07 julho 2026

Emmanuel provoca urticária doutrinária? Uma reflexão sobre o sectarismo às avessas - parte 1



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É curioso observar que alguns “espíritas”, ao ouvirem o nome de Emmanuel, reagem como se estivessem diante de um inimigo da Doutrina Espírita. Bastam algumas letras psicografadas por Chico Xavier para que se acenda uma espécie de "urticária doutrinária", acompanhada de condenações sumárias, rótulos depreciativos e sentenças definitivas. Esse comportamento, longe de representar fidelidade a Allan Kardec, revela  uma preocupante mistura de puerilidade intelectual, orgulho e incapacidade de exercer o discernimento recomendado pelo próprio Codificador.

É perfeitamente legítimo examinar criticamente qualquer obra mediúnica. Aliás, esse é o método espírita. O problema surge quando a análise criteriosa é substituída pelo preconceito sistemático. Há quem rejeite Emmanuel antes mesmo de lê-lo, como se seu nome bastasse para invalidar milhares de páginas dedicadas ao Evangelho, à reforma moral , à caridade e ao aperfeiçoamento moral.

Convém recordar um princípio elementar: Emmanuel jamais reivindicou autoridade codificadora. Nunca afirmou estar reformulando o Espiritismo, nem pretendeu ocupar o lugar de Allan Kardec. Ao contrário, reconheceu reiteradamente a Codificação como fundamento seguro da Doutrina Espírita. Quando recomenda o estudo doutrinário, é evidente que se refere, antes de tudo, às obras fundamentais organizadas por Kardec, sem as quais ninguém pode pretender compreender o Espiritismo.

Talvez determinadas passagens de sua produção suscitem questionamentos (não há problema nisso). Existem opiniões relativas a Roustaing, à teoria das almas gêmeas, à numerologia e à astrologia em algumas respostas da obra O Consolador, bem como outros tópicos que não encontram ressonância explícita na Codificação. OK! Entretanto, transformar essas afirmativas pontuais  em motivo para condenar toda a sua monumental obra representa uma flagrante transgressão da metodologia kardequiana.

O próprio Kardec jamais ensinou que um autor devesse ser integralmente rejeitado por emitir opiniões discutíveis. Seu método consiste exatamente no contrário: examinar, comparar, submeter à razão, confrontar com o Controle Universal do Ensino dos Espíritos e conservar apenas aquilo que resiste ao crivo da lógica e da universalidade. O Espiritismo não conhece nem infalibilidades humanas nem excomunhões doutrinárias.

É paradoxal que alguns se apresentem como "defensores de Kardec", mas adotem um comportamento que Kardec jamais aprovou: a rejeição apriorística, o julgamento absoluto e a desqualificação pessoal. Combatem o dogmatismo enquanto criam outro; criticam o sectarismo enquanto edificam uma nova seita dentro do próprio movimento espírita.

Não deixa de ser sintomático que muitos desses críticos jamais tenham produzido uma única obra comparável ao extraordinário patrimônio moral legado por Emmanuel. Durante mais de quatro décadas, por intermédio de Chico Xavier, suas mensagens inspiraram incontáveis pessoas ao estudo do Evangelho, à prática da caridade, ao combate ao egoísmo, ao consolo dos aflitos e ao aprimoramento espiritual. Ainda que se reconheça a existência de opiniões pessoais de Emmanuel em determinados temas, isso não autoriza apagar o imenso valor educativo de sua produção.

A posição equilibrada sempre foi ensinada por Kardec. Nenhuma comunicação mediúnica possui autoridade automática; nenhuma deve ser aceita sem exame; igualmente, nenhuma deve ser recusada por preconceito. O espírita maduro não idolatra Espíritos nem os demoniza. Analisa. Pondera. Compara. Retém o que é compatível com a Codificação e deixa como opinião aquilo que ultrapassa seus limites.

Há um aspecto psicológico que merece reflexão. Em alguns ambientes, parece existir verdadeira aversão emocional ao nome de Emmanuel. Não se discutem apenas ideias; combate-se a pessoa do Espírito comunicante. Essa postura revela fanatismo e ingênua inversão metodológica. A crítica doutrinária cede lugar ao ressentimento, e a serenidade científica é substituída pela paixão sectária. Quando isso acontece, já não estamos diante do método kardequiano, mas de uma forma sutil “asneiras” (derivado do substantivo primitivo asno) e intolerância.

Também é incoerente afirmar que toda literatura complementar deva ser descartada porque não integra a Codificação. Se esse raciocínio fosse levado às últimas consequências, seria necessário rejeitar igualmente Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano e tantos outros autores que jamais pretenderam substituir Kardec, mas contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da cultura espírita.

A autoridade doutrinária pertence exclusivamente à Codificação. Esse princípio permanece intocável. Contudo, reconhecer essa exclusividade não exige destruir todo o patrimônio subsidiário construído ao longo da história do movimento espírita. Entre a idolatria e a iconoclastia existe o caminho da maturidade.

O que realmente enfraquece o Espiritismo não é a leitura de Emmanuel, mas a incapacidade de muitos leitores aplicarem o método crítico ensinado por Kardec. A Doutrina não precisa de censores nem de tribunais inquisitoriais. Precisa de estudiosos capazes de raciocinar, comparar e dialogar sem paixões.

Quem sente "urticária" apenas ao ouvir o nome de Emmanuel talvez devesse revisitar o capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo que trata do orgulho intelectual. Afinal, a soberba não se manifesta apenas na pretensão de possuir a verdade; manifesta-se igualmente na recusa obstinada de reconhecer qualquer mérito naqueles que pensam ou escrevem de forma diferente.

O verdadeiro discípulo de Kardec não transforma Emmanuel em novo codificador, mas tampouco o converte em adversário da Doutrina. Examina suas páginas com serenidade, aceita o que se harmoniza com os princípios espíritas, suspende o juízo sobre aquilo que considera opinativo e prossegue estudando. Essa postura é infinitamente mais científica, mais humilde e mais espírita do que qualquer condenação sumária motivada por asneirice e/ou antipatias pessoais.

 

Referências Bibliográficas:

 

DENIS, Léon. Depois da morte. 32. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018.