18 maio 2026

Delírio no movimento espírita e a “fascinante” reencarnação de Kardec em Chico Xavier



Jorge Hessen

Brasília -DF

A Doutrina Espírita, edificada por Allan Kardec sob bases racionais, filosóficas e morais, jamais incentivou especulações fantasiosas acerca de “quem foi quem” nas sucessivas existências corporais. Entretanto, ainda persistem no movimento espírita brasileiro certas ideias simplistas e improdutivas, entre elas a velha tese de que Chico Xavier teria sido a reencarnação de Kardec. Trata-se de uma hipótese sem sustentação doutrinária, sem coerência lógica e absolutamente estéril do ponto de vista moral.

O Espiritismo não foi criado para alimentar curiosidades personalistas nem para produzir mitologias em torno de médiuns venerados. Seu objetivo essencial é a transformação moral do ser humano. Kardec foi categórico ao afirmar que o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços para domar suas más inclinações. Portanto, discutir obsessivamente supostas identidades espirituais revela desvio do foco doutrinário e perigosa tendência à fascinação.

A fascinação, aliás, é amplamente estudada por Kardec no Livro dos Médiuns. Nela, o Codificador explica que o fascinado perde o senso crítico e passa a aceitar ideias absurdas sem análise racional. Muitos adeptos dessas teses circenses agem exatamente assim: abandonam o critério kardequiano para mergulhar em conjecturas emocionalistas e cultos de personalidade.

Nem o próprio Chico Xavier admitiu semelhante absurdo. Pelo contrário: sempre demonstrou humildade extrema, reconhecendo-se apenas como servidor imperfeito do Cristo. Em inúmeras entrevistas, Chico evitava qualquer exaltação pessoal e combatia o personalismo dentro do Espiritismo. Atribuir-lhe a condição de Kardec reencarnado contraria frontalmente sua postura moral e espiritual.

Também Divaldo Franco diversas vezes advertiu sobre os perigos da mistificação e do fanatismo no meio espírita. O médium baiano recorda que o Espiritismo deve permanecer fiel à razão e ao bom senso, sem criar “santos espíritas” nem dogmas emocionais. Quando o movimento abandona a análise crítica, cai inevitavelmente no misticismo que Kardec tanto combateu.

Nas consagradas obras de André Luiz observa-se constante valorização do esforço íntimo, da disciplina mental e do serviço ao próximo. Em nenhum momento existe estímulo para especulações vaidosas sobre identidades passadas. O foco é sempre a transformação moral. Já Emmanuel advertia que o Espiritismo perderia sua finalidade se fosse transformado em palco de fantasias e disputas personalistas.

Do mesmo modo, Bezerra de Menezes sempre defendeu a união espírita baseada na caridade, na humildade e no estudo sério da Doutrina. Alimentar teorias fantasiosas apenas estimula divisões inúteis, idolatrias e infantilizações incompatíveis com a maturidade filosófica do Espiritismo.

A fascinação (obsessão) em descobrir reencarnações famosas revela, muitas vezes, profunda imaturidade espiritual. É mecanismo psicológico de fuga diante do verdadeiro desafio espírita: ressignificar o egoísmo, o orgulho e a vaidade. Enquanto alguns discutem fantasiosamente se Chico foi Kardec, esquecem-se da tarefa essencial de viver os ensinos morais do Evangelho.

O Espiritismo não necessita dessas narrativas fantasiosas para validar sua grandeza. Sua força está justamente na racionalidade, na universalidade do ensino dos Espíritos e no convite permanente ao aperfeiçoamento moral. Fora disso, sobram apenas emocionalismo, fascinação e ilusão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

XAVIER, Francisco Cândido. Pinga-Fogo com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 2008.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Diretrizes de Segurança. Salvador: LEAL, 2009.

MENEZES, Bezerra de. A Loucura sob Novo Prisma. Rio de Janeiro: FEB, 2018.