10 julho 2026

A falácia da “desobsessão” por "corrente magnética" um caricato exorcismo bulhufas


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ainda ontem um amigo contou-me que “alguém” espalhava a notícia de que, durante uma palestra minha sobre a chamada "desobsessão por corrente magnética", eu teria sido interrompido por ele, em determinado centro espírita que, estranhamente, jamais visitei e sequer sei onde se localiza. Eis mais um exemplo de como a maledicência prefere a fantasia aos fatos. Em décadas de atividade doutrinária, nunca fui interrompido em uma conferência por quem quer que fosse. A calúnia, porém, continua sendo um recurso daqueles que não conseguem manter o equilíbrio moral.

Mas a mentira desse “alguém” é o aspecto menos importante. O problema real não é a persistência de uma prática apresentada como se fosse inovação doutrinária: a famigerada "desobsessão por corrente magnética", concebida por um grupo de pessoas inábeis que, infelizmente, confundem imaginação com Espiritismo. Criam métodos, inventam protocolos, prometem resultados e imaginam ter descoberto aquilo que Allan Kardec ignorou.

Obviamente não descobriram.

Na Codificação não existe uma única referência à chamada "corrente magnética" como técnica específica de excomunhão de Espíritos obsessores. Kardec ensina que o magnetismo é recurso valioso, capaz de atuar sobre os fluidos e auxiliar no restabelecimento orgânico. Entretanto, jamais o apresenta como mecanismo automático de libertação espiritual.

A obsessão, segundo Kardec, é um problema essencialmente moral. Seu tratamento exige esclarecimento do Espírito perseguidor, renovação íntima do obsidiado, prece sincera, perseverança, educação mediúnica e transformação moral. Não existem atalhos energéticos para substituir o trabalho do Evangelho.

Quando se transforma o magnetismo numa espécie de bizarro "choque anímico", destinado a “desalojar” obsessores por meio de uma corrente humana, abandona-se o método kardequiano para ingressar no terreno das especulações sem controle experimental. Aí justamente contra esse tipo de improvisação que Kardec advertia ao afirmar que o Espiritismo não deve aceitar teorias sem submetê-las ao controle da razão e da universalidade dos ensinos dos Espíritos superiores.

O mais preocupante é que tais práticas costumam vir acompanhadas de promessas de curas rápidas, diagnósticos espirituais infalíveis e linguagem pseudocientífica destinada apenas a impressionar os incautos. É a velha tentação do maravilhoso, sempre presente nas religiões e sempre combatida pela Doutrina Espírita.

O Espiritismo não necessita de modismos. Não precisa de engenharias fluídicas nem de coreografias mediúnicas. Precisa de estudo sério, fidelidade ao método kardequiano e humildade intelectual para reconhecer que ninguém recebeu procuração do Plano Espiritual para reinventar a Doutrina.

Toda inovação pode ser examinada. Nenhuma deve ser aceita apenas porque parece extraordinária. No Espiritismo, autoridade não nasce da criatividade de seus propositores, mas da concordância com os princípios codificados e da confirmação universal dos Espíritos superiores.

 

Enquanto alguns procuram fabricar técnicas esdrúxulas espetaculosas, Kardec continua ensinando o caminho mais custoso e mais eficaz: reforma moral, caridade, estudo, discernimento e educação moral. O restante pertence muito mais ao campo da fantasia e da imaginação humana do que ao da coerência e ciência espírita.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução  de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Diversos volumes. Brasília: FEB.