Jorge Hessen
Brasília -DF
A Doutrina
Espírita, edificada por Allan Kardec sob bases racionais, filosóficas
e morais, jamais incentivou especulações fantasiosas acerca de “quem foi
quem” nas sucessivas existências corporais. Entretanto, ainda persistem no
movimento espírita brasileiro certas ideias simplistas e improdutivas, entre
elas a velha tese de que Chico Xavier teria sido a reencarnação de
Kardec. Trata-se de uma hipótese sem sustentação doutrinária, sem coerência
lógica e absolutamente estéril do ponto de vista moral.
O Espiritismo não foi
criado para alimentar curiosidades personalistas nem para produzir mitologias
em torno de médiuns venerados. Seu objetivo essencial é a transformação moral
do ser humano. Kardec foi categórico ao afirmar que o verdadeiro espírita reconhece-se
pela sua transformação moral e pelos esforços para domar suas más inclinações. Portanto,
discutir obsessivamente supostas identidades espirituais revela desvio do foco
doutrinário e perigosa tendência à fascinação.
A fascinação, aliás, é
amplamente estudada por Kardec no Livro dos Médiuns. Nela,
o Codificador explica que o fascinado perde o senso crítico e passa a aceitar
ideias absurdas sem análise racional. Muitos adeptos dessas teses circenses
agem exatamente assim: abandonam o critério kardequiano para mergulhar em
conjecturas emocionalistas e cultos de personalidade.
Nem o próprio Chico
Xavier admitiu semelhante absurdo. Pelo contrário: sempre demonstrou humildade
extrema, reconhecendo-se apenas como servidor imperfeito do Cristo. Em inúmeras
entrevistas, Chico evitava qualquer exaltação pessoal e combatia o personalismo
dentro do Espiritismo. Atribuir-lhe a condição de Kardec reencarnado contraria
frontalmente sua postura moral e espiritual.
Também Divaldo Franco
diversas vezes advertiu sobre os perigos da mistificação e do fanatismo no meio
espírita. O médium baiano recorda que o Espiritismo deve permanecer fiel à
razão e ao bom senso, sem criar “santos espíritas” nem dogmas
emocionais. Quando o movimento abandona a análise crítica, cai inevitavelmente
no misticismo que Kardec tanto combateu.
Nas consagradas obras de
André Luiz observa-se constante valorização do esforço íntimo, da disciplina
mental e do serviço ao próximo. Em nenhum momento existe estímulo para
especulações vaidosas sobre identidades passadas. O foco é sempre a
transformação moral. Já Emmanuel advertia que o Espiritismo perderia sua
finalidade se fosse transformado em palco de fantasias e disputas
personalistas.
Do mesmo modo, Bezerra de
Menezes sempre defendeu a união espírita baseada na caridade, na humildade e no
estudo sério da Doutrina. Alimentar teorias fantasiosas apenas estimula
divisões inúteis, idolatrias e infantilizações incompatíveis com
a maturidade filosófica do Espiritismo.
A fascinação (obsessão)
em descobrir reencarnações famosas revela, muitas vezes, profunda imaturidade
espiritual. É mecanismo psicológico de fuga diante do verdadeiro desafio
espírita: ressignificar o egoísmo, o orgulho e a vaidade. Enquanto alguns discutem
fantasiosamente se Chico foi Kardec, esquecem-se da tarefa essencial de viver
os ensinos morais do Evangelho.
O Espiritismo não
necessita dessas narrativas fantasiosas para validar sua grandeza. Sua força
está justamente na racionalidade, na universalidade do ensino dos Espíritos e
no convite permanente ao aperfeiçoamento moral. Fora disso, sobram
apenas emocionalismo, fascinação e ilusão.
Referências
Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pinga-Fogo com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 2008.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB,
2017.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB,
2019.
FRANCO, Divaldo
Pereira. Diretrizes de Segurança. Salvador: LEAL, 2009.
MENEZES, Bezerra
de. A Loucura sob Novo Prisma. Rio de Janeiro: FEB, 2018.
