Jorge Hessen
Brasília-DF
A medicina alcançou um patamar tecnológico extraordinário. Nunca se diagnosticou tanto, nunca se operou com tanta precisão, nunca se desenvolveram tantos medicamentos. Apesar disso, multiplicam-se as doenças crônicas, os transtornos mentais e o sofrimento que resiste aos protocolos clínicos. O paradoxo merece reflexão.
Grande parte da formação médica continua assentada sobre um pressuposto raramente discutido: o de que a realidade humana se esgota na dimensão biológica. Estudam-se genes, neurotransmissores e mecanismos celulares com admirável profundidade, mas a consciência, a espiritualidade e suas possíveis repercussões sobre a saúde permanecem, em regra, relegadas à periferia do debate acadêmico. Não por terem sido definitivamente refutadas, mas porque o paradigma dominante simplesmente as exclui.
Esse reducionismo produz consequências. O paciente deixa de ser compreendido como uma unidade complexa para converter-se em um conjunto de indicadores clínicos. A consulta cede espaço ao protocolo; a escuta, ao prontuário eletrônico; a pessoa, ao diagnóstico. A medicina torna-se cada vez mais eficiente para controlar manifestações da doença, sem necessariamente alcançar as causas mais profundas do adoecimento.
Não se trata de negar a relevância dos avanços científicos nem o valor inestimável da terapêutica medicamentosa. Trata-se de reconhecer que ciência e reducionismo não são sinônimos. A crença de que toda experiência humana possa ser explicada exclusivamente por processos físico-químicos constitui uma opção filosófica, não uma conclusão científica.
Também não pode passar despercebido o crescente fenômeno da medicalização. Em muitos casos, a resposta imediata para o sofrimento humano é a prescrição de novos fármacos. Embora indispensáveis em inúmeras situações, medicamentos não substituem educação emocional, valores morais, sentido existencial nem mudanças de comportamento. Uma sociedade que transforma toda dor em diagnóstico corre o risco de perder a capacidade de compreender a própria condição humana.
Sob a perspectiva espírita, codificada por Allan Kardec, essa limitação torna-se ainda mais evidente. O ser humano não é apenas organismo biológico, mas a integração entre corpo, Espírito e perispírito. Nessa compreensão, a saúde resulta do equilíbrio entre essas dimensões, e muitas enfermidades refletem igualmente conflitos de natureza moral e espiritual. Essa visão pertence ao campo doutrinário espírita e propõe uma ampliação da compreensão do adoecimento, sem dispensar os recursos da medicina.
A universidade, por definição, deve ser o espaço do livre exame das ideias, não da consagração de dogmas. Se a ciência tem como vocação investigar a realidade, não há justificativa para interditar, por preconceito filosófico, o estudo rigoroso da consciência e da espiritualidade.
O verdadeiro desafio da medicina contemporânea talvez não seja desenvolver máquinas mais sofisticadas ou medicamentos mais potentes. Seja, antes, recuperar a capacidade de enxergar o ser humano em sua inteireza. Enquanto permanecer confinada ao paradigma estritamente materialista, continuará produzindo notáveis especialistas em doenças. Formar médicos capazes de compreender integralmente a pessoa humana ainda será uma tarefa em aberto.
