Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A tribuna espírita não é
palco de prestígio pessoal, mas espaço de serviço ao Cristo, destinado à
divulgação da Doutrina Espírita e à edificação moral. Por isso, expositores e
dirigentes são chamados não apenas a conhecer os princípios doutrinários, mas a
esforçar-se por vivê-los.
No movimento espírita,
por vezes, palestrantes ou dirigentes que enfrentaram sérios insucessos
familiares são convidados para abordar temas como casamento, educação
dos filhos ou harmonia no lar. Essa realidade não deve ser analisada com
espírito de condenação, pois todos somos Espíritos imperfeitos em aprendizado.
Contudo, merece reflexão sob a ótica da coerência moral.
Allan Kardec jamais
exigiu perfeição dos trabalhadores da seara espírita. Em O Evangelho segundo
o Espiritismo (cap. XVII), ensina que o verdadeiro espírita se distingue
pelo esforço constante em vencer suas más inclinações e promover sua
transformação moral. A autoridade espiritual não nasce da impecabilidade, mas
da coerência entre a palavra e a conduta.
Existe diferença entre
quem enfrentou fracassos familiares, reconheceu seus equívocos, aprendeu com
eles e busca reconstruir a própria vida, e quem negligencia deliberadamente os
deveres do lar enquanto pretende ensinar aos outros princípios que não procura
vivenciar.
A família constitui a
primeira escola do Espírito reencarnado. No Livro dos Espíritos
(questões 773 a 775), Kardec demonstra que os laços familiares são instrumentos
da Lei Divina para o progresso moral. Emmanuel, por sua vez, define o lar como
a primeira oficina de redenção da alma.
O expositor espírita
não precisa apresentar-se como modelo acabado, mas deve testemunhar sincero
empenho em viver aquilo que recomenda. Jesus ensinava porque sua vida
confirmava suas palavras, e os primeiros cristãos convenceram muito mais pelo
testemunho do que pela eloquência.
Isso não significa
excluir dos trabalhos doutrinários aqueles que passaram por separações ou
dificuldades conjugais. Muitas circunstâncias — violência, abandono ou
incompatibilidades profundas — podem conduzir ao rompimento de um casamento sem
culpa exclusiva de uma das partes. A Doutrina Espírita recomenda sempre
equilíbrio, misericórdia e prudência.
Entretanto, ao
escolher expositores para temas relacionados à família, parece sensato que
as instituições espíritas considerem também o testemunho existencial de quem
ocupará a tribuna. Não se trata de exigir perfeição, mas de reconhecer o
valor pedagógico do exemplo.
Paulo de Tarso
recomendava que o cristão fosse "modelo dos fiéis na palavra, no
procedimento, no amor, na fé e na pureza" (1Tm 4:12). Emmanuel sintetiza
esse princípio ao afirmar que "a palavra convence, mas o exemplo
arrasta". A verdadeira liderança espírita fundamenta-se na credibilidade
construída pela vida.
O movimento espírita deve
evitar dois extremos: exigir perfeição absoluta dos trabalhadores ou
desprezar completamente a importância do testemunho moral. O caminho
espírita é o equilíbrio, em que humildade, responsabilidade e esforço de
renovação legitimam a palavra.
Ao abordar casamento,
educação dos filhos e convivência familiar, convém que os dirigentes escolham,
com discernimento, aqueles que possam oferecer não apenas conhecimento
doutrinário, mas também um testemunho compatível com a mensagem transmitida.
Antes da eloquência, vem o exemplo; antes do brilho intelectual, a vivência do
Evangelho. Como ensinou Kardec, o verdadeiro espírita distingue-se por sua transformação
moral
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: FEB.
XAVIER, Francisco
Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.
BÍBLIA. Bíblia 1
Timóteo 4:12.
