Jorge Hessen
Brasília -DF
Ainda
ontem um amigo contou-me que “alguém” espalhava a notícia de que, durante uma
palestra minha sobre a chamada "desobsessão por corrente magnética",
eu teria sido interrompido por ele, em determinado centro espírita que, estranhamente,
jamais visitei e sequer sei onde se localiza. Eis mais um exemplo de como a
maledicência prefere a fantasia aos fatos. Em décadas de atividade
doutrinária, nunca fui interrompido em uma conferência por quem quer que fosse.
A calúnia, porém, continua sendo um recurso daqueles que não conseguem manter o
equilíbrio moral.
Mas
a mentira desse “alguém” é o aspecto menos importante. O problema real não é a persistência
de uma prática apresentada como se fosse inovação doutrinária: a famigerada
"desobsessão por corrente magnética", concebida por um grupo
de pessoas inábeis que, infelizmente, confundem imaginação com Espiritismo. Criam
métodos, inventam protocolos, prometem resultados e imaginam ter descoberto
aquilo que Allan Kardec ignorou.
Obviamente
não descobriram.
Na
Codificação não existe uma única referência à chamada "corrente magnética"
como técnica específica de excomunhão de Espíritos obsessores. Kardec
ensina que o magnetismo é recurso valioso, capaz de atuar sobre os fluidos e
auxiliar no restabelecimento orgânico. Entretanto, jamais o apresenta como
mecanismo automático de libertação espiritual.
A
obsessão, segundo Kardec, é um problema essencialmente moral. Seu tratamento
exige esclarecimento do Espírito perseguidor, renovação íntima do obsidiado,
prece sincera, perseverança, educação mediúnica e transformação moral. Não
existem atalhos energéticos para substituir o trabalho do Evangelho.
Quando
se transforma o magnetismo numa espécie de bizarro "choque anímico",
destinado a “desalojar” obsessores por meio de uma corrente humana,
abandona-se o método kardequiano para ingressar no terreno das especulações sem
controle experimental. Aí justamente contra esse tipo de improvisação que
Kardec advertia ao afirmar que o Espiritismo não deve aceitar teorias sem submetê-las
ao controle da razão e da universalidade dos ensinos dos Espíritos superiores.
O
mais preocupante é que tais práticas costumam vir acompanhadas de promessas
de curas rápidas, diagnósticos espirituais infalíveis e linguagem pseudocientífica
destinada apenas a impressionar os incautos. É a velha tentação do
maravilhoso, sempre presente nas religiões e sempre combatida pela Doutrina
Espírita.
O
Espiritismo não necessita de modismos. Não precisa de engenharias fluídicas nem
de coreografias mediúnicas. Precisa de estudo sério, fidelidade ao método
kardequiano e humildade intelectual para reconhecer que ninguém recebeu procuração
do Plano Espiritual para reinventar a Doutrina.
Toda
inovação pode ser examinada. Nenhuma deve ser aceita apenas porque parece extraordinária.
No Espiritismo, autoridade não nasce da criatividade de seus propositores, mas
da concordância com os princípios codificados e da confirmação universal dos Espíritos
superiores.
Enquanto
alguns procuram fabricar técnicas esdrúxulas espetaculosas, Kardec
continua ensinando o caminho mais custoso e mais eficaz: reforma moral,
caridade, estudo, discernimento e educação moral. O restante pertence muito
mais ao campo da fantasia e da imaginação humana do que ao da coerência e ciência
espírita.
Referências
Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. A Gênese.
Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2019
KARDEC, Allan. Revista
Espírita. Diversos volumes. Brasília: FEB.
