Jorge Hessen
Brasília -DF
A expansão das redes sociais e das plataformas digitais revelou uma face perturbadora de algumas “pessoas” : a comercialização vulgar da fé, da dor humana e da esperança alheia.
Multiplicam-se pela internet “pessoas”que se apresentam como “bruxos”, “mestres espirituais”, “magos poderosos” ou “intermediários exclusivos” de entidades invisíveis, oferecendo soluções para casamentos fracassados, dificuldades financeiras, disputas amorosas, desemprego e toda sorte de aflições transitórias e necessárias da existência humana.
Transformaram o sofrimento humano em hediondo mercado. Vendem “trabalhos espirituais” como quem anuncia eletrodomésticos ou cosméticos. Cobram criminosamente por “amarrações”, “desbloqueios energéticos”, “quebras de maldição” e “abertura de caminhos”, explorando emocionalmente criaturas fragilizadas pela dor, pelo medo e pela ignorância espiritual.
Se não víssemos tais práticas estampadas diariamente nas redes digitais, pareceriam episódios grotescos de um passado medieval obscurantista. Entretanto, elas prosperam em pleno século XXI, em meio a uma civilização tecnologicamente sofisticada, mas moralmente analfabética e enferma. A inteligência técnica avançou; o discernimento espiritual, porém, permanece atrófico em vastos setores da sociedade.
O mais inquietante não é apenas a existência dos vendedores de ilusão do invisível, mas a multidão que lhes entrega confiança, dinheiro e autonomia mental. Isso demonstra que o progresso intelectual, desacompanhado de elevação moral, pode coexistir com níveis alarmantes de irracionalidade coletiva.
Allan Kardec advertia que “o verdadeiro homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza” (KARDEC, 2003, p. 341). Não há justeza moral e nem honestidade em explorar a angústia humana mediante promessas espirituais mercantilizadas.
O Espiritismo jamais legitimou comércio mediúnico ou exploração da credulidade popular. Pelo contrário, condenou energicamente tais desvios. Em “O Livro dos Médiuns”, Kardec assevera que “a mediunidade séria não pode ser e jamais será uma profissão” (KARDEC, 2004, p. 389). A faculdade mediúnica, quando autêntica, constitui instrumento de serviço, esclarecimento e consolação, nunca mecanismo de remuneração pessoal ou espetáculo sensacionalista.
O fenômeno contemporâneo revela também a permanência do velho fetichismo psicológico da humanidade. Muitos desejam soluções mágicas para problemas que exigem renovação íntima, disciplina, responsabilidade e amadurecimento espiritual. Preferem terceirizar a consciência para enfrentar o indispensável trabalho de transformação moral.
Emmanuel advertia que “sem reforma íntima não há caminho seguro para a libertação espiritual” (XAVIER, 2002, p. 97). Nenhum ritual comprado substituirá o esforço pessoal, a honestidade, o trabalho digno e a mudança de comportamento. Não existem atalhos místicos para as leis divinas.
A internet apenas potencializou o que sempre existiu: o comércio da superstição. Todavia, sua escala atual impressiona pela naturalidade com que o absurdo é aceito e a estrutura policial nada faz contra a vigarice virtual. Vivemos uma época em que muitos possuem acesso instantâneo à informação, mas continuam incapazes de distinguir espiritualidade do charlatanismo.
A crise contemporânea não é falta de tecnologia; é ausência de honradez e discernimento moral. Enquanto multidões continuarem buscando milagres fáceis, salvadores ocultos e soluções mágicas para desafios existenciais, os mercadores do invisível continuarão criminosamente prosperando sobre a fragilidade humana.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

