30 junho 2026

Campanha "Auta de Souza": caridade ou proselitismo? Uma reflexão imprescindível


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Espiritismo não foi instituído como uma religião destinada à conquista de adeptos. Allan Kardec jamais recomendou visitas domiciliares para divulgação da Doutrina associadas à arrecadação de donativos. Ao contrário, ensinou que o Espiritismo se propagaria "pela força das coisas", isto é, pela lógica de seus princípios, pela razão e pelo exemplo moral de seus seguidores, jamais por estratégias que pudessem sugerir captação religiosa.

Nesse contexto, merece reflexão a denominada "Campanha Auta de Souza", semelhante à tradicional "Campanha do Quilo", na qual trabalhadores espíritas percorrem residências arrecadando alimentos e, simultaneamente, distribuem mensagens e convites para atividades doutrinárias. Embora inspirada em nobres intenções, essa prática não encontra respaldo explícito na Codificação Espírita.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que a beneficência deve ser absolutamente desinteressada. O auxílio material deve ser prestado sem qualquer expectativa de adesão religiosa ou influência sobre a consciência daquele que o recebe. O conhecido princípio "Fora da caridade não há salvação" evidencia que a salvação moral decorre da prática do bem, e não da filiação a qualquer crença.

Quando a arrecadação de alimentos é acompanhada da distribuição de mensagens ou convites para reuniões espíritas, estabelece-se, ainda que involuntariamente, uma associação entre assistência social e divulgação doutrinária. Ainda que inexista intenção de converter pessoas, tal procedimento pode ser percebido como forma indireta de proselitismo, incompatível com o respeito à liberdade de consciência, princípio basilar do Espiritismo.

Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o Espiritismo conquistará espaço pela superioridade moral e racional de seus ensinos, jamais por meios artificiais de propaganda. A divulgação doutrinária deve ocorrer em ambientes próprios — palestras públicas, grupos de estudo, livros, imprensa e meios digitais — frequentados espontaneamente por aqueles que desejam conhecer a Doutrina.

Há também uma dimensão ética relevante. Visitas religiosas não solicitadas podem representar interferência na esfera privada das famílias, especialmente em uma sociedade plural, onde coexistem diferentes convicções filosóficas e religiosas. O Evangelho esclarece e convida; nunca constrange nem invade.

Igualmente importante é reconhecer que campanhas eventuais de arrecadação, embora meritórias, não enfrentam as causas estruturais da pobreza. A promoção humana requer educação, capacitação, acolhimento, fortalecimento moral e oportunidades de emancipação, indo além da simples distribuição periódica de alimentos.

Por isso, o movimento espírita deve reexaminar práticas consagradas pela tradição, distinguindo costumes históricos dos princípios efetivamente codificados por Allan Kardec. Fidelidade à Codificação exige discernimento permanente.

A verdadeira caridade não necessita de anunciar uma doutrina. Ela se manifesta pelo respeito, pela gratuidade, pela discrição e pelo amor ao próximo. O Espiritismo não cresce quando bate às portas das casas; cresce quando alcança as consciências pela coerência de seus princípios e pelo testemunho moral de seus adeptos. A melhor divulgação da Doutrina continua sendo a vivência sincera do Evangelho.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023