15 maio 2026

O espetáculo das “mediunidades exóticas” , os algodões mágicos e a deformação mística do espiritismo


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

Sabemos de práticas “mediúnicas” estranhas à proposta racional de Allan Kardec. Surgem figuras cercadas de aura mística do tipo, supostos “desmanchadores de feitiços”, há até exibições de “algodões desobsessores” com objetos de feitiço materializados, líquidos misteriosos e toda sorte de teatralizações mediúnicas que mais lembram superstição medieval do que mediunidade séria.

O caso dos algodões mágicos de Votuporanga é exemplo preocupante dessa deformação: a substituição da fé raciocinada pelo fascínio do extraordinário. Há até excursões para os adoradores do algodão prestidigitador

Kardec jamais edificou o Espiritismo sobre o maravilhoso. Em O Livro dos Médiuns, advertiu severamente contra: mistificações; charlatanismo; animismo; fraudes; fascinação mediúnica; e imaginação exaltada.

O verdadeiro espírita não deve correr atrás do fantástico, mas analisá-lo com prudência. A mediunidade séria jamais precisou de espetáculos para demonstrar autenticidade.

Quanto maior a teatralidade, maior deveria ser a cautela crítica. Entretanto, muitos ambientes espiritualistas alimentam exatamente o contrário: quanto mais extravagante o fenômeno, maior o encantamento popular.

Criou-se quase uma “indústria do sobrenatural”, sustentada pelo medo de “trabalhos feitos”, obsessões imaginárias e fantasias de feitiçaria materializada.

Ora, o Espiritismo nunca ensinou que obsessão espiritual funcione como “implantação mágica” de objetos físicos nas pessoas. Segundo Allan Kardec, a obsessão é processo psíquico e moral estabelecido por sintonia mental inferior, e não um teatro de “extrações” de panos, agulhas, líquidos ou algodões misteriosos diante de plateias impressionáveis.

Esse tipo de prática aproxima-se muito mais do pensamento mágico medieval do que da sobriedade kardequiana. Em A Gênese, Kardec afirma que o sobrenatural é irreal; existem apenas fenômenos naturais ainda desconhecidos. Portanto, quanto mais extraordinária a alegação, maior deve ser o rigor investigativo.

Curiosamente, fenômenos espetaculares quase sempre desaparecem quando submetidos a: filmagem contínua; controle rigoroso; perícia independente; e observação científica séria.

A história do mediunismo está repleta de “médiuns extraordinários” posteriormente desmascarados. E justamente os efeitos físicos sempre foram os mais suscetíveis a truques e manipulações, porque impressionam os sentidos e enfraquecem o senso crítico.

Há ainda o poderoso fator psicológico. Ambientes emocionalmente carregados favorecem: autosugestão; histeria coletiva; interpretações fantasiosas; e dramatizações inconscientes.

Em muitos casos, o próprio médium pode acreditar sinceramente em suas manifestações sem perceber mecanismos psicológicos envolvidos. Em outros, infelizmente, pode existir fraude deliberada.

O problema maior é que essas práticas desviam completamente o eixo moral do Espiritismo. Enquanto Kardec propunha reforma íntima, educação moral e emancipação intelectual, certos grupos preferem alimentar: terror espiritual; dependência emocional; fetichismo mediúnico; e superstição.

Transformam o Espiritismo em ritual mágico de “desmancho de feitiços”.

Léon Denis advertia que o excesso de maravilhoso costuma atrair mistificação. Já Chico Xavier, através de Emmanuel, lembrava que fenômeno, por si só, não prova elevação espiritual.O critério espírita nunca foi o impacto emocional do fenômeno, mas sua coerência moral, racional e lógica.

Quando uma prática supostamente mediúnica  produz mais curiosidade do que esclarecimento, mais fascinação do que consciência e mais superstição do que razão, ela já se afastou perigosamente da proposta kardequiana.

O Espiritismo não nasceu para ser religião de assombração ou espetáculo folclórico. Surgiu para libertar o ser humano da ignorância — inclusive da ignorância espiritual.

A fé espírita autêntica não necessita de algodões misteriosos, teatralizações mediúnicas ou lendas de feitiçarias (trabalhos feitos) materializadas. Sustenta-se na razão, na moral e no discernimento.