16 maio 2026

Heranças insólitas e paradoxos humanos


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Casos de milionários que deixam fortunas para seus animais de estimação chamam a atenção pelo contraste entre riqueza e afeto. Gail Posner, socialite americana, destinou sua mansão de US$ 8,3 milhões e um fundo de US$ 3 milhões à cadela. Leona Helmsley, magnata de Nova York, deixou US$ 12 milhões para sua maltês Trouble, excluindo os netos. Oprah Winfrey reservou US$ 30 milhões para seus cães, enquanto Drew Barrymore determinou que sua cadela herdasse sua casa de US$ 3 milhões. A condessa alemã Karlotta Liebenstein, em 1992, legou US$ 194 milhões ao pastor alemão Gunther III; o fundo hoje ultrapassa US$ 370 milhões.

Tais atitudes revelam um sintoma psicopatológico com o recado: “Recebi mais amor do meu animal do que das pessoas.” Esses extremos refletem uma sociedade marcada por contradições: fortunas destinadas a cães coexistem com miséria, drogas, violência, racismo e fome.

Ainda convivemos com pessoas em situação de rua, doenças como tuberculose e AIDS, e epidemias de crack, apesar de vivermos em uma era tecnológica que parecia inimaginável nos anos 1970, quando não existiam microcomputadores, celulares ou internet.

Porém, reconheço que nem tudo é desolador. Ao lado de heranças excêntricas destinadas a animais de estimação, que frequentemente despertam curiosidade e repercussão pública, existem também exemplos marcantes de profunda responsabilidade social. Muitos empresários, artistas e milionários optam por destinar parte significativa de suas fortunas ao amparo do ser humano, financiando hospitais, pesquisas científicas, bolsas de estudo, projetos culturais e ações de solidariedade.

Desde o século XIX, milionários americanos praticam o mecenato e a filantropia, financiando museus, universidades e projetos sociais. Atualmente, muitos não esperam a morte para doar: criam fundações ainda jovens, garantindo que os recursos sejam aplicados em causas escolhidas. Além disso, evitam deixar grandes heranças aos filhos, temendo que isso destrua sua autonomia. Nos EUA, valoriza-se o self-made man (*) e heranças excessivas são vistas como um obstáculo ao mérito pessoal.

Nesse cenário de profundas crises morais, desigualdades sociais e desafios coletivos que afligem a humanidade contemporânea, a mensagem do Cristo permanece como um roteiro seguro para a regeneração espiritual do homem. Seus ensinamentos de amor, perdão, fraternidade e solidariedade continuam atuais e indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica.

Exemplos luminosos como Vicente de Paulo, Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Teresa e Chico Xavier demonstram, por meio de suas existências dedicadas ao próximo, que a caridade genuína, associada ao amor incondicional, possui extraordinária força moral capaz de aliviar sofrimentos, despertar consciências adormecidas e transformar realidades sociais. Pela vivência sincera do Evangelho, esses benfeitores revelaram que o verdadeiro progresso da humanidade não será alcançado apenas pelo avanço material, mas, sobretudo, pela renovação íntima e pela prática do bem, sem distinções.

Como disse Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas o Cristo vive em mim” (Gl 2,20). Cabe a nós escolher, entre o berço e o túmulo, atitudes que elevem a vida por meio da fé e das boas obras.

 (*)  termo usado para descrever indivíduos que alcançaram grande sucesso, riqueza ou prestígio social partindo do zero, sem heranças, privilégios ou ajuda externa significativa

Referências Bibliográficas:

  1. IstoÉ Independente, Edição 1925, 2010.
  2. Mario Marcondes, veterinário, Hospital Sena Madureira, SP.
  3. Rick Cohen, Comitê Nacional de Filantropia Responsável.
  4. Bíblia, Gálatas 2,20.