11 maio 2026

Sonhos: Entre a Neurociência e a Visão Espírita


 

 

Jorge Hessen

Brasília-DF

 

Desde as mais remotas civilizações, os sonhos cercam-se de mistérios e fascínio. Para os povos antigos, representavam manifestações sobrenaturais, mensagens dos deuses ou contatos com os mortos. Em muitas culturas, ainda hoje, o sonho é visto como instrumento de orientação moral e espiritual. Outras correntes, porém, reduzem-no a simples atividade cerebral sem maior significado existencial.

A ciência contemporânea ainda não respondeu plenamente por que sonhamos. Há hipóteses segundo as quais os sonhos auxiliam na regulação emocional, reorganizam memórias e processam experiências vividas durante o dia. Sabe-se que a mente permanece ativa durante o sono e que, nesse período, ocorre importante seleção das informações que permanecerão na memória de longo prazo. Segundo Rosalind Cartwright, os sonhos parecem organizar conteúdos emocionais relacionados à autopercepção humana.

Para a Doutrina Espírita, contudo, o fenômeno transcende o mero funcionamento neurobiológico. Allan Kardec indagou aos Espíritos se, durante o sono, a alma repousaria como o corpo. A resposta foi categórica: “Não, o Espírito jamais está inativo” (KARDEC, 2000, q. 401). O corpo físico descansa, mas o Espírito emancipa-se parcialmente da matéria, readquirindo relativa liberdade.

Kardec explica que, durante o sono, “afrouxam-se os laços que prendem o Espírito ao corpo” (KARDEC, 2000, q. 401). Nessa condição, o ser humano entra em contato com outras inteligências desencarnadas, visita ambientes espirituais e revive experiências pretéritas. Em certos casos, pode até receber advertências ou inspirações elevadas. Em “O Livro dos Espíritos”, afirma-se ainda que, pelos sonhos, “o Espírito tem mais faculdades do que no estado de vigília” (KARDEC, 2000, q. 402).

Diversos episódios históricos parecem sugerir que os sonhos podem favorecer percepções criativas. O físico Albert Einstein relatava que muitas de suas intuições científicas surgiam em estados de relaxamento mental. Paul McCartney afirmou ter composto a melodia de “Yesterday” após despertar com a música completamente formada na mente. O químico Dmitri Mendeleev atribuiu a organização da tabela periódica a um sonho inspirador. Esses casos sugerem que o inconsciente — ou, sob a ótica espírita, a própria alma emancipada — pode acessar conteúdos além da consciência ordinária.

As tradições religiosas também registram abundantes experiências oníricas. A Bíblia contém centenas de referências a sonhos proféticos e simbólicos. No Islã, parte das revelações recebidas por Maomé teria ocorrido durante estados visionários próximos ao sono.

A Psicologia e a Neurociência investigam os sonhos sob perspectivas complementares. Enquanto a Neurociência analisa os mecanismos cerebrais envolvidos, a Psicanálise busca interpretar conteúdos simbólicos ligados aos desejos, medos e conflitos íntimos. Dessa aproximação surgiu a neuropsicanálise, campo que procura integrar aspectos fisiológicos e subjetivos da experiência onírica.

Entretanto, poucas correntes filosóficas estudaram os sonhos com tanta profundidade quanto o Espiritismo. Kardec dedica capítulos inteiros ao tema em “O Livro dos Espíritos” e em “A Gênese”, sustentando que o sono representa momento parcial de emancipação da alma.

Os chamados “sonhos lúcidos” também despertam interesse científico. Neles, o indivíduo percebe que está sonhando enquanto o sonho ocorre. O psiquiatra holandês Frederik van Eeden e o pesquisador Stephen LaBerge estudaram amplamente o fenômeno. Curiosamente, pensadores antigos, como Santo Agostinho e Tomás de Aquino, já admitiam essa possibilidade séculos atrás.

Quanto aos pesadelos, o Espiritismo ensina prudência interpretativa. Muitos deles decorrem apenas de tensões emocionais, desequilíbrios orgânicos ou reflexos psicológicos. Todavia, em algumas situações, podem ocorrer influências espirituais inferiores, especialmente quando cultivamos pensamentos negativos e sintonia mental perturbada. Kardec esclarece que “os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas” (KARDEC, 2000).

Léon Denis classifica os sonhos em três categorias: os puramente cerebrais; os decorrentes de desprendimento parcial do Espírito; e os sonhos profundos ou etéreos, nos quais a alma alcança percepções mais elevadas. Tal classificação continua atual e coerente com muitas experiências humanas.

O Espiritismo também rejeita as interpretações supersticiosas que associam sonhos a presságios simplistas ou jogos de azar. Sonhar com dentes, serpentes ou mortes não possui significado universal. Cada experiência onírica relaciona-se ao patrimônio emocional, moral e psicológico de quem sonha.

Segundo André Luiz, devemos aproveitar dos sonhos apenas os ensinamentos edificantes, sem fanatismo ou perturbação. O essencial é observar quais emoções, medos ou desejos emergem dessas experiências, utilizando-as para o autoconhecimento e o aprimoramento moral.

Kardec ainda pergunta se duas pessoas podem encontrar-se durante o sono. Os Espíritos respondem afirmativamente, afirmando que amigos e parentes frequentemente se visitam espiritualmente enquanto dormem (KARDEC, 2000, q. 414). Contudo, recomenda-se cautela: nem todo sonho possui origem espiritual autêntica. A maioria decorre de impressões psíquicas, de memórias ou de processos fisiológicos naturais.

Assim, os sonhos permanecem como uma das mais fascinantes fronteiras entre corpo e alma. A Ciência investiga-lhes os mecanismos; o Espiritismo busca compreender-lhes a transcendência. Em ambos os casos, eles revelam que a mente humana continua muito além das estreitas fronteiras da matéria.

 

Referências Bibliográficas:

CARTWRIGHT, Rosalind. The Twenty-four Hour Mind. Oxford: Oxford University Press, 2010.

DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB, 1985.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

LOUREIRO, Carlos Bernardo. Visão Espírita do Sono e dos Sonhos. Matão: O Clarim, 2000.

REVISTA GALILEU. Sonhos e interpretação da mente humana. São Paulo, maio 2009.

VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

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