19 maio 2026

Congressos “espíritas” palestrantes “ungidos” e a vil mercantilização da fé





Jorge Hessen

Brasília -DF

A crescente profissionalização de determinados eventos “espíritas” exige reflexão séria e corajosa por parte do Movimento Espírita brasileiro. Multiplicam-se congressos grandiosos, seminários caros, encontros elitizados e atividades doutrinárias cercadas de forte aparato comercial e personalista, enquanto o ideal de simplicidade ensinado por Jesus e defendido por Allan Kardec vai sendo gradativamente relegado a plano secundário.

A discussão não é nova. Em fevereiro de 1994, o Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do Paraná analisou a crescente prática de cobrança de taxas de inscrição em eventos espíritas. O documento elaborado à época demonstrou rara lucidez ao reconhecer que determinadas promoções poderiam exigir custos inevitáveis com alimentação, hospedagem ou infraestrutura. Entretanto, estabeleceu princípio moral inegociável: a cobrança jamais poderia transformar-se em obstáculo ao acesso à mensagem espírita nem converter a divulgação doutrinária em mecanismo de arrecadação financeira.

Essa advertência permanece profundamente atual.  Em muitos casos, os chamados “congressões espíritas” passaram a reproduzir métodos típicos do mercado religioso contemporâneo. Repetem-se as mesmas “figurinhas carimbadas”, escolhidas não necessariamente pela profundidade doutrinária, mas pelo poder de atração de público.

Criou-se uma espécie de celebrização de palestrantes, em que determinados nomes ungidos funcionam como marcas comerciais capazes de garantir auditórios lotados, venda de livros e sustentabilidade financeira dos eventos. A consequência inevitável é a espetacularização da fé.

Substitui-se o estudo sério pela emoção superficial; a reflexão doutrinária pela performance; a simplicidade evangélica pela grandiosidade institucional. Muitos encontros acabam mais próximos de feiras religiosas do que propriamente de ambientes de estudo espírita.

Não se trata de negar a necessidade material das instituições. Auditórios possuem custos. Equipamentos demandam manutenção. Eventos exigem organização. Todavia, o problema começa quando a lógica financeira passa a determinar a própria dinâmica doutrinária.

O documento da Federação Espírita do Paraná foi extremamente feliz ao afirmar que “os fins não justificam os meios”. Tal orientação possui enorme profundidade ética. Em nome da arrecadação, alguns grupos espíritas passaram a tolerar práticas incompatíveis com os princípios da Codificação, como excessiva comercialização de produtos, apelos mercadológicos e verdadeira profissionalização das atividades religiosas.

O Espiritismo jamais foi concebido como produto de consumo. Jesus Cristo ensinou: “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”. Kardec, por sua vez, sempre demonstrou preocupação com qualquer tentativa de exploração material da Doutrina Espírita. O caráter moral e educativo do Espiritismo exige coerência entre finalidade e método.

Além disso, há grave consequência sociológica nesse modelo de megaeventos: a elitização do acesso ao conhecimento espírita. Muitos confrades humildes não conseguem participar de congressos devido aos altos valores cobrados. Cria-se, assim, uma divisão silenciosa entre os que podem consumir determinados espaços doutrinários e aqueles que permanecem excluídos deles.

Paradoxalmente, uma doutrina fundada sobre fraternidade e universalidade corre o risco de adotar critérios semelhantes aos do mercado capitalista religioso.

Outro aspecto preocupante é o personalismo crescente. O Movimento Espírita corre sério perigo quando determinadas lideranças “santificadas” passam a concentrar excessiva visibilidade, transformando-se em referências quase intocáveis. O foco deixa de ser a mensagem espírita para recair sobre a figura do “ungido” expositor. Onde há culto à personalidade, inevitavelmente surgem distorções doutrinárias, fascinação e dependência emocional.

O verdadeiro centro do Movimento Espírita deve continuar sendo o estudo da obra kardequiana e a vivência do Evangelho, jamais o brilho de estruturas grandiosas ou a popularidade de expositores. Até porque a autenticidade espírita não se mede pelo tamanho dos auditórios, pela sofisticação dos eventos ou pelo volume arrecadado, mas pela fidelidade aos princípios morais do Cristo.

O Espiritismo necessita urgentemente recuperar a simplicidade. Menos espetáculo. Menos marketing religioso. Menos comércio da fé. Mais estudo, fraternidade e coerência evangélica.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

Conduta Espírita. Psicografia de Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

Estude e Viva. Psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

Federação Espírita do Paraná. Conselho Federativo Estadual. Diretrizes sobre eventos doutrinários e captação de recursos. Curitiba, 1994.