Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A humanidade não recebeu
a verdade de uma só vez. A Lei Divina, eterna e imutável, foi sendo apresentada
aos homens de acordo com sua capacidade de compreendê-la. Moisés estabeleceu a
ideia de um Deus único e impôs, dentro das circunstâncias históricas de seu
tempo, leis capazes de disciplinar um povo ainda submetido ao politeísmo e à
violência. Jesus, entretanto, elevou a compreensão humana ao patamar do amor,
da fraternidade e da misericórdia. O Espiritismo, por sua vez, surge como a
Terceira Revelação, não para substituir o Cristo, mas para explicar,
desenvolver e demonstrar racionalmente os fundamentos de sua mensagem.
Há, contudo, uma
diferença essencial. Moisés personificou a primeira revelação; Jesus é o guia e
modelo da humanidade. A Terceira Revelação não possui um único revelador
humano. Allan Kardec não é o autor da Doutrina Espírita, mas seu codificador.
Sua grandeza está precisamente em ter submetido os ensinamentos dos Espíritos
ao crivo da razão, da lógica e da universalidade, organizando-os em um corpo
doutrinário coerente. O Espiritismo é, portanto, uma doutrina de origem
espiritual e elaboração humana criteriosa, cuja autoridade não repousa no
prestígio pessoal de indivíduos, mas na consistência de seus princípios e na
concordância universal dos ensinamentos.
A revelação espírita
apresenta-se como progressiva e racional. Por isso, não teme o avanço da
ciência nem transforma opiniões particulares em dogmas. Kardec foi categórico
ao afirmar que, se a Ciência demonstrar que o Espiritismo está errado em
determinado ponto, a Doutrina deverá modificar-se nesse ponto. Essa postura é
incompatível com o fanatismo e demonstra que a fé espírita não exige renúncia à
inteligência. Ao contrário: convida o ser humano a pensar, investigar e
compreender.
Se o ensinamento mosaico
destacou a justiça e o Cristo revelou o amor, o Espiritismo oferece a chave
racional para compreender a justiça e o amor divinos. A reencarnação, a lei de
causa e efeito, a imortalidade da alma e a pluralidade das existências explicam,
sob nova perspectiva, as aparentes desigualdades da vida e demonstram que
ninguém está abandonado ao acaso. A existência corporal deixa de ser um
episódio isolado e passa a integrar o longo processo educativo pelo qual o
Espírito conquista, gradualmente, sua própria evolução.
A mediunidade, por sua
vez, não nasceu com o Espiritismo. Sempre esteve presente na história religiosa
da humanidade. A contribuição da Doutrina Espírita foi estudá-la de maneira
sistemática, retirando-a do domínio do mistério e submetendo seus fenômenos à
observação e ao discernimento. Contudo, mediunidade sem responsabilidade moral
é apenas fenômeno; mediunidade sem estudo pode transformar-se em superstição; e
mediunidade utilizada para fins comerciais contradiz frontalmente os
fundamentos espíritas.
A Terceira Revelação,
portanto, não autoriza o culto a personalidades, a criação de novos
sacerdócios, a institucionalização de práticas estranhas à Codificação ou a
transformação do Espiritismo em espetáculo religioso. O centro da Doutrina é o
conhecimento das leis divinas e a renovação moral do indivíduo. Tudo o que se
afasta desse objetivo deve ser examinado com rigor.
O Espiritismo não veio
para abolir o Evangelho, mas para torná-lo mais compreensível à consciência
contemporânea. Jesus continua sendo o eixo moral da Doutrina, enquanto Allan
Kardec permanece o Codificador responsável pela estruturação do conhecimento espírita.
Confundir esses papéis é erro doutrinário; diminuir qualquer um deles é
desconhecer a própria lógica da revelação.
A grandeza da Terceira
Revelação está, finalmente, em unir aquilo que durante séculos muitos
consideraram incompatível: fé e razão, espiritualidade e conhecimento,
Evangelho e investigação. Ela nos ensina que acreditar não basta. É necessário
compreender; compreender não basta. É necessário transformar-se.
A verdadeira finalidade
do Espiritismo não é produzir admiradores de Kardec, médiuns famosos ou
oradores celebrizados. É formar consciências livres, responsáveis e moralmente
renovadas. A revelação somente cumpre sua finalidade quando o conhecimento da imortalidade
se converte em responsabilidade, quando a certeza da reencarnação produz
perseverança e quando a compreensão da justiça divina desperta, no coração
humano, o compromisso efetivo com o bem.
A Terceira Revelação é,
assim, um chamado à maturidade espiritual. Não nos convida a temer, nem a crer
cegamente, mas a compreender para amar melhor e a amar para servir. Sua
mensagem permanece atual porque aponta para uma verdade essencial: somos Espíritos
imortais, responsáveis por nossa própria evolução, e a maior prova de que
compreendemos a verdade espiritual será sempre a transformação concreta de
nossa própria conduta.
Referências Bibliográficas:
KARDEC,
Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Rio
de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
KARDEC,
Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira.
KARDEC,
Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira.
KARDEC,
Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira.
KARDEC,
Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
XAVIER,
Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André
Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
XAVIER,
Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz.
Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
