06 junho 2026

Abduções e Alienígenas? A tribuna e o empobrecimento do pensamento espírita

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Temos observado um fenômeno preocupante em determinados segmentos do movimento espírita brasileiro: a crescente substituição do estudo doutrinário sério por narrativas sensacionalistas envolvendo extraterrestres, abduções alienígenas, conspirações cósmicas e supostas revelações extraordinárias apresentadas como se fossem ensinamentos espíritas legítimos.

O problema não reside na possibilidade da existência de vida em outros mundos. A pluralidade dos mundos habitados constitui um princípio claramente exposto por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. O equívoco começa quando hipóteses ufológicas, relatos anedóticos ou experiências subjetivas passam a ser divulgados em tribunas espíritas como se integrassem o corpo doutrinário da Codificação.

Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre bases radicalmente diferentes. Sua metodologia exigia observação rigorosa, análise racional, comparação universal dos ensinos dos Espíritos e permanente submissão dos fatos ao crivo da razão. Em nenhum momento o Codificador autorizou a aceitação de afirmações extraordinárias apenas porque são fascinantes ou despertam curiosidade.

Ao contrário, Kardec advertiu que um dos maiores perigos para o Espiritismo seria a invasão de ideias fantasiosas capazes de comprometer sua credibilidade perante a sociedade. Em A Gênese, afirmou que uma teoria somente pode ser incorporada ao patrimônio doutrinário quando resistir simultaneamente ao exame da lógica, da razão e dos fatos.

Entretanto, alguns expositores contemporâneos parecem ignorar esse princípio fundamental. Utilizam a tribuna espírita para difundir narrativas sobre extraterrestres que sequestram seres humanos, realizam experiências biológicas ou monitoram secretamente a humanidade. Frequentemente, tais afirmações são apresentadas sem qualquer comprovação objetiva e, pior ainda, associadas indevidamente ao nome de Kardec.

Esse procedimento produz graves consequências. A primeira delas é a descaracterização da própria Doutrina Espírita. O público leigo passa a confundir Espiritismo com ufologia, esoterismo ou literatura de ficção científica. A segunda consequência é o enfraquecimento da credibilidade intelectual da doutrina, justamente uma das características mais valorizadas por Kardec.

Enquanto alguns se ocupam de especulações sobre discos voadores e abduções, temas essenciais da renovação moral acabam relegados ao segundo plano. Fala-se menos de reforma íntima, responsabilidade espiritual, caridade, educação das emoções e vivência evangélica. A curiosidade substitui o autoconhecimento; o espetáculo toma o lugar do estudo.

A obsessão pelo extraordinário não representa avanço espiritual. Muitas vezes, constitui apenas uma forma sofisticada de fuga das próprias responsabilidades morais. É mais fácil discutir civilizações galácticas do que enfrentar os desafios cotidianos do orgulho, do egoísmo e da intolerância.

A tribuna espírita não foi criada para entreter nem para impressionar e agradar auditórios. Sua finalidade é esclarecer consciências à luz da razão e do Evangelho. Quando opiniões pessoais são apresentadas como verdades doutrinárias, abre-se espaço para a mistificação, fenômeno amplamente denunciado por Kardec em suas obras.

O movimento espírita necessita urgentemente retornar às fontes da Codificação. Isso não significa fechar-se à investigação de novos fenômenos, mas preservar a distinção entre hipótese e doutrina, entre opinião individual e ensinamento espírita. Sem esse cuidado, corre-se o risco de transformar uma filosofia racional em um repositório de crenças sem controle metodológico.

O Espiritismo não tem necessidade de extraterrestres sequestradores (abdução) para justificar sua existência. Seus fundamentos são suficientemente sólidos para sustentar uma visão elevada do ser humano, da vida e da imortalidade. A verdadeira grandeza da doutrina não está no fantástico, mas na sua capacidade de unir razão, ciência, filosofia e moral em favor do progresso espiritual da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

SILVA, Deolindo Amorim. O Espiritismo e os Problemas Humanos. Rio de Janeiro: CELD, 2002.

PIRES, José Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Paideia, 1995.