Jorge Hessen
Brasília -DF
A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e posto avançado de fraternidade. Sua finalidade não é a conquista de posições de chefia, prestígio ou autoridade administrativa, mas a transformação moral dos frequentadores à luz do Evangelho do Cristo.
Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas (maledicência) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.
O cargo de direção, em uma casa espírita, deveria representar oportunidade de serviço e não instrumento de poder, de mando e desmandos. Quem aspira à direção apenas para ser reconhecido, influenciar pessoas ou satisfazer necessidades egóicas de afirmação pessoal demonstra entrave moral e incompreensão da essência da liderança espírita cristã. Jesus, o Governador Espiritual da Terra, ensinou exatamente o contrário: “aquele que quiser ser o maior, seja o servo de todos”.
É igualmente inquietante quando pessoas comprovadamente desajustadas em seus próprios ambientes domésticos se apresentam como modelos de equilíbrio para conduzir instituições espíritas. Evidentemente, não devemos exigir perfeição de ninguém, pois todos somos aprendizes. Contudo, a direção de uma organização espírita exige maturidade emocional, capacidade de diálogo, espírito conciliador, testemunho moral e exemplo de equilíbrio familiar compatível com as responsabilidades assumidas.
Os grupos espíritas não podem e nem devem transformar-se em ambientes de fofoca (maledicência), formação de grupelhos “dissidentes”, alianças politiqueiras ou busca de “eleitores” para futuras administrações. Quando isso acontece, o foco deixa de ser o Evangelho para concentrar-se nas desprezíveis ambições humanas de mando e desmando. O resultado inevitável é a desarmonia, o afastamento de inocentes úteis (trabalhadores sinceros) e o enfraquecimento das atividades doutrinárias.
Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. A disputa por poder, a intriga e o desejo de controle constituem justamente algumas dessas infelizes inclinações que necessitam ser vencidas.
A casa espírita deve permanecer como reduto de paz, de união legítima e não mascarada, de educação espiritual, estudo sério da Doutrina, acolhimento fraterno e serviço desinteressado ao próximo. Seus dirigentes são administradores temporários de uma tarefa que pertence a Cristo, portanto, não proprietários de cargos ou de instituições.
Quando interesses pessoais passam a prevalecer sobre os interesses da causa espírita, perde-se a perspectiva do serviço e instala-se a cultura da competição. E onde há competição por prestígio e “poder” , impossível haver espaço para a verdadeira fraternidade.
Quem não consegue adaptar-se aos princípios de respeito, cooperação e humildade que devem caracterizar o movimento espírita talvez encontre maior afinidade em outros ambientes voltados às disputas de influência e poder. A seara espírita, porém, exige outra postura: a do trabalhador que serve sem exigir reconhecimento, que coopera sem disputar posições e que compreende que a maior autoridade é a do exemplo sobretudo no ambiente doméstico.
O futuro saudável das instituições espíritas dependerá menos de estatutos, regimentos, cargos ou eleições e muito mais da capacidade de seus integrantes cultivarem a humildade, a tolerância e o espírito de serviço. Afinal, na Casa do Cristo, os maiores não são os que mandam mais, mas os que servem melhor.
Nesta abordagem acima preservamos o tom fundamentado de nossa análise, mas deslocamos o foco temático para princípios doutrinários universais, evitando quaisquer personalizações, reforçando o ideal de serviço ensinado por Jesus e pela Doutrina Espírita.
Pensemos nisso!

