Jorge Hessen
Brasília -DF
Temos observado um
fenômeno preocupante em determinados segmentos do movimento espírita
brasileiro: a crescente substituição do estudo doutrinário sério por narrativas
sensacionalistas envolvendo extraterrestres, abduções alienígenas,
conspirações cósmicas e supostas revelações extraordinárias apresentadas
como se fossem ensinamentos espíritas legítimos.
O problema não reside na
possibilidade da existência de vida em outros mundos. A pluralidade dos mundos
habitados constitui um princípio claramente exposto por Allan Kardec em O
Livro dos Espíritos. O equívoco começa quando hipóteses ufológicas,
relatos anedóticos ou experiências subjetivas passam a ser divulgados em
tribunas espíritas como se integrassem o corpo doutrinário da Codificação.
Allan Kardec edificou o
Espiritismo sobre bases radicalmente diferentes. Sua metodologia exigia
observação rigorosa, análise racional, comparação universal dos ensinos dos
Espíritos e permanente submissão dos fatos ao crivo da razão. Em nenhum momento
o Codificador autorizou a aceitação de afirmações extraordinárias apenas porque
são fascinantes ou despertam curiosidade.
Ao contrário, Kardec
advertiu que um dos maiores perigos para o Espiritismo seria a invasão de
ideias fantasiosas capazes de comprometer sua credibilidade perante a sociedade.
Em A Gênese, afirmou que uma teoria somente pode ser incorporada ao
patrimônio doutrinário quando resistir simultaneamente ao exame da lógica, da
razão e dos fatos.
Entretanto, alguns
expositores contemporâneos parecem ignorar esse princípio fundamental. Utilizam
a tribuna espírita para difundir narrativas sobre extraterrestres que
sequestram seres humanos, realizam experiências biológicas ou monitoram
secretamente a humanidade. Frequentemente, tais afirmações são apresentadas
sem qualquer comprovação objetiva e, pior ainda, associadas indevidamente ao
nome de Kardec.
Esse procedimento produz
graves consequências. A primeira delas é a descaracterização da própria
Doutrina Espírita. O público leigo passa a confundir Espiritismo com
ufologia, esoterismo ou literatura de ficção científica. A segunda
consequência é o enfraquecimento da credibilidade intelectual da doutrina,
justamente uma das características mais valorizadas por Kardec.
Enquanto alguns se ocupam
de especulações sobre discos voadores e abduções, temas essenciais da renovação
moral acabam relegados ao segundo plano. Fala-se menos de reforma íntima,
responsabilidade espiritual, caridade, educação das emoções e vivência evangélica.
A curiosidade substitui o autoconhecimento; o espetáculo toma o lugar do
estudo.
A obsessão pelo
extraordinário não representa avanço espiritual. Muitas vezes, constitui apenas
uma forma sofisticada de fuga das próprias responsabilidades morais. É mais
fácil discutir civilizações galácticas do que enfrentar os desafios cotidianos
do orgulho, do egoísmo e da intolerância.
A tribuna espírita não
foi criada para entreter nem para impressionar e agradar auditórios.
Sua finalidade é esclarecer consciências à luz da razão e do Evangelho. Quando
opiniões pessoais são apresentadas como verdades doutrinárias, abre-se espaço
para a mistificação, fenômeno amplamente denunciado por Kardec em suas
obras.
O movimento espírita
necessita urgentemente retornar às fontes da Codificação. Isso não significa
fechar-se à investigação de novos fenômenos, mas preservar a distinção entre
hipótese e doutrina, entre opinião individual e ensinamento espírita. Sem esse cuidado,
corre-se o risco de transformar uma filosofia racional em um repositório de
crenças sem controle metodológico.
O Espiritismo não tem
necessidade de extraterrestres sequestradores (abdução) para justificar sua
existência. Seus fundamentos são suficientemente sólidos para sustentar uma
visão elevada do ser humano, da vida e da imortalidade. A verdadeira grandeza
da doutrina não está no fantástico, mas na sua capacidade de unir razão, ciência,
filosofia e moral em favor do progresso espiritual da humanidade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2009.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2013.
KARDEC, Allan. A
Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2018.
SILVA, Deolindo Amorim. O
Espiritismo e os Problemas Humanos. Rio de Janeiro: CELD, 2002.
PIRES, José Herculano. O
Espírito e o Tempo. São Paulo: Paideia, 1995.

