Jorge Hessen
Brasília
-DF
O Espiritismo não foi
instituído como uma religião destinada à conquista de adeptos. Allan Kardec
jamais recomendou visitas domiciliares para divulgação da Doutrina associadas à
arrecadação de donativos. Ao contrário, ensinou que o Espiritismo se propagaria
"pela força das coisas", isto é, pela lógica de seus princípios, pela
razão e pelo exemplo moral de seus seguidores, jamais por estratégias que
pudessem sugerir captação religiosa.
Nesse contexto, merece
reflexão a denominada "Campanha Auta de Souza", semelhante à
tradicional "Campanha do Quilo", na qual trabalhadores espíritas
percorrem residências arrecadando alimentos e, simultaneamente, distribuem
mensagens e convites para atividades doutrinárias. Embora inspirada em nobres
intenções, essa prática não encontra respaldo explícito na Codificação
Espírita.
Em O Evangelho segundo o
Espiritismo, Kardec ensina que a beneficência deve ser absolutamente
desinteressada. O auxílio material deve ser prestado sem qualquer expectativa
de adesão religiosa ou influência sobre a consciência daquele que o recebe. O
conhecido princípio "Fora da caridade não há salvação" evidencia que
a salvação moral decorre da prática do bem, e não da filiação a qualquer
crença.
Quando a arrecadação de
alimentos é acompanhada da distribuição de mensagens ou convites para reuniões
espíritas, estabelece-se, ainda que involuntariamente, uma associação entre
assistência social e divulgação doutrinária. Ainda que inexista intenção de
converter pessoas, tal procedimento pode ser percebido como forma indireta de
proselitismo, incompatível com o respeito à liberdade de consciência, princípio
basilar do Espiritismo.
Em Obras Póstumas, Kardec
afirma que o Espiritismo conquistará espaço pela superioridade moral e racional
de seus ensinos, jamais por meios artificiais de propaganda. A divulgação
doutrinária deve ocorrer em ambientes próprios — palestras públicas, grupos de
estudo, livros, imprensa e meios digitais — frequentados espontaneamente por
aqueles que desejam conhecer a Doutrina.
Há também uma dimensão
ética relevante. Visitas religiosas não solicitadas podem representar
interferência na esfera privada das famílias, especialmente em uma sociedade
plural, onde coexistem diferentes convicções filosóficas e religiosas. O
Evangelho esclarece e convida; nunca constrange nem invade.
Igualmente importante é
reconhecer que campanhas eventuais de arrecadação, embora meritórias, não
enfrentam as causas estruturais da pobreza. A promoção humana requer educação,
capacitação, acolhimento, fortalecimento moral e oportunidades de emancipação,
indo além da simples distribuição periódica de alimentos.
Por isso, o movimento espírita deve reexaminar práticas consagradas pela tradição, distinguindo costumes históricos dos princípios efetivamente codificados por Allan Kardec. Fidelidade à Codificação exige discernimento permanente.
A verdadeira caridade não
necessita de anunciar uma doutrina. Ela se manifesta pelo respeito, pela
gratuidade, pela discrição e pelo amor ao próximo. O Espiritismo não cresce
quando bate às portas das casas; cresce quando alcança as consciências pela
coerência de seus princípios e pelo testemunho moral de seus adeptos. A melhor
divulgação da Doutrina continua sendo a vivência sincera do Evangelho.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2023.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2022.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023
