade material das instituições. Auditórios possuem custos. Equipamentos
demandam manutenção. Eventos exigem organização. Todavia, o problema começa
quando a lógica financeira passa a determinar a própria dinâmica doutrinária.
O documento da Federação
Espírita do Paraná foi extremamente feliz ao afirmar que “os fins não
justificam os meios”. Tal orientação possui enorme profundidade ética. Em
nome da arrecadação, alguns grupos espíritas passaram a tolerar práticas
incompatíveis com os princípios da Codificação, como excessiva
comercialização de produtos, apelos mercadológicos e verdadeira
profissionalização das atividades religiosas.
O Espiritismo jamais foi
concebido como produto de consumo. Jesus Cristo ensinou: “Dai gratuitamente o
que gratuitamente recebestes”. Kardec, por sua vez, sempre demonstrou
preocupação com qualquer tentativa de exploração material da Doutrina Espírita.
O caráter moral e educativo do Espiritismo exige coerência entre finalidade e
método.
Além disso, há grave
consequência sociológica nesse modelo de megaeventos: a elitização do acesso
ao conhecimento espírita. Muitos confrades humildes não conseguem
participar de congressos devido aos altos valores cobrados. Cria-se, assim, uma
divisão silenciosa entre os que podem consumir determinados espaços
doutrinários e aqueles que permanecem excluídos deles.
Paradoxalmente, uma
doutrina fundada sobre fraternidade e universalidade corre o risco de adotar
critérios semelhantes aos do mercado capitalista religioso.
Outro aspecto preocupante
é o personalismo crescente. O Movimento Espírita corre sério perigo
quando determinadas lideranças “santificadas” passam a concentrar
excessiva visibilidade, transformando-se em referências quase intocáveis. O
foco deixa de ser a mensagem espírita para recair sobre a figura do “ungido”
expositor. Onde há culto à personalidade, inevitavelmente surgem distorções
doutrinárias, fascinação e dependência emocional.
O verdadeiro centro do
Movimento Espírita deve continuar sendo o estudo da obra kardequiana e a
vivência do Evangelho, jamais o brilho de estruturas grandiosas ou a
popularidade de expositores. Até porque a autenticidade espírita não se mede
pelo tamanho dos auditórios, pela sofisticação dos eventos ou pelo volume
arrecadado, mas pela fidelidade aos princípios morais do Cristo.
O Espiritismo necessita
urgentemente recuperar a simplicidade. Menos espetáculo. Menos marketing
religioso. Menos comércio da fé. Mais estudo, fraternidade e coerência
evangélica.
Referências Bibliográficas:
O Livro dos Médiuns.
Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
Obras Póstumas. Rio de
Janeiro: FEB, 2018.
Conduta Espírita.
Psicografia de Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2017.
Estude e Viva.
Psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2016.
Federação Espírita do
Paraná. Conselho Federativo Estadual. Diretrizes sobre eventos doutrinários e
captação de recursos. Curitiba, 1994.

