Jorge Hessen
Brasília -DF
Refletir sobre sexo, casamento e celibato é abordar uma das forças mais profundas da experiência humana: a energia (impulso) sexual, ou libido. Mais do que simples acometimento biológico, trata-se de poderosa manifestação psíquica ligada aos sentimentos, aos desejos e à forma como nos relacionamos afetivamente.
A visão espírita não condena o sexo, porém o compreende como patrimônio divino da criatura, destinado ao amor, à responsabilidade e ao progresso espiritual. Sob essa perspectiva, o pensamento de Emmanuel permanece atual ao afirmar: a sua “não proibição, mas educação; não abstinência imposta, mas emprego digno; não indisciplina, mas controle”.
A questão essencial não está apenas no permissível ou proibido, mas no uso consciente das energias criadoras da alma como a vontade, a consciência, o amor, o pensamento e o livre-arbítrio — que nos conectam à força vital do universo. O desequilíbrio sexual nasce, sobretudo, do egoísmo, da posse e da irresponsabilidade afetiva.
Na sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo e pela erotização excessiva, o sexo frequentemente é reduzido a entretenimento ou instrumento de domínio emocional. Entretanto, a sexualidade sem amor gera vazio existencial, ansiedade e conflitos psicológicos.
O amor verdadeiro liberta; a paixão possessiva aprisiona. Por isso, a Doutrina Espírita ensina que o sexo deve ser sublimado e caminhar ao lado da responsabilidade moral e da dignidade humana.
Segundo Allan Kardec, o casamento constitui avanço da civilização e importante conquista social. No Livro dos Espíritos, os Benfeitores Espirituais explicam que a união estável favorece o progresso da humanidade, consolidando os vínculos de afeto e cooperação. A família converte-se, assim, em núcleo de aprendizado espiritual, oficina de reconciliações e reencontros entre Espíritos comprometidos entre si perante a lei divina.
Sob o ponto de vista das pluralidades das existências, muitos casamentos representam oportunidades de reajuste e crescimento mútuo. Há uniões constituídas pelo amor profundo; outras surgem como provas, deveres ou missões educativas. Em qualquer circunstância, o matrimônio não deve ser visto apenas como contrato social, mas como experiência espiritual relevante para o aperfeiçoamento moral.
Isso não significa defender a indissolubilidade absoluta do casamento. O próprio Espiritismo reconhece que leis humanas podem ser modificadas quando deixam de atender às necessidades legítimas da criatura. Relações marcadas pela violência, humilhação ou degradação moral não correspondem aos objetivos superiores da união afetiva.
Quanto ao celibato, a Doutrina Espírita não o considera estado de perfeição automática. O mérito espiritual não está na abstinência em si mesma, mas na intenção que a motiva. Quando adotado por egoísmo, fuga das responsabilidades ou orgulho, perde valor moral; porém, quando decorre de sincera dedicação ao bem coletivo, converte-se em forma legítima de renúncia e serviço.
O impulso natural da sexualidade, portanto, não deve ser encarado com culpa consciencial nem com leviandade. Conforme esclarece André Luiz, o sexo “reside na mente”, refletindo-se no corpo físico como expressão das emoções e pensamentos. Toda desarmonia no campo afetivo repercute profundamente na consciência, produzindo consequências emocionais e espirituais.
Os conflitos atuais envolvendo família e sexualidade revelam muito mais uma crise moral do que meramente biológica ou sociológica. Nenhuma solução exterior substituirá a renovação íntima do indivíduo.
A verdadeira educação sexual precisa incluir valores éticos, respeito, afetividade, responsabilidade e espiritualidade. O sexo é força criadora; o amor é força libertadora. Quando ambos caminham harmonizados pela consciência, tornam-se instrumentos de crescimento espiritual e de construção da felicidade possível na Terra.
Referências Bibliográficas:
O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo: IDE, 1984.
XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1999.
XAVIER, Francisco Cândido. No Mundo Maior. Ditado pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1999.


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