15 julho 2026

Álcool: o primeiro gole e a escravidão invisível — reflexões à luz da ciência e do Espiritismo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"O vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio." (Provérbios 20:1)

A preocupação com os efeitos do álcool acompanha a humanidade há milênios. Muito antes da Medicina comprovar os prejuízos fisiológicos e psicológicos decorrentes do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a sabedoria bíblica já advertia quanto ao seu poder de ilusão e degradação moral. O Evangelho registra igualmente que João Batista "não beberá vinho nem bebida forte" (Lc 1:15), evidenciando um ideal de disciplina e sobriedade compatível com sua elevada missão espiritual.

Passados mais de dois mil anos, o alcoolismo permanece entre os maiores desafios da saúde pública mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso nocivo do álcool está associado a mais de 3 milhões de mortes anuais, correspondendo a cerca de 5% de todos os óbitos no planeta, além de contribuir para mais de duzentas enfermidades, acidentes de trânsito, violência doméstica, suicídios e diversas formas de incapacidade física e mental.

No Brasil, a situação igualmente preocupa. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) revelam que milhões de brasileiros fazem uso abusivo de bebidas alcoólicas, iniciando frequentemente o consumo ainda na adolescência. O álcool permanece como a substância psicoativa de maior consumo no país, apesar dos amplos conhecimentos científicos acerca de seus efeitos deletérios.

Boa parte dessa realidade decorre da forte influência cultural e mercadológica. A publicidade sofisticada associa o consumo de bebidas ao sucesso, à felicidade, ao esporte, à juventude e ao convívio social, ocultando deliberadamente os elevados custos humanos e sociais da dependência química. O primeiro gole raramente é apresentado como o início de um processo que pode culminar na perda da liberdade psicológica, familiar e espiritual.

Sob a ótica espírita, o problema adquire dimensões ainda mais profundas. O Espírito Victor Hugo, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, observa que a recuperação do alcoolista exige não apenas tratamento médico, mas intenso esforço moral e espiritual, uma vez que a dependência frequentemente se entrelaça com processos obsessivos, favorecidos pela intoxicação contínua do organismo e pelo rebaixamento vibratório do indivíduo.

A Doutrina Espírita ensina que o perispírito reflete diretamente os estados mentais do ser humano. Toda substância tóxica ingerida de maneira habitual repercute não apenas no corpo físico, mas também nos delicados mecanismos psíquicos, dificultando o autocontrole, a lucidez e a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

Joanna de Ângelis adverte com notável sabedoria: "A pretexto de comemorações, festas ou decisões, não nos comprometamos com o hábito da bebida."

Seu ensinamento permanece extremamente atual. Os grandes vícios quase nunca começam por excessos. Iniciam-se, quase sempre, pelo famoso "apenas hoje", pelo "somente um gole", pelo "comigo não acontecerá". O oceano, lembra a benfeitora, é formado por pequenas gotas.

Infelizmente, ainda existem pessoas que procuram justificar o consumo de bebidas alcoólicas mediante argumentos frágeis: "todo mundo bebe"; "uma taça faz bem ao coração"; "apenas socialmente"; "eu tenho controle". Tais racionalizações ignoram que a dependência química normalmente se instala de forma gradual e silenciosa.

Sob o ponto de vista científico, inclusive, antigos estudos que sugeriam benefícios cardiovasculares do consumo moderado foram amplamente reavaliados. Pesquisas mais recentes publicadas em periódicos internacionais indicam que não existe nível de consumo completamente isento de riscos para diversas doenças, especialmente alguns tipos de câncer, doenças hepáticas e transtornos neurológicos.

No meio espírita, essa reflexão torna-se ainda mais necessária. A coerência doutrinária exige que o conhecimento adquirido seja convertido em prática cotidiana. Não basta reconhecer os prejuízos do álcool em palestras ou estudos se, nas confraternizações sociais, prevalece o comportamento oposto. Como oportunamente advertiu o jornal Mundo Espírita, existe o risco de se construir uma "doutrina de conveniência", distinta daquela efetivamente vivida.

A prevenção continua sendo o caminho mais seguro. A família desempenha papel decisivo na formação dos hábitos dos filhos. Estudos mostram que quanto mais precoce ocorre o primeiro contato com bebidas alcoólicas, maior é a probabilidade de desenvolvimento de dependência na vida adulta. A banalização do álcool no ambiente doméstico reduz a percepção de risco entre adolescentes e favorece comportamentos futuros de abuso.

À luz do Espiritismo, a verdadeira liberdade consiste no domínio de si mesmo. O homem verdadeiramente livre não é aquele que pode beber quando deseja, mas aquele que é capaz de dizer "não" às próprias inclinações inferiores.

A disciplina dos pensamentos, dos sentimentos e dos hábitos constitui uma das expressões mais importantes da reforma íntima. Como ensina Samuel Hahnemann em O Evangelho segundo o Espiritismo, "o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso; aquele que deseja corrigir-se sempre o pode". A lei do progresso jamais condena; convida continuamente ao esforço de renovação moral.

Muito além de uma questão de saúde, o alcoolismo representa um desafio ético, psicológico e espiritual. A verdadeira prevenção começa pela educação da consciência e pelo cultivo permanente do equilíbrio, da vigilância e da responsabilidade perante a própria vida.

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

FRANCO, Divaldo Pereira. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: LEAL, várias edições.

FRANCO, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Brasília: FEB, várias edições.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Status Report on Alcohol and Health and Treatment of Substance Use Disorders 2024. Genebra: WHO, 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA. Consumo de álcool e doenças hepáticas: recomendações atuais. São Paulo, 2023