Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há algo profundamente
contraditório no Movimento Espírita brasileiro contemporâneo. Enquanto alguns
dirigentes afirmam defender a pureza doutrinária, a fidelidade a Allan Kardec e
a necessidade de preservar a identidade do Espiritismo, multiplicam-se, em
certas instituições, práticas que nada tem a ver com a finalidade essencial da
Doutrina.
Chegam os meses de junho
e julho e, em determinados centros espíritas, surgem bandeirinhas, barracas,
comidas típicas, músicas, quadrilhas, brincadeiras e os tradicionais
"arraiais". Em alguns casos, a casa espírita parece transformar-se,
por algumas horas, em uma réplica das quermesses religiosas que fazem parte da
cultura brasileira.
E então cabe perguntar,
sem rodeios:
O que exatamente estamos
fazendo?
Não se trata de arguir a
cultura popular. Ninguém precisa ser contra as festas juninas ou julinas
realizadas por famílias, escolas, clubes e associações comunitárias. A cultura
brasileira merece respeito. O problema começa quando uma instituição que se
apresenta como espírita passa a incorporar, como atividade
institucional, práticas que não decorrem da Doutrina Espírita.
É preciso ter coragem
para fazer essa distinção. Centro espírita não é clube recreativo. Não é
quermesse religiosa. Não é associação folclórica. Não é espaço destinado a
reproduzir tradições confessionais. Sua
finalidade é outra.
A casa espírita deve ser
uma oficina de almas, um núcleo de estudo, de educação espiritual, de renovação
moral e de serviço ao próximo. É o lugar onde o indivíduo busca compreender a
si mesmo, a vida, a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e
efeito e a responsabilidade diante da própria existência.
Quando o centro espírita
passa a organizar eventos que reproduzem tradições estranhas à sua identidade
doutrinária, corre o risco de contribuir para aquilo que Allan Kardec sempre
procurou evitar: a confusão entre o Espiritismo e as manifestações
religiosas tradicionais.
O argumento de que
"é apenas uma confraternização" não encerra a questão. A forma também
educa.
Uma criança que frequenta
a evangelização e, posteriormente, participa de um arraial promovido pelo
próprio centro pode perfeitamente concluir que aquela festa faz parte da
identidade espírita. O visitante que chega pela primeira vez poderá imaginar
que encontrou apenas mais uma expressão religiosa tradicional, com suas festas
e costumes próprios.
E assim, pouco a pouco, o
Espiritismo vai perdendo sua fisionomia. Primeiro, introduz-se uma prática
"inofensiva". Depois, outra. Em seguida, alguém argumenta que
"sempre foi assim". Finalmente, aquilo que nunca pertenceu à Doutrina
passa a ser defendido como tradição institucional.
É assim que nascem os
sincretismos. A história das religiões demonstra que a
descaracterização raramente acontece de uma vez. Ela ocorre gradualmente, pela
soma de pequenas concessões.
Hoje é o arraial. Amanhã,
outra prática. Depois, outra. E, quando percebemos, temos uma instituição que
conserva o nome "espírita", mas cuja dinâmica interna já se encontra
distante da simplicidade e da racionalidade propostas por Kardec.
Outro argumento
recorrente é a necessidade de arrecadar recursos.
Mas precisamos perguntar:
até onde uma instituição espírita deve ir para arrecadar dinheiro? Se a
necessidade financeira justificar qualquer atividade, amanhã estaremos
legitimando toda sorte de iniciativas em nome da manutenção da casa. E, nesse
caso, a finalidade passa a justificar os meios. Não deveria ser assim.
A Doutrina Espírita
ensina a caridade, a solidariedade e o desprendimento. Uma instituição que
necessita de recursos pode promover campanhas, bazares, almoços beneficentes,
feiras de livros, ações solidárias e inúmeras outras atividades compatíveis com
sua finalidade. Não há necessidade de reproduzir festas de natureza religiosa
ou folclórica para manter uma casa espírita.
É preciso também
reconhecer que o problema não está na bandeirinha, na canjica ou no milho
cozido. O problema é a perda gradual do senso de identidade.
Não se trata de
transformar a casa espírita em um ambiente sisudo, triste ou sem alegria. Muito
pelo contrário. A alegria cristã é legítima. A fraternidade é indispensável. A
convivência é saudável. Mas uma coisa é confraternizar entre irmãos. Outra,
muito diferente, é importar para dentro da instituição espírita uma estrutura
festiva que não possui fundamento na Codificação e que pode ser facilmente
confundida com práticas de outras tradições religiosas.
Allan Kardec não fundou
uma religião de cerimônias, festas e rituais. O Espiritismo não precisa de
símbolos externos para existir. Não necessita de procissões, imagens, altares,
velas, incensos, sacramentos ou festas religiosas.
Sua força está na verdade
que esclarece e na caridade que transforma.
Por isso, a questão
merece ser enfrentada com seriedade pelos dirigentes espíritas:
Queremos um Movimento
Espírita fiel a Kardec ou um movimento cada vez mais adaptado aos costumes do
ambiente religioso brasileiro?
Porque, se tudo pode ser
introduzido em uma casa espírita em nome da tradição, da confraternização ou da
arrecadação, então precisamos admitir que a expressão "fidelidade
doutrinária" está se tornando apenas retórica.
O Espiritismo não precisa
de arraiais para atrair pessoas. Não precisa de quermesses para sobreviver. Não
precisa copiar tradições religiosas para ser acolhedor. Não precisa de
espetáculos para ser amado. Precisa, isto sim, de espíritas conscientes,
estudiosos, honestos e comprometidos com a transformação moral.
É hora de perguntar: até
quando permitiremos que a identidade espírita seja lentamente diluída em nome
de uma falsa necessidade de agradar a todos?
O Movimento Espírita
brasileiro precisa recuperar a coragem de dizer "não" ao que não lhe
pertence.
Não por intolerância. Não
por sectarismo. Não por fanatismo. Mas por coerência.
Quem escolhe chamar sua
instituição de espírita assume uma responsabilidade histórica: preservar,
estudar e divulgar a Doutrina que Allan Kardec codificou.
A casa espírita pode ser
alegre sem ser festiva no sentido mundano. Pode ser acolhedora sem ser
sincrética. Pode ser fraterna sem reproduzir tradições alheias. Pode arrecadar
recursos sem transformar sua identidade em moeda de troca.
O Espiritismo não precisa
de arraiais. Precisa de consciência. Precisa
de estudo sério. Precisa de trabalhadores comprometidos. Precisa de médiuns
responsáveis. Precisa de caridade legítima. Precisa de Evangelho vivido.
E, sobretudo, precisa de
espíritas que compreendam que fidelidade doutrinária não é um detalhe
secundário: é o compromisso mínimo de quem se propõe a representar o
Espiritismo perante a sociedade.
Porque, quando uma casa
espírita começa a parecer mais preocupada em reproduzir as tradições do mundo
do que em viver os princípios da Doutrina, talvez seja o momento de fazer a
pergunta que ninguém deveria temer:
Ainda estamos preservando
a Doutrina dos Espíritos ou apenas conservando a fachada "espírita"?
