Jorge Hessen
Brasília -DF
Há tragédias que não chegam pela violência das armas nem pelo estrondo das guerras. Entram sorrateiramente pela tela do celular, travestidas de entretenimento, promessa de riqueza fácil e propaganda milionária. Assim se apresenta a indústria das apostas esportivas na internet, um dos mais devastadores mecanismos contemporâneos de destruição moral, financeira e emocional.
O caso do tenente da Polícia Militar de Goiás, Danilo Lopes Negrão, é um retrato doloroso dessa realidade. Um homem de apenas 41 anos, pai de uma menina de cinco anos, iniciou apostas durante a Copa do Mundo de 2022. No começo vieram os ganhos, suficientes para alimentar a perigosa ilusão de controle. Depois, as perdas sucessivas, empréstimos, quase um milhão de reais em dívidas, depressão profunda e, finalmente, o suicídio.
Sua viúva, Raquel Maria, rompeu o silêncio para advertir outras famílias: "Não joguem. Não joguem pouco. Não joguem muito. Não joguem nada." Não fala como uma especialista em economia ou psicologia. Fala quem viu sua família ser destruída.
O drama do tenente não é um episódio isolado. É o roteiro repetido de milhares de brasileiros. A lógica das apostas online não foi construída para enriquecer apostadores. Foi projetada para enriquecer plataformas. Os algoritmos exploram mecanismos psicológicos conhecidos: recompensas intermitentes, sensação de quase vitória, impulsividade e esperança permanente de recuperar o prejuízo. O resultado é uma dependência comportamental que pode atingir níveis comparáveis aos de outras formas de vício.
Enquanto isso, a publicidade vende fantasia. Celebridades, influenciadores e até clubes esportivos emprestam sua credibilidade para normalizar uma atividade cujo modelo econômico depende justamente das perdas da maioria dos jogadores.
Sob a ótica espírita, a questão ultrapassa o aspecto financeiro. O trabalho honesto permanece sendo o instrumento legítimo da construção da prosperidade. Allan Kardec ensina que o progresso decorre do esforço, da inteligência e da responsabilidade. Emmanuel recorda que não existem atalhos para as leis divinas. Toda tentativa de obter vantagens sem o correspondente mérito costuma cobrar elevado preço moral.
O jogo alimenta ilusões perigosas: riqueza sem trabalho, recompensa sem esforço, fortuna sem disciplina. Em vez de fortalecer a vontade, enfraquece-a. Em vez de cultivar a perseverança, estimula a ansiedade. Em vez da confiança em Deus, promove a dependência da sorte.
Não se trata de condenar pessoas. Muitos dos que hoje sofrem são vítimas de um sistema cuidadosamente elaborado para capturar sua atenção, seu tempo e seu patrimônio. Precisam de acolhimento, tratamento especializado, apoio familiar e espiritual, jamais de desprezo.
Todavia, acolher a pessoa não significa silenciar diante da perversidade do mecanismo. Uma sociedade que transforma o vício em entretenimento, o endividamento em negócio e o sofrimento em fonte de lucro caminha perigosamente para a banalização da dor humana.
Que o testemunho de Raquel Maria não seja apenas mais uma notícia esquecida. Que seja um alerta. Antes de apostar o próximo real, alguém pode estar apostando a própria paz, a estabilidade da família e, em casos extremos, a própria vida.
O verdadeiro patrimônio do ser humano nunca esteve na sorte. Sempre esteve no trabalho digno, com a consciência tranquila e na confiança em Deus.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra: OMS.
