22 julho 2026

"Arraiá" no centro espírita?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há algo profundamente contraditório no Movimento Espírita brasileiro contemporâneo. Enquanto alguns dirigentes afirmam defender a pureza doutrinária, a fidelidade a Allan Kardec e a necessidade de preservar a identidade do Espiritismo, multiplicam-se, em certas instituições, práticas que nada tem a ver com a finalidade essencial da Doutrina.

Chegam os meses de junho e julho e, em determinados centros espíritas, surgem bandeirinhas, barracas, comidas típicas, músicas, quadrilhas, brincadeiras e os tradicionais "arraiais". Em alguns casos, a casa espírita parece transformar-se, por algumas horas, em uma réplica das quermesses religiosas que fazem parte da cultura brasileira.

E então cabe perguntar, sem rodeios:

O que exatamente estamos fazendo?

Não se trata de arguir a cultura popular. Ninguém precisa ser contra as festas juninas ou julinas realizadas por famílias, escolas, clubes e associações comunitárias. A cultura brasileira merece respeito. O problema começa quando uma instituição que se apresenta como espírita passa a incorporar, como atividade institucional, práticas que não decorrem da Doutrina Espírita.

É preciso ter coragem para fazer essa distinção. Centro espírita não é clube recreativo. Não é quermesse religiosa. Não é associação folclórica. Não é espaço destinado a reproduzir tradições confessionais.  Sua finalidade é outra.

A casa espírita deve ser uma oficina de almas, um núcleo de estudo, de educação espiritual, de renovação moral e de serviço ao próximo. É o lugar onde o indivíduo busca compreender a si mesmo, a vida, a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito e a responsabilidade diante da própria existência.

Quando o centro espírita passa a organizar eventos que reproduzem tradições estranhas à sua identidade doutrinária, corre o risco de contribuir para aquilo que Allan Kardec sempre procurou evitar: a confusão entre o Espiritismo e as manifestações religiosas tradicionais.

O argumento de que "é apenas uma confraternização" não encerra a questão. A forma também educa.

Uma criança que frequenta a evangelização e, posteriormente, participa de um arraial promovido pelo próprio centro pode perfeitamente concluir que aquela festa faz parte da identidade espírita. O visitante que chega pela primeira vez poderá imaginar que encontrou apenas mais uma expressão religiosa tradicional, com suas festas e costumes próprios.

E assim, pouco a pouco, o Espiritismo vai perdendo sua fisionomia. Primeiro, introduz-se uma prática "inofensiva". Depois, outra. Em seguida, alguém argumenta que "sempre foi assim". Finalmente, aquilo que nunca pertenceu à Doutrina passa a ser defendido como tradição institucional.

É assim que nascem os sincretismos. A história das religiões demonstra que a descaracterização raramente acontece de uma vez. Ela ocorre gradualmente, pela soma de pequenas concessões.

Hoje é o arraial. Amanhã, outra prática. Depois, outra. E, quando percebemos, temos uma instituição que conserva o nome "espírita", mas cuja dinâmica interna já se encontra distante da simplicidade e da racionalidade propostas por Kardec.

Outro argumento recorrente é a necessidade de arrecadar recursos.

Mas precisamos perguntar: até onde uma instituição espírita deve ir para arrecadar dinheiro? Se a necessidade financeira justificar qualquer atividade, amanhã estaremos legitimando toda sorte de iniciativas em nome da manutenção da casa. E, nesse caso, a finalidade passa a justificar os meios. Não deveria ser assim.

A Doutrina Espírita ensina a caridade, a solidariedade e o desprendimento. Uma instituição que necessita de recursos pode promover campanhas, bazares, almoços beneficentes, feiras de livros, ações solidárias e inúmeras outras atividades compatíveis com sua finalidade. Não há necessidade de reproduzir festas de natureza religiosa ou folclórica para manter uma casa espírita.

É preciso também reconhecer que o problema não está na bandeirinha, na canjica ou no milho cozido. O problema é a perda gradual do senso de identidade.

Não se trata de transformar a casa espírita em um ambiente sisudo, triste ou sem alegria. Muito pelo contrário. A alegria cristã é legítima. A fraternidade é indispensável. A convivência é saudável. Mas uma coisa é confraternizar entre irmãos. Outra, muito diferente, é importar para dentro da instituição espírita uma estrutura festiva que não possui fundamento na Codificação e que pode ser facilmente confundida com práticas de outras tradições religiosas.

Allan Kardec não fundou uma religião de cerimônias, festas e rituais. O Espiritismo não precisa de símbolos externos para existir. Não necessita de procissões, imagens, altares, velas, incensos, sacramentos ou festas religiosas.

Sua força está na verdade que esclarece e na caridade que transforma.

Por isso, a questão merece ser enfrentada com seriedade pelos dirigentes espíritas:

Queremos um Movimento Espírita fiel a Kardec ou um movimento cada vez mais adaptado aos costumes do ambiente religioso brasileiro?

Porque, se tudo pode ser introduzido em uma casa espírita em nome da tradição, da confraternização ou da arrecadação, então precisamos admitir que a expressão "fidelidade doutrinária" está se tornando apenas retórica.

O Espiritismo não precisa de arraiais para atrair pessoas. Não precisa de quermesses para sobreviver. Não precisa copiar tradições religiosas para ser acolhedor. Não precisa de espetáculos para ser amado. Precisa, isto sim, de espíritas conscientes, estudiosos, honestos e comprometidos com a transformação moral.

É hora de perguntar: até quando permitiremos que a identidade espírita seja lentamente diluída em nome de uma falsa necessidade de agradar a todos?

O Movimento Espírita brasileiro precisa recuperar a coragem de dizer "não" ao que não lhe pertence.

Não por intolerância. Não por sectarismo. Não por fanatismo. Mas por coerência.

Quem escolhe chamar sua instituição de espírita assume uma responsabilidade histórica: preservar, estudar e divulgar a Doutrina que Allan Kardec codificou.

A casa espírita pode ser alegre sem ser festiva no sentido mundano. Pode ser acolhedora sem ser sincrética. Pode ser fraterna sem reproduzir tradições alheias. Pode arrecadar recursos sem transformar sua identidade em moeda de troca.

O Espiritismo não precisa de arraiais. Precisa de consciência.  Precisa de estudo sério. Precisa de trabalhadores comprometidos. Precisa de médiuns responsáveis. Precisa de caridade legítima. Precisa de Evangelho vivido.

E, sobretudo, precisa de espíritas que compreendam que fidelidade doutrinária não é um detalhe secundário: é o compromisso mínimo de quem se propõe a representar o Espiritismo perante a sociedade.

Porque, quando uma casa espírita começa a parecer mais preocupada em reproduzir as tradições do mundo do que em viver os princípios da Doutrina, talvez seja o momento de fazer a pergunta que ninguém deveria temer:

Ainda estamos preservando a Doutrina dos Espíritos ou apenas conservando a fachada "espírita"?