27 julho 2026

Tarja preta não cura a alma


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos numa época em que a dor humana parece ter perdido o direito de existir sem receber imediatamente um diagnóstico estranho.

De repente, para o facultativo da esquisita psiquiatria materialista, a tristeza transforma-se em depressão. A inquietação converte-se em transtorno. A dificuldade de concentração ganha um rótulo de “transtorno”. O luto, muitas vezes, é tratado como disfunção. E, diante de cada sofrimento, apresenta-se uma solução aparentemente simples: uma classificação clínica e uma receita.

Não se trata de negar a medicina autêntica, indispor a psiquiatria ou demonizar os neurolépticos, ansiolíticos e benzodiazepínicos . Em inúmeras circunstâncias, eles reduzem sofrimentos, controlam crises, estabilizam quadros graves e podem ser indispensáveis. Negar isso seria insensatez.

Mas também é irresponsável transformar a farmacologia em resposta absoluta para todos os dramas da existência. Um comprimidinho  pode atuar sobre mecanismos biológicos, reduzir sintomas e favorecer o equilíbrio clínico. Entretanto, não reconstrói vínculos afetivos destruídos. Não elimina automaticamente a culpa. Não devolve sentido à vida. Não ensina a perdoar. Não produz fraternidade. Não realiza a reforma moral.

O medicamento, em alguns casos, pode ser necessário, mas não é onipotente. O problema começa quando o ser humano é reduzido ao cérebro e a consciência passa a ser tratada como simples produto da atividade neuronal. O materialismo pretende explicar o pensamento pela química, a personalidade pelos circuitos cerebrais e os sentimentos pelas reações orgânicas.

Essa visão pode descrever mecanismos biológicos, mas não explica integralmente a consciência, o amor, a responsabilidade moral, o sacrifício, a esperança nem a necessidade humana de encontrar significado para a existência.

O Espiritismo amplia essa compreensão. Para Allan Kardec, o homem não é apenas organismo. É Espírito imortal, temporariamente ligado ao corpo. O cérebro constitui instrumento indispensável à manifestação da inteligência durante a vida física, mas não representa necessariamente sua origem absoluta.

O homem não é apenas um cérebro que produz espiritualidade. É um Espírito que utiliza o cérebro para manifestar-se na matéria. Essa concepção não despreza a ciência legítima e menos materialista. Reconhece a influência relativa da genética, da neurologia, dos hormônios, dos traumas, do ambiente social e das experiências psicológicas. Entretanto, recusa a redução de toda a realidade humana à química cerebral.

Há dores que os exames médicos não alcançam. Nenhuma tomografia revela a ausência de propósito. Nenhum exame laboratorial mede a solidão moral. Nenhuma fórmula química produz consciência, maturidade ou responsabilidade.

Também é preciso questionar a sociedade que fabrica parte do sofrimento que depois tenta medicar. O jovem é submetido à comparação permanente das redes sociais. O adulto é consumido pela produtividade. As famílias se fragmentam. Os vínculos se enfraquecem. O idoso é frequentemente abandonado.

Depois, quando surgem ansiedade, esgotamento e desesperança, procura-se uma solução rápida para o indivíduo. Pouco se questiona o ambiente que adoece. Pouco se investe na reconstrução dos vínculos. A sociedade adoece coletivamente, mas o indivíduo é medicado isoladamente.

Isso não significa atribuir toda enfermidade mental a processos obsessivos. Tal simplificação é tão perigosa quanto o reducionismo materialista. Afirmar que toda dor psíquica é apenas desequilíbrio químico é reduzir o homem ao cérebro.

Afirmar que toda doença mental é obsessão é transformar o enfermo em “obsidiado”. Ambos os extremos ignoram a complexidade humana. A Casa Espírita não substitui médicos, psicólogos ou psiquiatras. Portanto, obviamente não lhe compete prescrever medicamentos, recomendar sua suspensão nem emitir diagnósticos clínicos.

A fé não autoriza a imprudência. A prece não substitui o médico. O passe não substitui a psicoterapia. Mas a medicina também não substitui o amor, o pertencimento, a esperança e a transformação moral.

A ciência deve continuar avançando, mas não pode perder a humanidade.

A espiritualidade deve iluminar a existência, mas não pode desprezar a razão. Antes do diagnóstico, existe uma pessoa. Antes do sintoma, existe uma história. E, além do corpo transitório, existe o Espírito imortal.

A tarja preta pode aliviar a dor. Pode controlar sintomas. Pode ser indispensável. Mas não cura a mente, apenas alivia a dor, mas não alcança as feridas da alma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.