16 julho 2026

A tribuna espírita, o exemplo e a responsabilidade na preservação da família


  


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tribuna espírita não é palco de prestígio pessoal, mas espaço de serviço ao Cristo, destinado à divulgação da Doutrina Espírita e à edificação moral. Por isso, expositores e dirigentes são chamados não apenas a conhecer os princípios doutrinários, mas a esforçar-se por vivê-los.

No movimento espírita, por vezes, palestrantes ou dirigentes que enfrentaram sérios insucessos familiares são convidados para abordar temas como casamento, educação dos filhos ou harmonia no lar. Essa realidade não deve ser analisada com espírito de condenação, pois todos somos Espíritos imperfeitos em aprendizado. Contudo, merece reflexão sob a ótica da coerência moral.

Allan Kardec jamais exigiu perfeição dos trabalhadores da seara espírita. Em O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII), ensina que o verdadeiro espírita se distingue pelo esforço constante em vencer suas más inclinações e promover sua transformação moral. A autoridade espiritual não nasce da impecabilidade, mas da coerência entre a palavra e a conduta.

Existe diferença entre quem enfrentou fracassos familiares, reconheceu seus equívocos, aprendeu com eles e busca reconstruir a própria vida, e quem negligencia deliberadamente os deveres do lar enquanto pretende ensinar aos outros princípios que não procura vivenciar.

A família constitui a primeira escola do Espírito reencarnado. No Livro dos Espíritos (questões 773 a 775), Kardec demonstra que os laços familiares são instrumentos da Lei Divina para o progresso moral. Emmanuel, por sua vez, define o lar como a primeira oficina de redenção da alma.

O expositor espírita não precisa apresentar-se como modelo acabado, mas deve testemunhar sincero empenho em viver aquilo que recomenda. Jesus ensinava porque sua vida confirmava suas palavras, e os primeiros cristãos convenceram muito mais pelo testemunho do que pela eloquência.

Isso não significa excluir dos trabalhos doutrinários aqueles que passaram por separações ou dificuldades conjugais. Muitas circunstâncias — violência, abandono ou incompatibilidades profundas — podem conduzir ao rompimento de um casamento sem culpa exclusiva de uma das partes. A Doutrina Espírita recomenda sempre equilíbrio, misericórdia e prudência.

Entretanto, ao escolher expositores para temas relacionados à família, parece sensato que as instituições espíritas considerem também o testemunho existencial de quem ocupará a tribuna. Não se trata de exigir perfeição, mas de reconhecer o valor pedagógico do exemplo.

Paulo de Tarso recomendava que o cristão fosse "modelo dos fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza" (1Tm 4:12). Emmanuel sintetiza esse princípio ao afirmar que "a palavra convence, mas o exemplo arrasta". A verdadeira liderança espírita fundamenta-se na credibilidade construída pela vida.

O movimento espírita deve evitar dois extremos: exigir perfeição absoluta dos trabalhadores ou desprezar completamente a importância do testemunho moral. O caminho espírita é o equilíbrio, em que humildade, responsabilidade e esforço de renovação legitimam a palavra.

Ao abordar casamento, educação dos filhos e convivência familiar, convém que os dirigentes escolham, com discernimento, aqueles que possam oferecer não apenas conhecimento doutrinário, mas também um testemunho compatível com a mensagem transmitida. Antes da eloquência, vem o exemplo; antes do brilho intelectual, a vivência do Evangelho. Como ensinou Kardec, o verdadeiro espírita distingue-se por sua transformação moral

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

BÍBLIA. Bíblia 1 Timóteo 4:12.