11 julho 2026

Cromoterapia na Casa Espírita: Um Sistema sem Amparo na Codificação Kardequiana

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra Plenitude. Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.

Em Plenitude, Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

A questão decisiva, portanto, não é o que um autor espiritual menciona incidentalmente, mas o critério metodológico definido por Allan Kardec para preservar a identidade doutrinária.

No Livro dos Médiuns, ao tratar da formação e direção das reuniões espíritas, Kardec adverte que elas não devem converter-se em campo para experiências pessoais nem para a divulgação de sistemas particulares. Ao analisar as comunicações apócrifas e as teorias individuais, recomenda prudência extrema diante das novidades, lembrando que o entusiasmo e a boa-fé não bastam para legitimar uma ideia. O Codificador ensina que a Doutrina deve submeter todas as proposições ao exame da razão, da lógica e da concordância universal do ensino dos Espíritos, jamais à autoridade isolada de um médium, dirigente ou expositor.

No capítulo XXVII de O Livro dos Médiuns, Kardec é incisivo ao afirmar que é preferível rejeitar diversas verdades do que admitir uma única teoria falsa, pois um único erro pode comprometer a solidez do conjunto doutrinário. Essa orientação revela o rigor metodológico que caracteriza o Espiritismo.

Na Revista Espírita, Kardec retorna repetidamente ao mesmo princípio. Ao discutir o desenvolvimento da Doutrina, adverte que a tendência à formação de sistemas constitui um dos maiores perigos para a Ciência Espírita, porque cada pessoa tende a absolutizar suas próprias interpretações. Por essa razão, insiste que nenhuma teoria particular deve ser incorporada ao Espiritismo sem a confirmação do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, fundamento metodológico apresentado em A Gênese e aplicado ao longo de toda a Codificação.

Nas páginas da Revista Espírita (1858–1869), Kardec combate sucessivamente as teorias exclusivistas, os métodos pessoais e as pretensões de reformar o Espiritismo mediante práticas estranhas ao seu objeto. Seu entendimento é inequívoco: o Espiritismo não deve absorver sistemas filosóficos, terapêuticos ou místicos apenas porque parecem úteis ou porque foram defendidos por médiuns respeitáveis. A autoridade doutrinária decorre da universalidade, da racionalidade e da concordância dos ensinos, nunca da opinião individual.

Esse critério aplica-se integralmente à cromoterapia. Ainda que possa ser estudada ou utilizada no campo das terapias complementares, não existe na Codificação qualquer fundamento para elevá-la à condição de prática espírita institucional.

As obras de André Luiz confirmam essa orientação. Em Missionários da Luz e Nos Domínios da Mediunidade, encontram-se descrições minuciosas do passe, do magnetismo, da fluidoterapia espiritual, da prece e da cooperação dos benfeitores desencarnados. Em nenhuma dessas obras aparece a cromoterapia como recurso próprio da Casa Espírita.

Emmanuel igualmente reafirma que a missão do Espiritismo consiste na educação moral do Espírito. A instituição espírita é escola do Evangelho, oficina de renovação íntima e núcleo de esclarecimento espiritual, não laboratório destinado à experimentação de métodos terapêuticos.

Também merece registro o fato de Divaldo Pereira Franco, durante décadas intérprete da obra de Joanna de Ângelis, jamais ter transformado a cromoterapia em serviço doutrinário permanente da Mansão do Caminho. Se Joanna pretendesse institucionalizar essa prática, seria natural que essa orientação se refletisse na principal obra assistencial vinculada ao seu pensamento.

Nada impede que profissionais habilitados utilizem terapias complementares em suas atividades particulares. Contudo, confundir iniciativas privadas com a prática espírita significa descaracterizar a finalidade da Casa Espírita e romper o critério metodológico estabelecido por Allan Kardec.

A fidelidade à Codificação exige distinguir o que pertence ao campo da saúde do que integra efetivamente a Doutrina Espírita. Respeitar Joanna de Ângelis é lê-la em seu contexto. Respeitar Kardec é preservar a Casa Espírita como ele a concebeu: um núcleo de estudo, evangelização, fraternidade, passe, prece e transformação moral. Todo o restante permanece no âmbito das opções pessoais, jamais do patrimônio doutrinário do Espiritismo.

 

Referências Bibliográficas:

  • FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de ÂngelisPlenitude. Salvador: LEAL, 1990.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019. cap. III, XX, XXVII e XXIX.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. 1858–1869. Brasília: FEB. Especialmente os artigos sobre o caráter da Doutrina Espírita, o exame crítico das comunicações e a rejeição dos sistemas.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019. cap. I.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André LuizMissionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André LuizNos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 2021.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito EmmanuelVinha de Luz. Rio de Janeiro: FEB, 2020.